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segunda-feira, 6 de abril de 2020

Despudor...

É a primeira vez que tira a roupa diante dele com uma tal falta de pudor, com uma indiferença tão ostensiva. Essa maneira de despir-se significa: sua presença aqui, diante de mim, não tem nenhuma, mas nenhuma importância; sua presença é igual a de um cachorro, de um camundongo. Seu olhar não vai mexer com a menor parcela do meu corpo. Poderia fazer o que quer que fosse diante de você, os atos mais inconvenientes, poderia vomitar na sua frente, lavar minhas orelhas ou meu sexo, me masturbar, fazer pipi. Você é um não-olho, um não-ouvido, uma não-cabeça. Minha orgulhosa indiferença é um manto que permite que eu me mova diante de você com toda a liberdade, com todo despudor.


Milan Kundera in A Lentidão, Nova Fronteira, 1995, pág. 109   

domingo, 18 de setembro de 2011

Lamentável falta de talento





Desempenhaste com elegância o ato de despir teus dois blocos de perna e teu peito compacto, desejado amante.



Molhada de min mesma, te vi vindo todo nu apaziguar-te na natureza de meu pedaço relvado que não apaziguaste.. Dividiste apenas meu corpo ao meio com teu talo.



Me debatendo em angústia, agüentei teus firmes movimentos tão sem ternura, sem a menor humildade. Procurei em mim alguma sensação que justificasse estar ali. Que nada. Consegui foi me sentir incômoda e machucada, tendo alívio quando acabaste de me regar com teu egoísmo.



Tentar te chamar a atenção para esse desperdício não valia a pena. Também nem daria tempo, tal era tua pressa pouco gentil em se vestir rápido, para, decerto, ir exercer em outro lugar outro momento de lamentável falta de talento.



Joyce Cavalccante in "O Discurso da Mulher Absurda", Editora Maltese, 1994

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

O orgasmo do velho


Pensou também se Emilene lhe concedia orgasmos ao final da jornada por puro prazer e sacanagem (e essa ideia o agradava muito) por puro medo de perder o emprego (besteira. Empregos não faltariam a ela, e até melhores) ou por considerar o orgasmo do velho como parte complementar da faxina, como se limpasse um cinzeiro sujo ou desentupisse a pia, assim, automaticamente, sem pensar no caso, jogando aposentados, cuecas e panos de chão no mesmo saco de roupas sujas.


Julio Cesar Monteiro Martins in "Babá" em "Um prazer imenso – Contos eróticos masculinos".

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

A companhia da solidão



Porém, todos os dias, em casa, só encontrava a companhia da solidão: estirada no tapete, fumando um bira de cigarro do cinzeiro e olhando a televisão desligada. Ele conferia com os olhos passageiros todos os seus objetos e caía de costas no sofá, esperando que sua velha companheira se levantasse e viesse sentar sobre seu peito. Um peso imenso. Era assim que sentia as horas passarem.

Marco Túlio Costa in "Carta ao camaleão" em "Um prazer imenso – Contos eróticos masculinos".

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Raros traseiros alegres


 (...)

Foi assim no correio, antes de encontrar Gigi, cruzei olhares com aquela mulher, a mesma que acabou de sair do meu apartamento. Era das carentes. Rosto comum, seios convencionais, vinte e cinco meio semgraçona. Mas belíssimo traseiro. Não só belo: arrebitado, generoso, expansivo, juvenil. Até mesmo alegre. São raros os alegres. Raríssimos.


Roberto Amado in "O erotômano feliz" em "Um prazer imenso – Contos eróticos masculinos".

terça-feira, 12 de julho de 2011

Ereção do aspirador de pó



(...)

Absurdo ter ciúmes de um aspirador de pó. Aquela ereção enorme do eletrodoméstico, a fazer ruído, a sugar poeira, acariciado pela sensualidade natural das mãos da empregada, a mover o canudo de trás pra frente, de frente pra trás, sobre o tapete de chenile, como se masturbasse o aparelho, sob pretexto de usá-lo na limpeza da sala.

Celestino imaginou o aparelho enlouquecido de tesão, libertando-se das mãos de Emilene no momento do gozo, levantando-se por completo o seu tubo sanfonado de dois ou três metros, e ejaculando nuvens de gazes, poeira, cinzas de cigarro, farelos de pão e alguns insetos secos.

(...)

 Julio Cesar Monteiro Martins in "Babá" em "Um prazer imenso – Contos eróticos masculinos".

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Um prazer imenso - Contos eróticos masculinos




Este livro se propõe a apresentar uma coletânea de contos eróticos masculinos, isto é, escritos por homens. O que seria um texto erótico? Como diferenciá-lo de um texto pornográfico?


O próprio livro explica a diferença: "O pornográfico, com facilidade, leva o leitor à excitação. Mas não atua com a sua imaginação. Ele é cru, apenas relato, descrição, o uso de palavras que nomeiam atos e ações facilmente identificáveis.


O erótico pode ser também levar à excitação, mas estará trabalhando com a imaginação do leitor, com o sonho, com o irreal, com o desconhecido. O conto erótico é um prazer para o leitor, o prazer da leitura e da descoberta de revelações num texto literariamente trabalhado. Em que o escritor também vasculha o profundamente humano."


Ou ainda: "O pornográfico caminha por modelos impostos pelo social e é caricato. Já o erótico é poético, é vital, porque remete o indivíduo à procura de sua identidade."


Na minha avaliação, apenas três dos treze contos do livro conseguiram chegar ao patamar do conto erótico, ou seja, ao "prazer da leitura e da descoberta de revelações num texto literariamente trabalhado."


"Quero mulher, peço deferimento", de Deonísio da Silva, aborda de forma bem humorada a tentativa de resolução de problemas sexuais pela via burocrática em uma escola pública, com suas repercussões jurídicas.

"Suíte ensolarada", de Duílio Gomes, trata de um tema difícil - incesto - mas com final surpreendente. Deixe-se levar pelo texto, sem preconceitos.

"Babá", de Julio Cesar Monteiro Martins, descreve o despertar da sexualidade de um aposentado, de forma divertida e sensual.

Os outros contos são bons, mas, no meu entendimento, não chegam a ser contos eróticos, apenas tratam de sexo, casais, etc.


Melhor se saiu a Joyce Cavalccante em seu livro de contos eróticos "O Discurso da mulher absurda".


 José FRID