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segunda-feira, 23 de março de 2015

Idade

No Novo México, ele sempre acordava moço;só depois que se levantava e começava a barbear-se era que se dava conta de que estaca ficando velho. Sua primeira sensação consciente era a da leve seca brisa soprando pela janela, com fragrância de sol quente, artemísia e trevo branco; uma brisa que fazia o corpo sentir-se leve e o coração exclamar;"Ho-je, ho-je", como o de uma criança.

Willa Cather in A morte vem buscar o arcebispo, citado por James Wood in Como funciona a ficção, Cosac Naify, 2012, pág.197

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Respiração Artificial - Ricardo Piglia




Português é uma língua difícil! Comprando livros pela internet, encontro oferta especial da minha livraria predileta. Clico na foto do livro: "Considerado um dos melhores romances da história da literatura argentina, recebeu o prêmio Boris Vian em 1981". O autor, Ricardo Piglia, eu já conhecia, tendo lido alguns contos e ensaios. Leio mais detalhes: "A ação começa em 1976, ano em que os militares tomam o poder na Argentina, dando início à ditadura  de sete anos que resultará em milhares de mortos e desaparecidos....uma carta de Marcelo Maggi, tio lendário que se afastou da família há anos sem deixar traços, envolve o jovem escritor Emilio Renzi numa investigação com elementos de trama policial...." Como a literatura argentina tem grandes nomes (Borges, Julio Cortázar, Roberto Arlt, Bioy Casares, Ernesto Sabato, etc) e famosa no mundo inteiro, um livro considerado um "dos melhores romances da história da literatura argentina", deveria ser muito bom. Como envolvia, também, história, literatura e política, a oferta era irresistível. Comprei. 

Comecei a lê-lo e percebi o engano. Não do livro, que é bom, prende a atenção, tem partes ótimas, a trama é envolvente, faz algumas suposições interessantes sobre o encontro e a influência recíproca entre Hitler e Kafka, mas não pode ser considerado um dos melhores da literatura argentina. Será que o resenhista do livro queria enganar o futuro leitor? 

Não, o engano foi meu: Ele escreveu: "um dos melhores romances da história da literatura argentina". O que li: "um dos melhores romances da literatura argentina". Ou: um dos melhores romances da história da Argentina". Captaram? O que estava escrito realmente: "um dos melhores romances sobre a história da literatura argentina". O tema principal do livro é a literatura argentina, sua evolução ao longo da história. Ora, para um brasileiro, esse tema é hermético e, pode-se dizer, desinteressante. Os personagens principais do livro são escritores e/ou estudiosos da literatura argentina, discorrendo páginas e páginas sobre a literatura argentina, seu desenvolvimento, comparações com escritores europeus, norte-americanos, formas de escrever, etc. A história não anda, não evolui. Para mim, escrevinhador, a discussão é até interessante. Destaquei alguns trechos que estão no blog, só clicar em "Ricardo Píglia" na barra da direita. Mas para um leitor comum...


Outra resenha do livro: Respiração Artificial (Respiración artificial no original) – Publicado em 1980 por Ricardo Piglia, em plena ditadura militar, é um dos romances de maior êxito de seu tempo. Emilio Renzi, um jovem escritor, reencontra Marcelo Maggi, seu tio e homem envolto num escândalo familiar que, depois de sua passagem pela prisão, vive em províncias diferentes, dedicado a investigar a vida de Enrique Ossorio, um colaborador remoto/espião da era Rosas. Através dele, Renzi encontra com Don Luciano, um ex-senador que há anos está numa cadeira de rodas e é dono de um tesouro familiar: um baú cheio de papéis velhos que pertenceu a Osorio. Romance complexo, ensaístico e erudito, Respiração Artificial abre a década de oitenta para a narrativa dos hermanos e coloca Piglia no centro do sistema literário argentino.


Em resumo: bom livro, mas para poucos.


José FRID

domingo, 30 de novembro de 2014

Descartes e o primeiro romance moderno


(...) O senhor sabia, disse, e começou a andar de novo, que Valéry diz que "O Discurso sobre o método" é o primeiro romance moderno? É o primeiro romance moderno, diz Valéry, diz Tardewski, porque se trata de um monólogo onde, em vez de contar-se a história de uma paixão, narra-se a história de uma ideia. Nada mal, hein? No fundo, visto assim, poder-se-ia dizer que Descartes escreveu um romance policial: como pode o investigador, sem sair do seu assento diante da lareira, sem sair do seu quarto, usando apenas a razão, deixar de lado todas as pistas falsas, destruir uma a uma todas as dúvidas, até conseguir finalmente descobrir o criminoso, isto é, o "cogito". Porque o "cogito" é o assassino, quanto a isso não tenho a menor dúvida, disse Tardewski (...)


Ricardo Piglia in Respiração artificial, Companhia das Letras, 2010, pág.174

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Amor

- Você me ama?
- Hum?!
Foi assim. Boca, boca. Os lábios. Lábioslábios. Boca em frente da boca. Bocaboca. Lábioslábios. Duas bocas, os lábios. Silêncio. Ex-pec-ta-ti-va. O impulso. Olhos se fechando, olhos se fechando, lábioslábios se abrindo, língua descobrindo língua, uma violência terna, a mão apalpando as costas, subindo até os cabelos: o beijo crescendo, crescendo - lábioslábios -, cigarro caindo ao chão, silêncio - como se tudo começasse-terminasse no silêncio; uma rosa de fogo ou o beijo: ternura se definindo em sexo, lábioslábios, a mão descendo pelas costas, depois subindo, depois descendo; o silêncio agora é pudor (mas ainda existe!); a cabeça encostada em seu ombro, a mão dele nos cabelos longos. Lábios e lábios, novamente.
- Você quer ir embora?
- Hum?
- Você não quer viajar?
- Pra onde?
- Pra Galáxia Exterior...
- Você me leva junto?
- Levo.
- Então, vamos...
Flávio Moreira da Costa in "O desastronauta", Editora Expressão e Cultura, 1971,  págs.116/117.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

O desastronauta - Flávio Moreira da Costa



É um livro de 1971, provavelmente escrito no fim dos anos sessenta, época nele retratada. O personagem principal escreve, traduz livros, faz faculdade, participa do movimento estudantil, fuma à beça, namora, tem mil dúvidas existenciais, .... talvez como o próprio autor, que tinha menos de 30 anos quando da publicação do livro.

Como Rubem Fonseca destaca na orelha do livro, ele "não tem enredo no sentido tradicional, os incidentes arbitrariamente concatenados numa ordem lógica", ..., "não é um livro fácil, com a assimilação instantânea dos veículos de cultura de massa ou a superficialidade interpretativa  do 'midcult'. Sua linguagem polissêmica força a participação ativa do leitor, afinal premiado com a revelação de uma experiência emocional, estética e intelectual das mias ricas", ou seja, poderíamos classificar como um romance experimental. E como tal, tem algumas sacadas geniais, desafiadoras, e algumas partes mornas, cansativas, prolixas, ...

Li este livro após "Os subúrbios da criação", de crítica literária, do mesmo autor, que mostra suas influências literárias, autores prediletos, etc., o que resultou num preparo para o llivro em pauta. Li e reli, realmente este não é um livro fácil, mas interessante. Como o autor (ou o narrador) menciona no texto, depois das Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis), Memórias Sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade, ambos os livros citados e elogiados no "Os subúrbios da criação", temos agora as "Memórias falsas ou Desmemórias de Cláudio Crasso", o personagem do livro. Transcrevendo:

"Se você é do tipo que quer as coisas explicadinhas e tá-tá-tá-e-coisa, o problema é seu, porque eu sou o caos. E depois daquelas Memórias Póstumas e das outras, das Memórias Sentimentais, só poderiam surgir agora essas memórias falsas - porque escritas com o devido distanciamento: a Geografia, a história e a Economia nesse livro pertencem ao domínio da Imaginação - ainda que às vezes "real"; porque a ficção é fixação. Vou me colocando desde o início em boa companhia, depois de Machado e Oswald - eu. Eu, a terceira etapa de um processo desideológico brasileiro - como pedem os tempos - visto através da lupa de sua literatura. Pois é o que eu faço - Literatura - ainda que me desepere. É o que me resta e o que me falta; o excesso e a escassez." (1. Começo de Conversa, pág.19)

Destacarei algumas partes em outros posts mais adiante.

É o primeiro livro do autor, que depois teve várias obras premiadas: Prêmio Jabuti para, Prêmio Machado de Assis, Prêmio da União Brasileira de Escritôres e Prêmio Nestlé de Literatura para "O equilibrista do arame farpado", de 1997; Prêmio Jabuti para "Nem todo canário é belga", de 1998; Prêmio nacional de Contos do Estado do Paraná para "Malvadez Durão", de 1982.

A leitura de "O desastronauta" provoca a vontade de ler os outros livros do autor, para acompanhar sua evolução literária: onde foi dar todo o experimentalismo de "O desastronauta"?

José FRID

ps: o livro tem como subtítulo "ok, Jack Kerouac, nós estamos  te esperando em Copacabana". Exceto pelo personagem ter lido alguns livros do Kerouac, não percebi o sentido da citação. Falha minha?



quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Festa no Covil - Juan Pablo Villalobos



Livro muito interessante pelo tema abordado - narcotráfico no México - e pela forma da narrativa: monólogo de um garoto, filho de um narcotraficante chefe de cartel, que está retido no palácio da família por questões de segurança.


O garoto tem pouco contato com o mundo exterior o que, aliado à pouca idade e experiência de vida, faz com que ele relate sua vida de forma muito peculiar, filtrando a violência externa pelos meios que dispõe. Violência cotidiana, para a qual é preparado pelo pai, que quer forjar um herdeiro preparado para assumir o cartel. Além de prepará-lo para a violência dos negócios, o pai tenta prepará-lo para a vida, por meio de professor particular muito culto, escritor, militante esquerdista e ex-dono de agência de publicidade.


Ele adora chapéus  - tem uma coleção imensa - e usa um para cada ocasião. Como quase tudo é mistério na sua vida, o chapéu de detetive é muito usado, quando ele caminha pela mansão atrás de respostas. A mansão possui um zoológico com várias espécies de animais, inclusive leões e tigres, que ajudam a sumir com os inimigos...


A banalidade do mal é revelada pelos olhos do menino. Cabeças cortadas, corpos varados por balas, facadas, etc. nada emociona o garoto, que considera essas coisas meros fatos da vida. Por falar nisso, o menino admira os franceses pela forma que eles cortam as cabeças dos reis e rainhas...

O pequeno livro - pouco mais de setenta páginas de texto, com no máximo trinta linhas por página - foi publicado originalmente na Espanha e já traduzido na Alemanha, Reino Unido, França, Holanda e Brasil, etc. Será que faz jus a tanto sucesso? 


Sim!! O livro vale a pena ser lido e traduzido para as diversas línguas. Leia!!!


O livro é bom, bem escrito, inovador e relata a relação de Julio e Emilia, do começo ao fim e mais um pouco, ou seja, a vida dos dois após o término do relacionamento. O estilo do escritor pega o leitor logo nas primeiras linhas e vai prendendo sua atenção até a última página.


O escritor conta todo o enredo logo no começo do livro: "No final ela morre e ele fica sozinho, ainda que na verdade ele já tivesse ficado sozinho muitos anos antes da morte dela, de Emilia. (...) No final, Emilia morre e Julio não morre.O resto é literatura." Mesmo sabendo a estória toda, o leitor não larga o livrinho, quer saber como as coisas aconteceram. Detalhes, detalhes, que o autor não sonega.


Leia!!


José FRID



quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Bonsai - Alejandro Zambra



O pequeno livro - menos de oitenta páginas de texto, com no máximo vinte linhas por página - ganhou no Chile o Prêmio da Crítica e o Prêmio do Conselho Nacional do Livro como melhor romance de 2006. Já foi traduzido na França, Itália, Holanda, China, Israel, Brasil, etc. Será que faz jus a tanto sucesso? Será que as premiações foram merecidas?


O livro é bom, bem escrito, inovador e relata a relação de Julio e Emilia, do começo ao fim e mais um pouco, ou seja, a vida dos dois após o término do relacionamento. O estilo do escritor pega o leitor logo nas primeiras linhas e vai prendendo sua atenção até a última página.


O escritor conta todo o enredo logo no começo do livro: "No final ela morre e ele fica sozinho, ainda que na verdade ele já tivesse ficado sozinho muitos anos antes da morte dela, de Emilia. (...) No final, Emilia morre e Julio não morre.O resto é literatura." Mesmo sabendo a estória toda, o leitor não larga o livrinho, quer saber como as coisas aconteceram. Detalhes, detalhes, que o autor não sonega.


Os dois são estudantes de Letras em Santiago, Chile, e o romance passa pela leitura e/ou citação de muitos livros. Os dois, como é previsível, mentem que leram todo o Proust, fingindo ser uma releitura a leitura conjunta inicial. São meio perdidos, talvez pela confusão de leituras?


Julio chega a escrever um livro só para encantar uma namorada, dizendo que o manuscrito que escreve seria o livro de um autor que ela admira, que ele estaria digitando. Amor ou sexo?


O livro vale a pena ser lido e traduzido para as diversas línguas. Quanto a merecer prêmios ... quais eram os outros romances concorrentes??


José FRID




sexta-feira, 22 de junho de 2012

Da casa da Moira à Praça Saenz Peña - Antonio Cruz



O livro conta a história de um oficial do Exército Brasileiro, revolucionário de primeira hora e ativo participante do combate aos opositores armados. O texto inicia-se em 1964, às vésperas da Revolução (ou do Golpe) Militar, recua até os pais dele, o casamento e a vida na aldeia em Portugal, a vinda do pai para o Brasil e depois de toda a família, retornando a 64 e indo até o início dos anos 70.


O primeiro capítulo do livro é duro de ler, pois num texto maçante o autor procura exaltar os feitos do militar, do exército, numa pregação militar-nacionalista anti-comunista. A própria orelha do livro destaca que "o leitor que alcançar o fim do Capítulo I, ficará ávido para ler o restante e acreditamos que não largará o livro, enquanto não terminar de lê-lo". 


Entretanto, se o leitor consegue superar este malfadado capítulo, a história torna-se muito interessante a partir do segundo capítulo, abordando a vida numa aldeia no interior de Portugal na primeira metade do século XX. O autor mostra em detalhes como uma família pobre sobrevivia na época, seus trabalhos, comidas, bebidas, roupas, casas, desejos, as relações sociais e políticas (em plena ditadura do Salazar), o sonho de "fazer a vida" no Brasil, etc.


O autor apresenta notas de rodapé para explicar palavras que ele julga serem desconhecidas para os leitores. Seriam gírias e expressões cariocas, militares, portuguesas, etc. Seria louvável a intenção do autor se não fosse a total falta de critérios para escolher qual palavra destacar. Por exemplo, ele explica o que é "major". Precisa? Será que algum leitor não saberia que é uma patente de oficial de exército? O autor não explica que "capitão, coronel, general, etc." são patentes de oficiais do exército. Por que a fixação no "major"? Outras notas de rodapé desnecessárias: "com as calças na mão", "na moita", "titica", "cagão", "motorneiro", "filar", "porradas","pé direito", ... mas existem as úteis: guita, coiros, camisolas, coscoréis, etc.


Recomendo a leitura do livro para quem deseja conhecer como era a vida numa aldeia portuguesa na primeira metade do século XX e a vida de imigrantes no Rio dos anos 40, 50.


José FRID

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Contos e Romances


Rasgar contos é algo irremediável, porque escrevê-los é como despejar concreto. Em compensação, escrever um romance é como colar ladrilhos. Isso quer dizer que se um conto não se consolida na primeira tentativa é melhor não insistir. Um romance é mais fácil: volta-se a começar.


GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Écouteur, audiófilo

- Você não está dizendo quase nada. Quase nunca diz nada quando eu venho aqui, sabia?

- Estou ouvindo. Eu ouço. Eu sou um écouteur, um audiófilo. Sou um fetichista da fala.

- Hmmm. Mas é muito erótico, você sentado aí, escutando.

- Não é tão estranho assim.

- Não mesmo.

Philip Roth in "Mentiras" (Deception)

terça-feira, 23 de junho de 2009

Um bom Remédio indicado para espantar melancolia, regular a circulação do sangue e a hipocondria


Me chamem de Ismael. Alguns anos atrás - não importa precisamente quantos - tendo pouco ou nenhum dinheiro na bolsa, e nada que me interessasse particularmente em terra firme, decidi navegar um pouco por aí e ver a parte aquosa do mundo. É um jeito que tenho de espantar a melancolia e regular a circulação do sangue. Sempre que me pego ficando amargo, mandíbula tensa; sempre que em minha alma se faz um novembro chuvoso e cinzento; sempre que me vejo detendo involuntariamente o passo diante de agências funerárias e seguindo a cauda de todo cortejo fúnebre que encontro; e especialmente sempre que minha hipocondria leva a melhor sobre mim de tal forma que só um forte princípio moral me impede de sair à rua e, deliberadamente e com método, aplicar murros na cara dos passantes - nesses momentos, sei que está na hora de me fazer ao mar o mais depressa possível.


Herman Melville in "Moby Dick", tradução de Sérgio Rodrigues

domingo, 1 de março de 2009

Leituras de Carnaval - Marguerite Duras



Aproveitei o carnaval para ler esses dois pequenos romances da Marguerite Duras:




"Olhos azuis, cabelos pretos" e "Dez e meia da noite no verão". Eles não versam sobre o carnaval, mas em ambos as personagens estão gozando suas férias de verão, ou seja, têm disponibilidade de tempo. E tempo sobrando ....




Pouco acontece nos dois romances, são fiapos de enredo. O que vale mesmo é a forma como ela escreve, são frases precisas, afiadas, agudas. As imagens construídas, cinematográfias, teatrais. Os delírios dos personagens, o fluxo de pensamento. O destaque de pequenos incidentes. Você pega o livro e não larga até o fim.




No primeiro, que se passa numa cidade marítima francesa, um homem (homossexual?) contrata uma mulher mais jovem para passar as noites com ele, para evitar um possível ataque de loucura que poderá provocar seu suicídio. Eles se trancam numa sala de uma casa à beira mar, parcamente mobiliada, noite após noite, nús, e conversam, conversam, conversam ...... descobrem que têm um interesse em comum, um estrangeiro que estava veraneando na cidade e que partiu. Encontram-se e se perdem ....




"Ela diz que é o contrário, que não pode esquecê-lo. Que uma vez que nada se passa entre eles, permanece a memória infernal do que não chega a acontecer."




No outro livro, um grupo de franceses, em viagem pela Espanha, é obrigado a se refugiar numa pequena cidade por causa de um temporal. Estão a caminho de Madri. São um casal e a filha, acompanhados por uma amiga do casal. Na cidade ocorreu um crime passional, que envolve toda a população. A polícia cercou a cidade e espera pegar o assassino pela manhã. E chove, chove, chove. O casal está em crise, a muher bebe muito, o homem tem grande interesse na amiga. Os hotéis estão lotados, eles têm que ficar pelos corredores. A noite é de reflexão, não de ação.




José FRID

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

As memórias do livro



Acabei de ler - Muito Bom

Muito bem escrito, história empolgante. Versa sobre um manuscrito medieval judaico, achado em Sarajevo - Bósnia.


Misturando presente e passado, vai contando a origem e os percalços pelos quais o manuscrito passou, além da história das pessoas envolvidas com ele, ao longo do tempo. Por exemplo:


O manuscrito, ao contrário de outros, tem ilustrações do tipo "católico"? Vamos a 1480-92, na Espanha, descobrir como elas surgiram.


Capa danificada na última reencadernação? Viena, 1894


Uma asa de inseto no meio das folhas? Iuguslávia, 1940


Como o livro sobreviveu à Inquisição? Veneza, 1609


Muita imaginação, muita pesquisa.


Quem gostou do Código Da Vinci, vai gostar dele.


Posso emprestar o meu volume!!


José  FRID

sábado, 12 de abril de 2008

Arrufos Metropolitanos IV


(Se você não leu, leia o primeiro capítulo aqui; O segundo capítulo pode ser lido aqui e o terceiro aqui)



Agora, deleite-se com o quarto capítulo:

6:23

O fiscal do Metrô presta atenção no homem que sai do último vagão do trem que acaba de chegar do Jabaquara. Ele não sabe, objetivamente falando, o que lhe chamou a atenção no rapaz. Provavelmente um alerta do seu "feeling", desenvolvido nos muitos anos em que observa os passageiros.

Talvez seja porque, naquela hora, as pessoas costumam pegar o Metrô no sentido contrário. Os poucos que descem ali no final da linha estão apressados, irão tomar outras conduções, quem sabe para Guarulhos, têm horários a cumprir. Aquele não: desceu como se não tivesse para onde ir, sem pressa, sem compromisso. Sonado? Drogado? Tanto faz: ficará de olho nele, através das suas mil câmeras, até ele sair da sua estação.

O rapaz sobe as escadas, mas não se dirige à saída. Examina o local. Planta-se bem no acesso à plataforma dos trens para o Jabaquara. O operador do Metrô fica alerta com esse comportamento inusual. Aciona o zoom para tentar prever a intenção do cidadão. "Este lugar está bom. Ela não passará sem que eu a veja", pensa Pedro Paulo. Sabe que tem que ficar alerta, o movimento é grande. Entretanto, o objeto da sua busca é restrito: mulher bonita, estatura mediana, de saia e paletó cinzas, camisa branca, sapatos e bolsa pretos, cabelos esticados e presos por um laçarote de veludo vinho. Como da primeira vez.

Os dois se esbarraram na ida ao trabalho. Ele entrou na estação da Sé, vindo da Zona Leste. Ela já estava no vagão, vindo do Tucuruvi. A multidão o empurrou para perto dela, ou melhor, para cima dela. Não evitou. Já ficara espremido com muitos tipos desagradáveis, tivera sorte naquele dia.

Cabelos presos, nuca exposta. Metrô lotado, seu rosto colado na nuca dela, respira sentindo o seu perfume. O pequeno brinco de pérola atrai sua atenção. Deseja mordiscar seu delicado lóbulo e engolir a jóia. Contém-se. Ela pode fazer escândalo e ele morreria de vergonha. O trem dá uma freada brusca e ela pisa no pé dele. "Desculpe", diz ela. "Não foi nada", responde. Entabula conversa, esquece de descer na sua estação, mas consegue seu telefone.

E passado mais de ano, está ali, à sua espera. Cansado. A noite foi brutal. Nem sabe se dormiu realmente. A mente num turbilhão de emoções. Descontrole. Pensamentos mil aflorando, mil outros se desvanecendo. Tonturas, suores frios. Risadas desconexas. Desespero. Alucinações.

O sumiço repentino tinha lhe deixado preocupado e confuso. Onde ela estaria? O que acontecera? Será que realmente a tinha visto na estação? Ou foi mera miragem? Ela teria dito que iria comprar bilhetes? Ou se despedido? Seria tudo fruto da sua imaginação? Imaginara sua presença, a saia florida, a grande mala preta. Seria tudo apenas delírios? Certa apenas a ligação dela registrada na memória do seu celular. Mas ela teria realmente pedido para ele ir buscá-la? Ou entendera mal sua fala? Ou entendeu tudo errado, a mente turvada pelo desejo de lhe entregar o anel? Quem sabe? Como saberia agora?

Na noite passada, sozinho na estação, percebera que ela era uma estranha para ele. O que sabia sobre ela poderia ser resumido em poucas palavras: Adriana Pimenta; levemente católica, com pitadas budistas, espíritas, Chico Xavier e Paulo Coelho; palmeirense; família de Avaré, tem pai, mãe, irmãos, tios, avós, primos; mora no Tucuruvi, trabalha em escritório na Saúde; solteira, sem filhos; gosta de cinema de ação, suspense, terror – para ela cinema é diversão e só; não gosta de filmes românticos, diz que a vida real é diferente; dieta permanente, mas louca por feijoada; cor de cabelo indefinida, depende da estação do ano ou da lua; adora roupas e sapatos novos (mas que mulher não gosta?); e só.

E não sabia seu nome completo, seu endereço residencial nem do emprego, o telefone de casa nem do trabalho, e-mail, orkut, msm, nada. O nome dos pais, dos irmãos, dos amigos, dos colegas de trabalho, nadinha. "Será que ela planejara seu sumiço nesse tempo todo que passaram juntos?", indaga aos seus botões no meio do corredor de acesso da estação Tucuruvi. Pensa nela, mas olha atento as mulheres que passam. Atento também está operador das câmeras da estação. A qualquer movimento estranho ou perturbação acionará os seguranças.

E Pedro Paulo conclui agora, ali de pé no corredor, exausto, cabeça a mil, que até essas parcas informações poderiam ser falsas. Ela se chama mesmo Adriana? Seria solteira mesmo? Sem filhos? Teria realmente pai, mãe, irmãos? Morariam no Tucuruvi? Ela realmente trabalharia numa empresa na Saúde? A família seria de Avaré? Ou ela teria marcado no Metrô para ele não ver de que cidade estaria vindo?

Essas questões o deixam tonto, aliadas à falta de alimentação desde a noite passada. O Metroviário percebe que algo está errado com ele. Para não alarmá-lo, envia um faxineiro para limpar o corredor e ficar de olho nele.

Pedro Paulo percebe que, planejado ou não, o único contato entre eles era pelo celular que lhe dera aproveitando uma promoção do dia dos namorados, com ligação sem custo entre eles por vários meses.

Toma consciência que, na verdade, não fora ela que escondera propositalmente aquelas informações. Ele simplesmente não as pedira. Não o fez porque não tinha interesse em mais nada do que ela. O celular lhe satisfazia, falavam todos os dias. E ele queria saber dela, não de parentes e amigos. Egoisticamente, desejava ela só para ele. Quando estavam juntos não queria saber de outros.

Só poderia apontar como verídicas duas daquelas poucas informações que tem sobre ela: o Palmeiras e a feijoada. Quase todos os sábados se encontravam para comer feijoada. Poderiam escrever um guia das melhores e piores feijoadas da cidade. O ponto alto de cada uma. O que evitar, o que escolher. Qual a melhor batida de limão, a couve, o pagode. Disso ela tam bem gostava.

E o Palmeiras. Vira ela e outros milhares de bobos cantando "au, au, Edmundo animal" no Parque Antártica, tendo de esconder seu coração santista. Encontraram-se na estação do desencontro e foram à pé até o estádio. Ganhou dela um chaveirinho suíno para colocar as chaves do apartamento. E ela só entrava nele se ele exibisse o porquinho com as chaves.

O resto, agora apenas incertezas. E agora, sem celular, como encontrá-la? Lembrou que o uniforme dela tinha um símbolo estampado com o nome da empresa, no paletó e na camisa. Em vermelho ou vinho, discreto, combinando com o laçarote que prende seus cabelos. Já tinha lido o nome uma vez, mas agora não se lembra de jeito nenhum. Péssima hora para falhar a sua memória. Caso lembrasse, poderia procurar no catálogo telefônico. Também não lembra do símbolo, poderia procurá-lo nas ruas da Saúde.

Lembrou que, quando não está trabalhando, ela gosta de cabelos soltos e brincos grandes, geralmente aros dourados ou prateados. "Será que ela opta por eles para ele não engoli-los?" Resolveu ficar atento também com as mulheres de cabelos soltos, quem sabe alguma vez ela poderia ir trabalhar com os cabelos soltos, prendendo-os só no emprego.

10:12

E nada. A estação começa a ficar vazia outra vez. E ele firme no seu posto de observação. Andara um pouco no corredor para movimentar as pernas. A fome permanece. Procura nos bolsos alguma bala para mitigá-la. Acha um bombom "Serenata de Amor", que tinha planejado entregar para ela junto com o anel. Desembrulha-o com cuidado, coloca o doce na boca e lê a mensagem estampada no lado de dentro da embalagem: "As pessoas entram em nossa vida por acaso, mas não é por acaso que elas permanecem."

Acaso? Realmente ela entrara na sua vida por acaso, uma freada brusca do trem do Metrô. E seu sumiço? Por acaso seria apenas um desencontro? Adiantaria ele ficar ali mais um pouco? Ou melhor seria tomar trens ao acaso até encontrá-la?

"Posso ajudá-lo", o segurança pergunta-lhe, arrancando-o de seus pensamentos. "Não, obrigado. Vou pegar o trem para o Jabaquara", diz ele de chofre, se dirigindo à plataforma de embarque. Iria deixar o acaso conduzi-lo até ela. Como vaticinou o bombom, não seria por acaso que ela ficaria com ele.

E Adriana Pimenta, se é que esse é o nome dela, o que estaria fazendo? Breve, aqui!

terça-feira, 1 de abril de 2008

Arrufos Metropolitanos III


Se você não leu, leia o primeiro capítulo aqui

O segundo capítulo pode ser lido aqui

Agora leia abaixo o terceiro capítulo!


Ele estava tão absorto em seus devaneios que não viu quando ela saiu da fila com os bilhetes numa mão e a mala na outra. Ela olhou para ele e, mesmo de longe, viu a caixinha de veludo preto na mão dele e sua cara apalermada. Pressentiu tudo. E entrou em pânico!

Sem pensar, num átimo, mudou de rumo, passou célere direto pela entrada do Metrô e se dirigiu à praça de alimentação. Não estava preparada para o que imaginava que aconteceria. Nervosa, comprou um pão de queijo e um refrigerante diet para se acalmar. O que faria agora? Ele não tinha visto ela passar nem conseguiria vê-la de onde estava. Tinha um tempo até ele vir procurá-la. Acalmar-se era a meta agora. Para poder pensar no que fazer.

Aquela caixinha certamente continha um anel e, como não era seu aniversário, dia dos namorados ou Natal, só poderia significar um pedido de noivado ou de casamento. Ela se arrepiou toda com a idéia. E não era só a caixinha. O rosto dele dizia tudo. Apalermado, enamorado, enlevado. O que teria havido naquela semana para ele reagir assim?

E ela, por que teria entrado em pânico? Não se precipitara? Não sentia nada por ele? Não, não é que desgostasse dele, mas ele não era, no momento, tudo o que ela esperava de um homem. E só se comprometeria quando o outro fosse tudo para ela. Ele era simpático, carinhoso, boa companhia, divertido, bom sexo, mas ela esperava mais. Mais o quê? Exatamente não saberia dizer no momento, mas reconheceria na hora se topasse com alguém que tivesse esse "algo mais".

Sorriu ao se lembrar de um e-mail que demonstrava serem as mulheres curiosas e eternas insatisfeitas. Mostrava um "shopping de homens" no qual as mulheres podiam escolher o seu homem. Só havia uma única condição: elas deveriam entrar na loja pelo térreo e ir subindo verificando as "ofertas", sem poder voltar para o andar inferior. As "qualidades" físicas, financeiras, amorosas, sexuias, familiares, etc. dos homens iam subindo a cada andar, mas, mesmo assim, as mulheres acabavam indo até o último andar, a saída, ficando sem nenhum homem.

Hoje ela estava assim. Insatisfeita. Curiosa. Reconhecia que ele era um nível "três" ou "quatro", mas ela queria ver até o último, mesmo com risco de perdê-lo. Quem sabe poderia entrar na loja outra vez. A vida não era tão rígida como o shopping da piada.

Evitar o anel. E todo seu significado. Manter a porta do shopping aberta. Essa era o objetivo agora. Caso ela desse chance para ele fazer o pedido, estaria criando um problema, pois certamente não teria coragem de recusá-lo para não magoá-lo. E ficaria enredada em um compromisso nunca desejado até o momento. Lacrada a porta do shopping.

Ademais, tudo isso era uma loucura! Ele nem conhecia seus pais! Sua família, seus amigos, nada. Sempre tinha sido só os dois. Bastara. Mantivera ele afastado do seu pessoal. Por que fizera isto? Não saberia dizer. Aconteceu e só. Quando percebera, as coisas já estavam assim postas. Foi deixando, deixando, um dia a situação se resolveria, se necessário fosse. Agora pensando no assunto, ela se pergunta se não seria um sinal de que não queria compromisso com ele? Ou seria ao contrário, não gostaria de dividi-lo com ninguém?

Aquela semana sem vê-lo nem falar com ele mostrara que ela podia passar bem sozinha. Ou até melhor, quem sabe. Não sentira saudades dele, ou sendo mais sincera, nem lembrara dele naquela semana agitada em Avaré. E ainda percebera que estava aberta a novas relações. Ainda se lembrava do baile de ontem, como os homens despertavam seu interesse, seu desejo. Rodrigo, Gustavo, Paulo, Leonardo ...

A aceitar aquele anel teria que abrir mão de tudo, de mil possibilidades que ainda poderiam aparecer. Fidelidade era muito importante para ela. Enquanto o anel não pousasse no seu dedo, ela era livre. Nunca tinham falado de namoro, compromisso, essas coisas. Foram ficando, ficando .... até o maldito anel aparecer hoje daquela maneira.

Concluiu que tinha tomado a decisão certa de evitar o anel nesse momento. Entretanto, criara um problema para ir embora da estação. Ele estava plantado no Metrô. Ônibus não dava para tomar àquela hora, ainda mais com a mala cheia de roupas que não usara (um dia aprenderia, tinha esperança!). Sem dinheiro para táxi. Restava apelar para a família. Ia usar o celular quando lembrou que ele poderia ligar para ela. Orelhão seria a melhor opção. Mas não ali, que ele poderia chegar a qualquer momento. A fuga tinha que continuar.

Foi para baixo, na plataforma externa dos ônibus municipais. Chamou o pai para buscá-la, alegou o peso da mala e a hora tardia. Explicou que não ligara da parada na estrada porque não dera tempo. Celular descarregado também. Ele ficou feliz em resgatar sua princesa. Disse que levaria o Olavo, que morria de saudades. Enquanto esperava o pai, tinha que se esconder. Ficou atrás de um pilar, após a fila do ônibus urbano, na ponta da calçada. Dali ele não a veria nunca, mas o pai a enxergaria sem dificuldade. O problema era o cheiro de pipoca, que impregnava o ar. Será que resistiria? Seria necessário, pois o pipoqueiro estava do lado da rampa, por onde ele poderia surgir. Nem pensar em encontrá-lo agora! Como explicaria a fuga?

Esperando, conversa com seus botões. Por que ligara de Avaré para ele avisando a hora da chegada? Saudades? Não esquecera dele a semana toda? Ato falho? Certamente não era pelo conforto, comodidade. Ele não tinha automóvel, sabia que ele sugeriria irem de Metrô, pelos bons momentos. Como ocorrera e ela tinha aceitado. E arrastara a pesada mala até lá em cima. Que loucura a dela. Ligara por que, mesmo? Não podia esperar chegar em casa para falar com ele? Ou na segunda-feira? Já tinha passado a semana fora, custava ficar mais um dia? Se arrependimento matasse ....

O pai estava demorando. Quanto mais tempo passar, maior o risco dele encontrá-la. E o pipoqueiro não pára de fazer pipoca. Cheirosa, com bacon. É o fraco dela. "Vai dormir, homem de deus!" "Corre, corre, os fiscais vêm aí!" Ela tem que resistir. Procura na bolsa algo para comer e se distrair. Encontra um bombom amarelo meio amassado. "Serenata de Amor". Ganhou Del uma caixa quando partiu. Foi naquela mesma estação. Ele viera se despedir, até cantarolara ao entregar os bombons, ela se envergonhara toda. "Para lembrar de mim", dissera ele. Comera alguns na viagem, distribuiu outros durante a semana, restara aquele unzinho, solitário salvador.

Desembrulha-o com cuidado, coloca o doce na boca e lê a mensagem estampada no lado de dentro da embalagem: "Se você ama alguém, fale. Corações podem ser partidos por palavras que nunca foram ditas". Pronto. Complicou! "Ai! E agora, o que fazer?"

A seguir o "oráculo da paixão", como os dois batizaram aquelas mensagens impressas no verso da embalagem, ela deveria voltar e conversar com ele, colocar tudo "em pratos limpos", como se diz. Mas se ele não deixar ela falar, empurrar o anel na cara dela? Ou ajoelhar? Ou chorar? (ele é muito emotivo, chora à toa no cinema) "Ai! E agora, o que fazer?"

Nunca lera sozinha as mensagens. Só achava graça delas lendo com ele. Teria validade lendo sozinha? Ou podia se referir a outro casal, ela com outro homem, alguém de Avaré. Que falta fazia um amiga naquela hora. Nunca se sentiu tão sozinha. Está com vontade de chorar. Escuta uns latidos esganiçados, um carro, papai! Salva, enfim!

O pai quer fazer graça, ela o apressa, "vamos rápido que preciso ir ao banheiro" diz ela. Está em fuga, não tem tempo para churumelas. Ele pega a mala, verga com o peso, reclama, ela entra no carro com cuidado para não deixar o Olavo escapar, buzina para apressar o pai, ele bate o porta-malas, corre, entra, bate a porta e sai cantando pneus (não bem cantando, só assobiando). Ela dá uma "banana" para o pipoqueiro – resistira – e se assusta com a imagem do "senhor do anel" ao pé da rampa.

Será que ele a enxergara?

Próximo capítulo em breve, neste mesmo canal!

José FRID

sexta-feira, 28 de março de 2008

Arrufos Metropolitanos - II

(Para ler o Capítulo I clique aqui)


O celular! Por que não pensara antes nele? "O número chamado está desligado ou fora da área de operação". Tanto tempo sem celular que ela deve ter esquecido de ligá-lo, pensou. Tentou novamente, a mensagem se repetiu. Ela tinha ligado para avisar a que horas chegaria. Será que ela usara outro celular? Ele consulta a memória do telefone e aparece o registro do celular dela. Talvez a bateria esteja descarregada, especulou. Aguardaria por ela mais um pouco.

Será que ela iria gostar do anel? Ela era enjoada, trocava tudo que ele lhe dava. Ele não acertava o gosto dela, mas reconhecia que ela sempre trocava o presente dele por algo melhor. Danadinha, vaidosa como o quê. Esse comportamento trazia um problema para ele, pois não podia comprar nada muito barato, ponta de estoque ou em liquidação. Só podia entrar em lojas com amplas possibilidades de troca. Considerara isso quando comprara o anel. Adquirira uma peça mais cara do que pensara inicialmente só para provar o tamanho do seu amor, não por ter caído na esparrela da vendedora.

Tirou novamente a caixinha do bolso, abriu e a pedra faiscou. Ele achou o brilho meio embaçado, sem vida. Procurou um local com luz mais forte e ela reluziu vivamente. "Com a luz mortiça do vagão do metrô o anel não fará o efeito desejado, ela não dará o devido valor", pensou. Tinha que entregá-lo sob uma luz bem forte. Poderia até ser ali mesmo, sob aquela luz. Não importava o local, mas a luz. E ao sol, seria melhor? Deixaria para entregá-lo no próximo domingo, num parque, à luz do sol? Na dúvida, ele deveria adiar a entrega do anel? Não sabia mais o que fazer, a segurança inicial tinha se esvaído.

Voltou para seu posto de observação. Nem sinal dela, já estava preocupado. Olhou o relógio, dez e quinze. Nem tinha percebido que já era tão tarde. Tinha ficado imerso em seus devaneios e nem percebera o tempo passar. Ligou novamente para o celular dela, que continuava desligado. Será que ela tinha passado por ele sem vê-lo? Não, seria impossível, ela sabia que ele estava aqui a esperando.

Examinou cuidadosamente o corredor dos banheiros. Ela não estava na fila de espera. Aguardou um pouco, entraram e saíram mulheres e nada dela aparecer. Desceu à plataforma do Metrô, nem sinal dela ali também. Voltou às catracas. Teria que sair para procurá-la. Estava profundamente arrependido de ter marcado encontro ali nas catracas do Metrô. "Por que não marcara esperá-la na plataforma de desembarque do ônibus", se pergunta. Não haveria desencontro, poderiam pegar um táxi e irem direto para a casa dele, matar a saudade.

E lá entregaria o anel, talvez ajoelhado. Uma garrafa de Periquita, uma comidinha, tudo daria certo. Mas agora não, tinha feito bobagem. Talvez tivesse respondido para ela "nas catracas", quando perguntara onde se encontrariam, por força do hábito, das inúmeras vezes que combinaram assim. E ele tem certeza que foi o mesmo hábito que fez ela aceitar o local, sem pensar que teria de arrastar sua bagagem por muitos metros, além de subir escadas, no meio da multidão.

Ele sai do Metrô e segue direto para a fila única da bilheteria, que continua imensa. Verifica pessoa por pessoa e constata que nenhuma está de saia florida. Resolve ir em direção ao banheiro feminino. Ela também não está nessa fila. "E se ela estivesse no banheiro, ou passando mal? Como verificar lá dentro?", especula. Chama uma faxineira que está passando, expõe o sumiço da namorada, a possibilidade dela estar precisando de ajuda e pede-lhe para verificar lá dentro. Ela retorna e informa que olhou todos os boxes e que não há ninguém lá passando mal.

Ele parte rápido para a praça de alimentação, dá uma olhadela, segue para a livraria, depois desce à plataforma de desembarque dos ônibus interestaduais, repete o contato com as faxineiras dos banheiros femininos, nem sinal dela. Para onde ela teria ido, se pergunta.
Sem saber o que fazer, ele volta para frente das catracas. Descreve-a para um segurança que está ali na entrada do Metrô. O homem assegura que ela não passou por ali e sugere que ele a procure na praça do outro lado, depois da passarela. "Sim, como não pensei nisso, pode ser que ela tenha ido comer em alguma das barraquinhas, é louca por salsichão e churrasquinho de "gato"", ele responde. Pede para o segurança permanecer ali até o seu retorno. E parte célere, quase atropelando as pessoas que estão na passarela e nas escadarias. Esforço inútil, pois não a encontra e ninguém tinha a visto por ali.
Volta cabisbaixo, o segurança diz que por ali ela ainda não tinha passado. Ele se pergunta novamente por que marcara nas catracas. Economia? Certamente não, diante do montante que tinha gasto no anel. Na verdade, a escolha fora simbólica. Tinham se conhecido no Metrô, lá namoravam, inúmeras vezes ficaram indo e vindo nas linhas do Metrô, adiando ao máximo a separação. A primeira vez que transaram tinha sido em frente à estação do Metrô, depois de muito amasso no vagão.

Ele se desliga da longa espera e passa a recordar aquela ocasião. Feriado longo, viagem à praia com os amigos. Foi pegá-la na estação Tucuruvi, vieram entre beijos e abraços até o Jabaquara. Desceram do trem cheios de desejo e, quando foram comprar as passagens de ônibus para o litoral, viram o motel do outro lado da rua. Entreolharam-se e, sem falar nada, atravessaram abraçados a via pública, ela arrastando a mesma enorme mala preta de hoje, ele com discreta mochila. Mal deu para segurar até entrarem no quarto. Isso era ou não amor? Nem viajaram. No dia seguinte, pela manhãzinha, assim que o Metrô abriu, foram para a casa dele passar o resto do feriado, aproveitando que seu colega de quarto já tinha ido para praia.

O auto-falante da estação acaba com seu devaneio. Ele volta a se preocupar com a demora dela. "E se ela tivesse ido para o outro lado, onde param os ônibus urbanos?" Lá também tinha banheiros e ambulantes com comidinhas. O segurança assegura a ele que ficará lá por bom tempo. Então, Ele decide verificar, pois não resta mais nada a fazer por ali, já está cansado de ficar plantado.

Segue pela estação, agora sem pressa, mas atento às pessoas que passam, sempre coma esperança de encontrá-la. Quando alcança as escadas de acesso às plataformas dos ônibus interestaduais, ele se debruça na amurada e tenta ver se ela está lá embaixo. Nada.
Prossegue até o final do largo corredor, surgem a rampa e a escada de acesso à rua e aos pontos de ônibus municipais. Decide descer pela rampa, imaginando que seria a escolha dela por causa da mala, mas de olho na escada, ela às vezes não se guia pela lógica.
A calçada está quase vazia, dá para ver tudo do final da rampa: um ônibus, uma pequena fila com cinco futuros passageiros, dois fiscais de ônibus conversando e um pipoqueiro triste, arrumando seu carrinho para partir.

"Sumiu de vez", ele conclui. "O número chamado está desligado ou fora da área de operação". "O número chamado está desligado ou fora da área de operação". "O número chamado está desligado ou fora da área de operação"... Cinco ligações infrutíferas. Desiste. O Metrô está quase fechando, precisa ir embora. "E ela?", pergunta para seus botões. "Vai ver um parente veio buscá-la e ela não conseguiu avisá-lo por causa da bateria do celular", eles respondem para tranqüilizá-lo.

Afasta um pensamento tétrico sobre um possível seqüestro e sobe a escada de retorno. Ouve portas de um veículo sendo fechadas com certa força, a partida do automóvel e os latidos escandalosos de um cachorrinho. "Alguém chegou de viagem e foi um fox paulistinha que veio recebê-lo", conclui.

Por onde andará Adriana Pimenta?

Não perca o próximo eletrizante capítulo!

Breve aqui na sua telinha!

José FRID

quarta-feira, 26 de março de 2008

Arrufos Metropolitanos - I



- Vou comprar bilhete, já volto.

Ela deu-lhe as costas tão rápido que não deu tempo para dizer que poderia usar o dele. Talvez ela quisesse comprar bilhetes para a semana toda, pensou. Ela saiu em direção às bilheterias, puxando uma imensa mala preta com rodinhas. Ele sorriu. Passara apenas uma semana fora, mas levara roupa suficiente para o mês inteiro.

Vestia a saia estampada com flores grandes e coloridas, na altura dos joelhos, que moldava bem seu belo corpo, um dos motivos da sua paixão por ela. Sentada, a saia se acomodava entre as pernas, gesto ao mesmo tempo pudico e sensual. Deitada, a saia cedia à sua mão e deixava-se levantar sem esforço.

A viagem dela mostrara que ele não conseguiria viver sem ela. Apalpou a caixinha no bolso esquerdo da calça, lado do coração. Tirou-a do bolso e a abriu. Lindo! Ela ficaria surpresa com o presente. Ele tinha suportado até quinta-feira, dias sem falar com ela (o celular não pega na fazenda, avisara), mas na sexta sucumbira ao imenso vazio provocado pela sua ausência.

A loja de alianças o atraiu ao passar pelo calçadão da Avenida São João. Quando deu por si já estava apreçando alianças e anéis de noivado no balcão da loja. As atendentes, além de atenciosas, eram bonitas e gostosas, deixando os homens, maioria dos clientes da loja, profundamente perturbados, sem saber se olhavam as jóias ou as vendedoras.

Eles, perturbados e indecisos perante tantas opções, acabavam perguntando a opinião das vendedoras que, conforme o treinamento recebido, escolhiam as jóias mais caras para colocar em seus próprios dedos e, colocando as mãos sobre os seios decotados, diziam:

- Ela vai adorar essa aqui! Olha como ficou bonito!!!

E eles olhavam as mãos, os seios, até os anéis. E lá iam os parvos enamorados fazer o crediário em dez vezes, um ótimo negócio, um investimento de futuro, como elas falavam segurando o braço do feliz comprador. Mas ele pensara que tinha comprado o anel porque estava realmente apaixonado, não pela lábia verbal e corporal da vendedora.

Ele guarda a caixinha rapidamente, preocupado que ela não a veja antes da hora. Olha em direção às bilheterias e a procura na fila, mas não consegue localizá-la. Há uma multidão recém-chegada de viagem atrás de bilhetes de metrô e de trem. Ela vai demorar. Ele não acha ruim, é o tempo necessário para se acalmar e decidir quando e onde irá pedi-la em noivado. Noivado. Sim, noivado. Nunca pensara que uma coisa tão antiga poderia ocorrer com ele. Nem acredita que isso irá acontecer agora, nunca tinha pensado em estabelecer um relacionamento mais sério com alguém. Mas a ausência dela naquela semana mostrou que ele não podia mais ficar sem ela.

Logo que a viu surgindo da escada rolante, teve vontade de pular as catracas, correr até ela, abraçá-la, erguê-la em seus braços, beijá-la, depois ajoelhar a seus pés, entregar o anel e pedi-la em casamento. Porém, antes que se mexesse, surgiu também a grande mala preta. Ao vê-la percebeu que as coisas não sairiam como desejado, ela não largaria a mala no corredor por nada e ele não conseguiria erguer as duas.

Entregaria o anel ali mesmo, logo depois dela passar na catraca? Olha ao redor, não é um lugar romântico, cheia de pessoas feias, apressadas, suadas, muitas malas, caixas, alto-falantes berrando mensagens à toda hora. Na casa dela? Não, os pais estariam presentes, ele não teria coragem. Num restaurante? Onde ele iria com ela e a mala? Na casa dele? Certamente hoje ela iria alegar que está cansada da viagem, quer ir direto para casa descansar. No metrô? O vagão do metrô seria uma boa opção. Ou melhor, o lugar perfeito, afinal foi em um deles que se conheceram, fizeram muitas viagens juntos, enamoraram-se. Eles entrariam no último carro, sentariam no banco dos fundos, como de costume, acomodariam a mala na lateral, o trem partiria, ele tiraria a caixinha do bolso e pediria para ela abrir. Quando a pedra do anel e os olhos dela brilhassem, ele diria aquelas palavras bonitas que tinha decorado, ela se emocionaria e, no fim da viagem, sairiam noivos do metrô. Noivos!

Ele novamente levanta os olhos e a procura na bilheteria. Não consegue enxergá-la. A estação Barra Funda do Metrô está lotada neste domingo fim de feriado. A fila continua grande, se enroscando pelo corredor. Vinte e três minutos. Está demorando mais que fila de banco em dia de pagamento. Ele olha as pessoas aglomeradas. Nenhuma está com a saia floral. Onde ela estará? Ele levanta-se e vai na direção das catracas. Anda de um lado para outro procurando enxergá-la no meio da multidão. Espicha a cabeça e nada. Ela pode ter saído da fila. Vê uma saia colorida oculta no meio da fila. Pensa que pode ser ela e acompanha seu movimento. A saia chega até a bilheteria, demora-se um pouco e sai em direção às catracas. Não é ela. Onde estará, se pergunta preocupado. Deve ter ido ao banheiro, certamente evitou usar o do ônibus, que sempre considera fedido e desconfortável.
Como ela é exigente quanto à banheiro, talvez não tenha ido nos sanitários da plataforma dos ônibus, que devem estar intragáveis com o movimento do feriado. Ele imagina que ela tenha procurado esse daqui de cima, mais escondido, que pode estar mais limpo, mais do seu agrado.

Ele se recorda de um desastroso encontro na São Bento. Estavam os dois a trabalho pelo centro da cidade e combinaram se encontrar na Praça do Patriarca, debaixo da enorme e horrorosa cúpula branca, para pegarem o Metrô juntos e namorarem um pouquinho. Ao passar pelo Largo do Café, viram as mesas dos bares espalhadas pelo calçadão, todos muito animados, música tocando alto. Como a noite estava quente, parecia que estavam numa região praieira, faltava só o cheiro de maresia. Olharam-se e, sem dizer nada, se dirigiram para a primeira mesa vaga. Essa sintonia de pensamento era outra coisa que fazia ele estar apaixonado por ela.

Sentaram ao lado de uma mesa grande onde se comemorava um aniversário, alunos de uma faculdade vizinha, muito barulho, mas com muito humor, o que divertia os dois. Ele pediu cerveja, ela queria provolone à milanesa, ele disse para ela olhar em volta, a precariedade do bar, e sugeriu que ela pedisse algo mais simples e menos comprometedor para a saúde. Ela concordou e pediram lascas de provolone simplesmente. Conversa vai, cerveja vem, ela perguntou para o garçom onde ficava o banheiro, "entre no bar, passe o balcão e desça as escadas, é lá no fundo", disse ele.

Ela voltou furiosa, pegou a bolsa e disse que o esperava no Metrô, que aquilo era um nojo. Ele tentou contê-la, alegando ter que chamar o garçom e pagar a conta, mas ela disse que não ficava nem mais um minuto. "Vamos acabar a cerveja e o queijo", disse ele. Ela retrucou que queria vomitar, estava com nojo do copo, do queijo, da cerveja e partiu. Outra coisa que o atraía nela: esses rompantes, essas decisões inabaláveis.

Alcançou-a na porta do Metrô, muito nervosa. Para acalmá-la entraram no Girondino e ele fez questão que ela fosse ao banheiro. Voltou maravilhada, dizendo que esse era um restaurante, não aquele nojo onde estiveram. Ela contou que teve que passar por baixo do balcão do bar, andar do lado da chapa que fazia frituras, andar pelo chão cheio de gordura, descer uma escada escura, entrar num corredor molhado por líquido desconhecido, passar pelas caixas de cervejas e entrar num banheiro imundo, com um líquido viscoso no chão, caso para denunciar à saúde pública. A noite rendeu dois sanduíches, alguns chopes, vários beijos e ela dormir na casa dele.

Ele se desloca para a lateral em frente aos banheiros. Não há como ela passar sem que a veja. Um olho nos sanitários, outro nas catracas. Entram e saem mulheres e nada de uma saia florida aparecer. E a mala, como ela iria entrar no banheiro com aquela mala enorme? Será que ela foi para outro lado, se pergunta. E se ela foi comer alguma coisa?

A praça de alimentação é do outro lado, depois da entrada dos trens, ele não consegue vê-la dali de dentro. "Mania besta de economia, a minha. Por que fui combinar esperar aqui nas catracas? Nessa ocasião especial eu deveria ir esperá-la na plataforma de desembarque. Levando flores, bombons e o anel."

Onde ela estará? O que houve com ela?

Não perca o próximo emocionante capítulo!!

José FRID