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quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Eu, intelectual??

Outra coisa que não parece ser entendida pelos outros é quando me chamam de intelectual e eu digo que não sou. De novo, não se trata de modéstia e sim de uma realidade que nem de longe me fere. Ser intelectual é usar sobretudo a inteligência, o que eu não faço: uso é a intuição, o instinto. Ser intelectual é também ter cultura, e eu sou tão má leitora que, agora já sem pudor, digo que não tenho mesmo cultura. […] Hoje em dia, apesar de muitas vezes ter preguiça de escrever, chego de vez em quando a ter mais preguiça de ler do que de escrever.


Clarice Lispector

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Midas???

Com caneta de ouro devem-se escrever coisas de ouro? Teria que escrever frases especiais porque o instrumento era mais precioso? E terminaria eu mudando de jeito de escrever? E se o jeito mudasse, na certa ele iria, por seu turno, me influenciar — e eu também mudaria. Mas em que sentido? Para melhor? Outra questão: com caneta de ouro eu cairia no problema do Rei Midas, e tudo o que ela escrevesse teria a rigidez faiscante e implacável do ouro?

Clarice Lispector

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Criatividade e trabalho

– Acho que viver é um ato criativo. Tento fazer tudo aquilo que eu gosto e tento descobrir tudo aquilo que me inquieta. Creio que em Cabo Frio tenho essa possibilidade de concentração que me permite descobrir o fio da meada. Aí é só trabalhar. Não entendo viver sem trabalhar. A coisa que eu acho mais importante na vida de qualquer pessoa é descobrir naquilo que gostaria de trabalhar.

Carlos Scliar via Clarice Lispector in "Scliar em Cabo Frio", crônica publicada no Jornal do Brasil em 28 de outubro de 1972

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Sentimento ao pintar....

– Que é que você sente quando pinta? Fica alvoroçado como eu quando escrevo um livro?

– Eu nem sei bem, porque o processo é tão diferente para cada quadro. Muitas vezes o quadro, apesar do desenho já estar estruturado, o quadro me parece estranho até desencadear-se. E isso começa pela descoberta de certos relacionamentos entre as cores, por um plano num tom definido que orienta a proposição num sentido diverso daquele inicialmente proposto. Outras vezes é um gesto que arma um valor, uma vibração não prevista. Ou uma observação através da vista de uma janela que me traz a cor de um barco que passa. Que sei eu? Tudo vale e o resultado é que conta. 




Carlos Scliar via Clarice Lispector in "Scliar em Cabo Frio", crônica publicada no Jornal do Brasil em 28 de outubro de 1972

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Deixar de escrever....

Escrevo simplesmente. Como quem vive. Por isso todas as vezes que fui tentada a deixar de escrever, não consegui. Não tenho vocação para o suicídio.

Clarice Lispector  em depoimento para "Esboço para um Possível Retrato", de Olga Borelli

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Sem mudança....

Não muda nada. Escrevo sem esperança de que alguma coisa que eu escreva possa mudar o que quer que seja. Não muda nada.

Clarice Lispector em entrevista ao programa "Panorama"

domingo, 17 de janeiro de 2021

Verdade inventada....

Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada.

Clarice Lispector in Água Viva

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Obstáculo.....

Mas existe um grande, o maior obstáculo para eu ir adiante: eu mesma. Tenho sido a maior dificuldade no meu caminho. É com enorme esforço que consigo me sobrepor a mim mesma.

Clarice Lispector in Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

A escrita salvadora....

Escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida.

Clarice Lispector in  Um Sopro de Vida

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Escrever....

Escrever sempre me foi difícil, embora tivesse partido do que se chama vocação. Vocação é diferente de talento. Pode-se ter vocação e não ter talento, isto é, pode-se ser chamado e não saber como ir.

Clarice Lispector in A Descoberta do Mundo

domingo, 20 de dezembro de 2020

Inaugurações....

Continuo sempre me inaugurando, abrindo e fechando círculos de vida, jogando-os de lado, murchos, cheios de passado.

Clarice Lispector in "Perto do Coração Selvagem"

domingo, 16 de dezembro de 2018

Escrever.....

[...] Não, não é fácil escrever. É duro como quebrar rochas. Mas voam faíscas e lascas como aços espelhados.

Ah que medo de começar e ainda nem sequer sei o nome da moça. Sem falar que a história me desespera por ser simples demais. O que me proponho contar parece fácil e à mão de todos. Mas a sua elaboração é muito difícil. Pois tenho que tornar nítido o que está quase apagado e que mal vejo. Com mãos de dedos duros enlameados apalpar o invisível na própria lama.

Clarice Lispector in A Hora da Estrela

quinta-feira, 10 de março de 2016

Um processo de escrita


Em entrevistas, Clarice costumava explicar como se dava seu processo de escrita, basicamente em duas etapas:

"Quando eu estou escrevendo alguma coisa, eu anoto, a qualquer hora do dia ou da noite, coisas que me vêm. O que se chama inspiração, né? Agora, quando eu estou no ato de concatenar as inspirações, aí eu sou obrigada a trabalhar diariamente."

Na fase inicial da escrita, portanto, Clarice anotava "inspirações", isto é, ideias e frases que lhe vinham prontas. Quando chegava a um volume de material satisfatório, a escritora partia para a segunda etapa de criação – concatenava as "inspirações". Se a primeira fase poderia demorar meses ou anos, o momento seguinte era de trabalho ininterrupto. Assim, os manuscritos de A hora da estrela. depositados no IMS refletem as etapas da criação clariciana, na medida em que esses documentos apresentam tanto as "inspirações" de Clarice, quanto textos mais desenvolvidos, produtos daquela concatenação.


Fábio Frohwein in "Inspirações ou notas?" http://www.claricelispectorims.com.br/Ims

sábado, 23 de agosto de 2014

Amar os outros é .....


Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca. 

Clarice Lispector

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Diálogos possíveis com Clarice Lispector - por Teresa Montero

Como é o processo de começar um livro?

Clarice – Eu sempre começo tudo como se fosse pelo meio. Deus me livre de começar a escrever um livro da primeira linha. Eu vou juntando notas. E depois vejo que umas têm conexão com as outras, e aí descubro que o livro já está pelo meio.

Você segue algum ritual para escrever? Quais as condições ideais para se escrever?

Clarice – Se com isso de condições ideais você quer dizer paz de espírito, tranqüilidade material, sossego, devo dizer que para mim tudo isso é uma grande mentira. Não há condições ideais para escrever. No meu caso particular, começo um relato qualquer e termino completamente tomada por ele. Aí começa o processo, que para mim é muito penoso. Há um detalhe: esse processo se desenvolve ali, naquele sofá, onde sento com a máquina de escrever sobre os joelhos. Quando meus filhos eram pequenos, escrevia enquanto cuidava deles, ou seja, com os dois pulando à minha volta. Sempre quis evitar que eles tivessem de mim a imagem de "mãe escritora". Escrevi, então, perto deles, tratando de não me isolar. É fácil imaginar o que isso significava: interrupções a cada instante, um que vinha pedir uma estória, outro que vinha com perguntas loucas, típicas dos garotos. Assim eu trabalho. As condições ideais estão dentro de cada um.  

Certa vez, referindo-se ao seu processo de escrever, você disse que ele é uma procura humilde. O que é a 'técnica da humildade'?

Clarice – Essa capacidade de atingir, de entender, é que faz com que eu, por instinto de... de quê? Procure um modo de falar que me leve mais depressa ao entendimento. Esse modo, esse "estilo" (!), já foi chamado de várias coisas, mas não do que realmente e apenas é: uma procura humilde. Nunca tive um só problema de expressão, meu problema é muito mais grave: é o de concepção. Quando falo em "humildade", refiro-me à humildade no sentido cristão (como ideal a poder ser alcançado ou não); refiro-me à humildade que vem da plena consciência de se ser realmente incapaz. E refiro-me à humildade como técnica. Humildade como técnica é o seguinte: só se aproximando com humildade da coisa é que ela não escapa totalmente. O processo de escrever é feito de erros – a maioria essenciais – de coragem e preguiça, desespero e esperança, de vegetativa atenção, de sentimento constante (não pensamento) que não conduz a nada, não conduz a nada, e de repente aquilo que se pensou que era "nada", era o próprio assustador contato com a tessitura de viver. 
 
O sucesso lhe incomoda?

Clarice - Sinto-me só. É como se as pessoas ao se aproximarem de mim dessa maneira me negassem uma comunicação, impedindo-me de retribuir. Por acaso eu escrevo, e a coisa vem através da literatura. Mas se eu fosse bonita, ou se tivesse dinheiro, por exemplo, também não gostaria que as pessoas me procurassem por essa razão. O bom é ser aceita como um todo, começando até nos defeitos, nas coisas pequenas, para depois então chegar às de maior importância.

Há quem ache sua obra pessimista. O que você pensa sobre isto?

Clarice – Prefiro acreditar que o impacto emocional do que escrevo corre por conta da reinvenção pessoal do leitor. Meus livros são espécies de trilhas, de onde cada um parte para as próprias descobertas.
 
Se tivesse que escolher entre a maternidade ou a literatura, qual você escolheria?

Clarice – A resposta é simples: eu desistiria da literatura. Não tenho dúvida de que como mãe sou mais importante do que como escritora.
 
Por que você se nega a assumir a posição da 'mulher escritora'? 

Clarice – Sempre rejeitei e evitei os chamados "meios intelectuais". Tenho amigos escritores que, em primeiro lugar, são amigos, e depois, escritores. Nunca me aproximei de ninguém pelo fato de que, como eu, escrevesse. Sinto repulsa pelo mundo superficial dos literatos, não me misturo com eles. Sou uma pessoa, amiga de outras pessoas. E há outra coisa que eu quero dizer: escrever, para mim, é uma coisa natural, embora extremamente angustiante e difícil. Sou uma mulher que escreve, porque para mim escrever é como respirar, necessário para sobreviver. Talvez por causa disso não goste de falar sobre meus livros. O que eu tinha de dizer está neles, e foi tão difícil escrevê-los...

Clarice, você leu o que o Henfil escreveu no Pasquim ao referir-se à sua literatura como "alienada"?   

Clarice -Vi. No começo fiquei muito zangada, porque ele não me conhece o bastante para saber o que eu penso. Fiquei meio aborrecida, mas depois passou. Se eu me encontrar com ele a única coisa que eu direi é: olha, quando você escrever sobre mim, Clarice, não é com dois esses, é com c, viu? Só isso que eu diria a ele. Mais nada. 
 
Como você se sente ao ser premiada pela Fundação Cultural do Distrito Federal pelo conjunto de sua obra?

Clarice – Desde que recebi a notícia não consigo pensar senão nisto: crianças morrem de fome, crianças mortas de fome. Se eu doasse o prêmio para as crianças carentes os adultos ficariam com o dinheiro. 
 
O que você acha de ser considerada um monstro sagrado? 

Clarice – Eu não sei como é que se criaram esses mitos. Não sei, não. Pessoas já me confessaram que até me conhecer eu era um monstro sagrado. Um jornalista veio me entrevistar e disse que estava muito surpreendido de ver que eu falo com calma. Ele imaginava que eu dizia coisas muito depressa e muito exóticas, que minha conversa era feita disso. Ele ficou espantado de eu ter uma conversa razoável, de uma pessoa com outra. Saiu até um artigo, não me lembro quem escreveu, chamado "Quem tem medo de Clarice Lispector", parafraseando aquela outra: Quem tem medo de Virginia Woolf. Ninguém precisa ter medo, não.
 
Como é a experiência de ter uma coluna semanal no Jornal do Brasil? Ela propicia uma maior exposição da sua intimidade? Um dia você revelou o desejo de largá-la. Por quê? 
 
Clarice – Por enquanto, não estou largando a coluna: mas aprendendo um jeito de defender minha intimidade. Quanto a eu me delatar, realmente isso é fatal, não digo nas colunas, mas nos romances. Estes não são autobiográficos nem de longe, mas fico sabendo por quem os lê que eu me delatei. No entanto, paradoxalmente, e lado a lado com o desejo de defender a própria intimidade, há o desejo intenso de me confessar em público, e não a um padre. O desejo de enfim dizer o que nós todos sabemos e, no entanto, mantemos em segredo como se fosse proibido dizer às crianças que Papai Noel não existe, embora sabendo que elas já sabem que não existe. Mas quem sabe um dia saberei escrever um romance ou um conto no qual a intimidade mais recôndita de uma pessoa seja revelada sem que isso a deixe exposta, nua e sem pudor. Se bem que não haja perigo: a intimidade humana vai tão longe que seus últimos passos já se confundem com os primeiros passos do que chamamos de Deus. 
 
Você recebe muitas cartas dos leitores. Quais as que mais lhe comoveram?

Clarice – As desta última safra são de gente muito pura e cheia de confiança em mim. Não sei selecionar as que mais me comoveram. Todas esquentaram o meu coração, todas quiseram me dar a mão para me ajudar a subir mais e ver de algum modo a grande paisagem do mundo, todas me fizeram muito bem. Sou uma colunista feliz. Escrevi nove livros que fizeram muitas pessoas me amar de longe. Mas ser cronista tem um mistério que não entendo: é que os cronistas, pelo menos os do Rio, são muito amados. E escrever a espécie de crônica aos sábados tem me trazido mais amor ainda. Sinto-me tão perto de quem me lê. O contato com o outro ser através da palavra escrita é uma glória. Se me fosse tirada a palavra pela qual tanto luto, eu teria que dançar ou pintar. Alguma forma de comunicação com o mundo eu daria um jeito de ser. E escrever é um divinizador do ser humano. 

Por que você escreveu: "livrai-me do orgulho de ser judia"?

Clarice – Eu sou judia, você sabe. Mas não acredito nessa besteira de judeu ser o povo eleito de Deus. Não é coisa nenhuma. Os alemães é que devem ser, porque fizeram o que fizeram. Que grande eleição foi essa, para os judeus? Eu, enfim, sou brasileira, pronto e ponto. 
 
Clarice, o entrevistado tem a obrigação de falar a verdade?

Clarice – Não. Ele não é obrigado a dizer aquilo que é contra a sua vontade. Mas também não deve falar do assunto de um outro ângulo, para que não haja ambigüidade e muitas interpretações diferentes. Sempre quis ouvir de um entrevistado o fato como se passou, para não contar a história com interpretação própria. Certas interpretações contam o oposto do que foi dito.

A pesquisadora Teresa Montero aceitou o convite da IHU On-Line para produzir uma "entrevista virtual" com a escritora. As respostas de Clarice Lispector para esse texto-montagem foram extraídas das seguintes entrevistas e crônicas: Revista Crisis (nº 39 - Julho 1976); Clarice Lispector (O Papo, 8/4/1972 - Sergio Fonta); Clarice Lispector e a Maçã no escuro (Diário de Notícias, 30/7/61 – Rosa Cass); "Livro de cabeceira da mulher" (1967); Uma mulher chamada Clarice Lispector (Criaturas de papel. Edilberto Coutinho); "Adeus, vou-me embora!" (A descoberta do mundo. Crônicas); e "Humildade e técnica" (A legião estrangeira).

Teresa Montero é doutora em Letras pela PUC-Rio e professora de Literatura Brasileira e dramaturgia na Universidade Estácio de Sá (UNESA). É autora de "Eu sou uma pergunta. Uma biografia de Clarice Lispector" (Rio de Janeiro: Rocco, 1999). Sua tese de doutorado é intitulada "Yes, nós temos Clarice" . A obra de Clarice Lispector teve sua primeira parte publicada com o título "Closer to the wild heart. Essays on Clarice Lispector" (Oxford: Legenda, 2002). É também organizadora das obras mais recentes de Clarice Lispector publicadas pela editora Rocco: "Correspondências" (2002), "Outros escritos" (2005) e "Aprendendo a viver. Imagens" (2005).

Site original: 

sábado, 17 de maio de 2014

Sobre "A maçã no escuro", de Clarice Lispector

O romance de Clarice é uma alegoria não só sobre o processo de criação e recriação do indivíduo, mas uma alusão à trajetória de qualquer criatura que queira assumir o embate e a alteridade entre o eu e o outro, entre o eu e o mundo. O leitor visceralmente leitor, que não escritor explícito, aprenderá aí a fazer uma releitura de seu espanto e perplexidade diante da vida. E quem é escritor, quem carece não apenas de embarcar e viajar nas palavras alheias, mas construir, elaborar o seu próprio discurso, esse encontrará aí pistas e trilhas, mas sobretudo o consolo de descobrir essa realidade que funciona como desafio: um lápis e uma folha em branco - nunca ninguém teve mais do que isto.


Affonso Romano De Sant'Anna in Com Clarice, Editora Unesp, 2013


quinta-feira, 15 de maio de 2014

Escrever é ...


Escrever é tantas vezes lembrar-se do que nunca existiu.


Clarice Lispector, citada por Affonso Romano De Sant'Anna in Com Clarice, Editora Unesp, 2013


terça-feira, 13 de maio de 2014

Escrever é....

Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa palavra morde a isca, alguma coisa se escreveu. Uma vez que se pescou a entrelinha, podia-se com alívio jogar a palavra fora. Mais aí cessa a analogia: a não palavra, ao morder a isca, incorporou-a. O que salva, então, é ler "distraidamente".


Clarice Lispector, citada por Affonso Romano De Sant'Anna in Com Clarice, Editora Unesp, 2013



quarta-feira, 30 de abril de 2014

Clarice Lispector como leitora crítica, por Affonso Romano de Sant'Anna

Anotação de Affonso Romano de Sant'Anna, transcrita no livro "Com Clarice", Editora Unesp, 2013, páginas 16/18:



Na década de 90, andei revirando os arquivos do extinto Instituto Nacional do Livro, que foram parar na Biblioteca Nacional, e descobri uma série de pareceres de escritores recomendando, ou não, a compra de livros para bibliotecas públicas. Ali está, sigilosamente, o que alguns de escritores realmente pensam sobre obras de seus colegas. Cheguei a copiar alguns deles, pois têm um valor crítico histórico.

De Clarice encontro três julgamentos de obras alheias. Dois são interessantes. Comentando "Roteiro poético", de Vivaldina Queirós Martins , diz que o livro "comoverá uma empregada doméstica ou uma jovem ou senhora que vende atrás de um balcão", mas, embora elas tenham direito de "se sentirem compreendidas e expressas", Clarice é contra a aquisição do livro porque o INL "não pode descer a um nível tão baixo de literatura".

Já outro parecer, de 19.11.1969, é mais curioso. Já que esse tipo de documento não quer ser um blá-blá-blá teórico, mas tem que ser claro, direto, a Clarice aborda os limites e o conflito entre a leitora e a crítica, entre a literatura mais sofisticada e a literatura mais popular. Por isto, comenta: "O açude e outras histórias", de Salm Miranda, e "Giroflê, Giroflá", de Cosette Alencar , assinalando: "Ao ler ambos os livros procurei manter-me numa situação de crítica, e de leitora, e não de escritora. Como escritora que sou, não gostei dos livros. Mas acontece que os livros não são publicados para escritores lerem, e sim para o público. Como escritora repugna-me o lugar-comum tão usado, por exemplo, em 'O açude e outras estórias'. No entanto, analisando a expressão 'lugar comum', vê-se que este é dirigido ao homem comum, e mesmo necessário para uma comunicação imediata. E o público é, com escessões(sic), feito de homens comuns.

A trama de ambos os livros tem interesse, sendo melhor o romance 'Giroflê, Giroflá' de Cosette Alencar. Em 'O açude e outras estórias' há momentos de franco mau gosto, para mim como escritora. Mas de novo me pergunto se para um leitor comum – ávido que está de ler literatura nacional, sobre assuntos nacionais, e não só a traduzida – pergunto-me se isso terá maior importância. É preciso incrementar a produção de literatura brasileira, e não ser demasiado esnobe em relação a ela.

Nos dois livros, de repente o leitor, no caso eu, nota que está comovido. E essa qualidade de provocar emoção não é de se desprezar, pelo contrário. E vem a pergunta minha como leitor apenas: que importa o lugar-comum ou a ausência de originalidade maior, se ambos os livros tocam, como se diz, 'nas cordas sensíveis do leitor', estou usando um lugar-comum, eu me comuniquei. E é o que acontece com os dois livros medíocres: eles se comunicam com o leitor.

Sou portanto favorável à compra, pelo Instituto Nacional do Livro, de número de exemplares que acharem por bem determinar, certa que estou de que as livrarias do Brasil estão repletas de livros estrangeiros que não são melhores que os dois citados. 

Assinado, Clarice Lispector."

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Com Clarice

Delicioso livro escrito a quatro mãos por Marina Colasanti e Affonso Romano de Sant'Anna para recordar e homenagear Clarice Lispector, de quem foram amigos próximos e são grandes admiradores. Quatro mãos? Não! Duas a duas, pois eles escreveram os textos separadamente. Ou não, afinal são um casal.

O livro é dividido em cinco partes. Na primeira, separados, ARS e Marina escrevem sobre a Clarice, lembrando a convivência deles com ela. Na parte dele, destaco o trecho no qual transcreve a avaliação feita por Clarice de dois livros. Ela começa por demolir os livros, cheios de "lugares-comuns", para depois reconhecer que eles têm a capacidade de provocar emoção,  que é valioso para o leitor. (Leia acima em outro post)


A segunda parte é composta por dois textos de Marina Colasanti: um conto no qual a Clarice é personagem, escrito a partir de fatos narrados por ela; uma crônica sobre a Clarice, com lembranças de Marina. 

Na terceira parte são apresentados três ensaios (crítica literária) escritos por ARS sobre a obra de Clarice. Textos técnicos, mas muito gratificantes para quem se dispuser a ler (eu, por exemplo). O primeiro, escrito em 1962, quando ele ainda era um estudante de Letras, é sobre o livro "A maçã no escuro", publicado em 1961. O segundo ensaio analisa os contos de "Laços de família" e "Legião estrangeira", destrinchando todos os contos dos dois livros e revelando a estrutura que perpassa toda a obra. Muito bom! O terceiro ensaio, sobre "A paixão segundo G.H" é muito interessante, pois o escritor utiliza os recursos estilísticos da autora no seu texto, mostrando, na prática, os pontos que quer destacar.

A quarta parte é integrada por seis crônicas escritas por Affonso Romano De Sant'Anna com recordações da Clarice ou sobre os textos dela.

A quinta parte é constituída pela entrevista concedida pela Clarice Lispector no Museu da Imagem e do Som, em 1976, a Marina, ARS e João Salgueiro, que permite que se conheça mais um pouco da Clarice.


Boa leitura!

Com Clarice - Marina Colasanti e Affonso Romano De Sant'Anna, Editora Unesp, 2013

José FRID