Mostrando postagens com marcador Mário Bortolotto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mário Bortolotto. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

CRESCIMENTO....


"Quando é que vc vai crescer? Vc se comporta como se ainda tivesse 25 anos. Vc tem o dobro disso".

E ele resmunga como um Zé Buscapé inconformado:

"Caralho, a gente já envelhece. Ainda tem que crescer também?"


Mário Bortolotto na peça "Whisky e Hambúrguer"

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

OS DOIS

Eles eram dois
Mas nem sabiam que eram dois
pois os dois eram sozinhos
e se sentiam assim
sozinhos
os dois
Às vezes ficavam abraçados
testemunhando enchentes
e dividiam segredos
e riam das bobagens um do outro
e telefonavam sempre
um para o outro
só numas de ouvirem
a voz
um do outro
Eles não eram felizes
E falavam alto nos bares
E contavam histórias estapafúrdias
os dois
Se encontravam
no meio de tanta gente
Eles sempre se encontravam
e sorriam tímidos um para o outro
porque eram sozinhos
os dois
e por um momento já não era tão assim
eles eram quase dois
mesmo sozinhos
assistindo filmes de madrugada
e pegando no sono
abraçando almofadas
sozinhos
bêbados
tomando comprimidos pra dormir
aviltados com a publicidade
que cercava a solidão dos dois
E eles queriam fugir
E ele queria entrar dentro dela
e ficar lá o resto de sua vida
não pra ser um
mas pra ser dois
definitivamente
de uma vez por todas
os dois.

Mário Bortolotto

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

REENCONTRANDO UMA VELHA AMIGA


Reencontrei minha velha amiga. A Dramaturgia. Fiquei um tempo sem falar com ela. Não chamava ela pra briga como eu costumo dizer. Minha velha amiga. Até um ano atrás tinha alguns textos em andamento. Mas era só. Quando eu digo "em andamento", é só isso mesmo. Eles ficam lá, meio abandonados, espremidos entre todos os outros arquivos de Word, declarações, autorizações, letras de músicas, o escambau. Eles ficam lá, me esperando e eu não dou mais a mínima atenção pra eles. São fragmentos de díalogos, situações escritas, personagens esboçados, mas nada muito mais do que isso. Tava escrevendo letras de música, me dedicando mais ao rock and roll, escrevendo poemas ou no facebook e prefácios para livros de amigos, mas deixei os textos de teatro esquecidos entre todos aqueles arquivos (a maioria estupidamente desnecessários). Depois que levei os tiros e saí do hospital, já tinha uma apresentação marcada de um texto inédito no Festival de Curitiba. Então lembro que me sentei lá na cadeira em frente ao computador e escrevi convalescente e "catando milho", já que a minha mão esquerda não mexia, o "Música para ninar dinossauros" e depois desencanei de novo. Aí por conta do projeto de fomento do ano passado, eu escrevi outros dois textos que gosto muito: "Quartos de Hotel" e "O Inferno em mim". E esse ano escrevi e a gente tá apresentando o "Borrasca". Agora tô terminando mais um e tenho várias outros em andamento que só precisam de um pouco mais de entusiasmo de minha parte. Mas eu gosto imensamente dessa sensação. Sozinho com meu computador. Escrever febrilmente. E gostar muito de estar escrevendo. E dizer pra ela (a dramaturgia) que nessas horas deixa de ser minha amiga e se transforma numa amante voraz: "E aí, sua puta safada? Tá gostando de me ver por aqui de novo? Você vai me fazer um boquete agora do jeito que você sabe que eu gosto e só vai parar quando eu disser pra parar". Ela então dá aquele sorriso enorme e franco que só ela sabe dar, se liga que a noite vai ser longa, enfia a cabeça ali no meio das minhas pernas e manda ver. É sempre bom pra caralho. Lembro que falei pra uma rapaziada de uma oficina uma vez: "Um dos nossos maiores inimigos é o MP3. É isso aí. Antigamente a gente saía na rua e ficava pensando o tempo inteiro em diálogos, em situações, em fechamentos de cenas. Hoje em dia a gente fica ouvindo música o tempo inteiro, se distraindo propositalmente. A gente tá preferindo não pensar". Então desligo o MP3 e saio andando vendo as pessoas nos bares. Mas não se deve abandonar o MP3, caralho, mesmo porque uma trilha sonora é sempre bem vinda em situações como essas. A gente só não pode é ficar dependente dele. Mas a mágica tá toda lá. Eu reencontrei a minha velha amiga e ela parece que tá na mó forma, tá inteiraça a puta safada. Belas pernas ainda, apesar da idade já avançada. Mas é claro que existem todas as distrações. É claro que levanto da cadeira e ligo a tv a cabo e fico assistindo um filme qualquer. Mas parece que os filmes conspiram a meu favor. Parece que o sujeito entrando em casa de maneira brusca me sugere uma idéia pra um diálogo que já tava ali entrincheirado entre uma letra de música e outro verso daquele poema que eu tô escrevendo. O Clip da bandinha pop da MTV me fornece a pista que faltava pra entender o mote principal do prefácio de um livro. É tudo assim. Sempre foi assim. Eu é que às vezes fico esquisito pra caralho. Mas a maior distração de todas (que bela distração) é o livro do Raymond Carver que eu fico relendo (os 64 contos). É sempre de uma melancolia àspera, de uma poesia dry incomparável. Cada conto te leva mais pro fundo da kitchenete, te faz desejar encher a cara e estancar qualquer possibilidade de emoção mais desbragada. Não é pra isso. É sem perspectiva, sem esperança. É o último poema de alguém que sabe que não vai mais poder escrever porque tem um bosta dum câncer minando a sua resistência. Ainda bem que você sempre volta, minha amiga. Você sabe que eu sempre tenho saudades de você. 

Mario Bortolotto no seu Face

sábado, 10 de agosto de 2013

Aids



Os belos dias de sexo acabaram
sexo está quase extinto aqui
na terra

a não ser que consigam curar
isso que está nos matando.

Os mais jovens nunca saberão
o quão incessantemente íamos
de uma cama pra outra,
de um corpo pra outro,
de uma noite pra outra,
no fim, às vezes, se tornava
até tedioso.

Eu me pergunto qual será a
próxima coisa que vamos perder?

Tem sido um fim de século
dos diabos: primeiro a
bomba atômica,
agora isso.

É hora da invasão alienígena.

E eles malditos podem
ficar
com
tudo.



Charles Bukowski - Tradução: Jão, via Mario Bortolotto

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Uma canção (poema) do Mário

É urgente
que eu beba do seu leite
que eu faça a festa na cama de pregos
que eu tome do seu chá de cogumelo
que eu violente o seu ursinho de pelúcia
que eu raspe dos seus pêlos
que eu caia de joelhos
no banheiro do bar
depois de uma cerva
uma erva
um lapso de tempo
É urgente
que eu declare o que sinto
que tire pra fora o meu pinto
e só abra a porta quando a polícia chegar
Mário Bortolotto (via Face)

terça-feira, 17 de agosto de 2010

BLUES




Como levar alguém que vai morrer

pra ver o sol nascer

como se fosse a primeira vez



Como um garoto cruzando o Atlântico num barco a vela



Como uma jovem mãe que perde o filho

no parque de diversões



Tipo esses filmes ruins que me fazem chorar

como um idiota que perdeu a paz



Como o garoto solitário

que entra de penetra na festa de aniversário



Como o filho cobrindo os pés do pai

a beira da morte



Como o viciado contando os dias

que permanece limpo



Como alguém que desistiu de ver o por do sol



Como alguém fechando a tampa do piano



Como alguém que você espera

entrando pela porta



Como alguém que você sempre esperou

e que nunca vai entrar



Como aquela mulher que não vai voltar

Como aquelas desavenças que nunca deixamos pra lá



Como aquelas coisas que julgávamos indispensáveis

e que depois de muitos anos

encontramos no vão do sofá



Mário Bortolotto

domingo, 1 de agosto de 2010

UM LUGAR LEGAL PRA ESTAR (WHEN THE MUSIC STOPS)


Ela me disse casualmente

que havia notado a mancha de sangue na minha camisa

Disse a ela: Não se preocupe, não é nada

Ela respondeu: Eu não tô preocupada

Resmunguei: é melhor assim

Achei que podia me divertir um pouco

assistindo uma luta de boxe na tv

Tirei a camisa manchada de sangue e joguei no tanque

Ela vestiu uma micro-saia e saiu pra rua

Abri uma cerveja e resolvi esperar

Os ponteiros do relógio eram guilhotinas no meu pescoço

Quando ela voltou, não falei nada

Fiquei no escuro vendo ela se mexer

deixando cair sua saia

no caminho pro banheiro

Deixou a luz acesa e ouvi o barulho

não vou usar de eufemismos nesse momento

pra dizer o que ela estava fazendo

somos um casal com tempo de serviço

nossa indiferença mútua provava isso

meu enorme peso no sofá atestava isso

Ela acendeu um cigarro no escuro da sala

e a chama do isqueiro fez com que ela me notasse

"é mais difícil do que você imagina", ela disse

e o seu desprezo me acertou como um blefe de pôquer

Ainda ficou um tempo olhando pra mim

antes de vencer o orgulho e perguntar

"O que era a mancha na sua camisa?"

"Já disse. Não é nada. Não precisa se preocupar"

Ela soltou um foda-se e foi pro quarto,

deitou e ficou fumando olhando o teto

Levantei e fui até o banheiro

Cambaleei e tive que me apoiar na porta

Abri o armário e peguei o mercúrio cromo

ou você não sabia que a maioria das histórias de amor

terminam com alguém limpando as feridas?



Mário Bortolotto

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Bortolotto Blues

Paulão me aparece com essa música "Bortolotto Blues" - olha só um trechinho da letra:


Meu bem, eu não te traio porque dá muito trabalho
chifrar é uma coisa complicada pra caralho
ficar atento a bilhetes e telefones é cansativo
precisa ficar ligado e eu não consigo


Meu bem, eu não te traio porque me cansa demais
transar com mulher nova tira a nossa paz
precisa descobrir o que é que excita a outra
depois tem que fazer um esforço filho da puta
Então vê se goza logo
pra gente voltar pro bar.


Velhas Virgens

terça-feira, 13 de outubro de 2009

O problema social causado pela extinção da nota de um real

"O Brother me contando que o crack tá invadindo o Rio. Multidões de zumbis se materializando nas janelas dos carros implorando por 2 reais. Os traficantes não aceitam moedas. Pergunto o motivo. Ele explica que as moedas caem dos bolsos quando os traficantes estão fugindo. Ou fazem barulho quando eles entram no mato. Se aparecer com moeda na boca, perde a grana e ainda leva uma coça que é pra ficar esperto."
Mário Bortolotto

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Intelectual assistindo filme pornô

Ontem comentava com alguns amigos:

"Eu tenho um amigo que é tão intelectual que assiste filme pornô até o final".

Kitagawa então mandou essa:

"É que ele não quer ter uma idéia errada do filme".

Mário Bortolotto

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Nelson Rodrigues, Paulo César Pereio e os magros






Nelson Rodrigues um dia disse:


"Pereio, todo magro é um canalha".


Pereio retrucou:


"Porra, Nelson, você está sendo arbitrário!"


e o Nelson mandou essa:


"97% das vezes que sou arbitrário, estou certo".


Genial. Em resumo, mime sua intuição.


Aí um mala colou na gente com um papo furado pra caralho e o Pereio soltou essa:


"A liberdade do outro termina quando ele começa a ser chato".


Depois ainda perguntam porque eu gosto de ficar na noite.



Mario Bortolotto

domingo, 20 de janeiro de 2008

Polaroid desbotada





meus óculos escuros
escudem lágrimas,
John Lee Hooker
canta no walkman dentro
da minha cabeça.*
minhas pernas
só me levam pro bar,
porque o meu lar
só existe nas lembranças.
sou o fugitivo na noite,
aquele de quem você
desvia e desdenha
na auto-estrada.
tô comendo o pão
que o demo dispensou,
bebendo a cachaça dos
despachos de encruzilhada
não vou mais te incomodar,
com telefonemas na madrugada,
vou colocar meus óculos
escuros, encher a mochila,
vou me perder na poeira
de alguma estradinha isolada.
vou apagar a fita da minha
cabeça, esquecer a canção
das nossas noites enluaradas


* referência ao "Bagana na Chuva" de Mário Bortolotto





Pierre "Maléfico"

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

MEUS PROBLEMAS COM A BEBIDA

ela me dizia que eu tinha problemas com bebida
me dizia isso enquanto andava atrás de mim no supermercado
eu escolhia um vinho pra beber no jantar
na verdade eu tava indeciso entre um vinho e um conhaque
na dúvida levei logo os dois
e uma caixa de cervejas pra depois do jantar
e ela continuava falando rispidamente comigo
eu me sentia dentro de uma música do Bruce Springsteen
ela falava algo sobre viver e morrer como um perdedor
eu disse: "Que merda cê tá falando?"
ela fazia ballet e andava daquele jeito empinado que me deixava ainda mais oprimido
havia muita raiva naquela mulher
e a raiva te deixa com dificuldade de se expressar
e eu só precisava de um drink
abri o conhaque na fila do caixa e dei um gole
"Era sobre isso que eu estava dizendo".
"O que?"
"O seu problema com bebida".
"Eu não diria que é um problema. A bebida me ajuda nos momentos difíceis".
"E esse é um deles?"
"Eu não estou muito a vontade".
entrei no carro e abri logo uma cerveja
"Vai continuar negando que tem problemas com a bebida?"
"Olha, eu não tenho problema nenhum com ela. Às vezes quando bebo, eu arrumo mais problemas, só isso".
nós saímos do estacionamento do supermercado e ela continuava falando comigo daquele jeito intolerável e pensei em meter o carro num poste ou algo do tipo, mas eu ainda não havia bebido o suficiente.

domingo, 2 de setembro de 2007

TAKE IT HOME

























".... Vejo as pessoas todas muito irritadas e as minhas vulgares análises todas me levam a crer que em algum lugar do caminho elas tiveram opções erradas, mas não querem se arrepender, porque talvez em algum ponto elas consigam se sentir satisfeitas a ponto de acreditar que tenham feito as opções certas. São os tais dos planos que não se concretizam. São as tais das vontades irrealizáveis, e todos parecem meio frustrados e infelizes, mesmo quando contam piadas e riem com sinceridade. Mesmo quando falam algo e querem se fazer notar. Mesmo quando insistem em chamar a atenção. Chamam a atenção para sua alegria, mas tudo que eu consigo ver é uma tristeza filha da puta, o tal buraco negro da alma, o tal buraco de 12 que eu disse que não dá pra encher nem com todo o whisky do mundo. Eu também já fiz planos como todo mundo e acreditei neles. A maioria não deu certo e eu fui ficando frustrado e infeliz pra caralho. Aí ontem saí de casa e fui andando pela rua. Tava meio frio, mas eu tava protegido com a jaqueta dos pára-quedistas franceses que eu comprei num brechó de lá. Fui andando pela rua e me sentindo inacreditavelmente tranqüilo. Não estou falando de felicidade ou de bem estar. Tranqüilidade não tem nada a ver com bem estar. Talvez seja só um ítem no cardápio. Passei a tarde ouvindo música e bebendo com amigos . O Picanha preparou um genial macarrão a gorgonzola e nós ficamos lá ouvindo B.B King. Aquela capa daquele disco. Meu Deus, a capa daquele disco. O garoto olhando a guitarra na vitrine. E aí na contra-capa ele indo embora com a guitarra nas costas, pisando em poças dágua. Aquela capa. Eu já tive esse disco. Eu era um garoto e também tinha planos. Eu tive esse disco. E um dia eu vendi o disco. Tava precisando de grana pra comer. Então vendi o disco. Mas nunca esqueci daquela capa. E a gente falando tanta coisa, na cozinha, na sala, e eu pensando na capa daquele disco. E aí fui encontrando as pessoas nos bares e pensando na capa do disco. Entrei nos Parlapatões e fiquei jogando bilhar. Por sorte, demoraram pra conseguir me tirar da mesa. Não queria sentar e nem conversar com ninguém. Tava pensando na capa daquele disco. E aí quando o Eldo e o Pedro ganharam de mim e eu tive que me sentar com uma garrafa d´água na mão, não queria olhar pra lugar nenhum, eu queria ficar pensando na capa do disco. Quando olhava eu via coisas, via as bolas caindo na caçapa, os amigos conversando em outras mesas, ouvia o burburinho do bar e eu ouvia os passos do garoto nas poças dágua. Pensava em desejos que talvez não se realizassem. Pensava em estratégias de fuga. E tudo parecia tão irreal. E eu queria que muitas coisas tivessem dado certo na minha vida. E eu queria que todos aqueles planos tivessem se realizado, como o garoto ambicionando a guitarra na vitrine. Como se a vida fosse isso. Como se fosse realmente possível colocar a guitarra nas costas e sair andando pisando em poças d´água. Mas há uma tempestade no caminho. Há um lugar que você simplesmente não pode chegar. Há tanta coisa atrapalhando. E tudo que você gostaria era simplesmente isso. Esperar a tempestade passar, embaixo de algum abrigo, um toldo de armazém, uma senhora voltando pra casa com os ingredientes de uma sopa de tomate, um velho sentado na soleira sem esperança nenhuma, sequer torcendo pra chuva passar. E eu não sei mais se a tempestade vai passar. Eu nem sei mais se há um lugar no mundo pra sujeitos estranhos que decidiram não mais retrucar a sorte. Mas eu ainda não sou o velho sentado na soleira. Então é melhor devolver a guitarra pro cara da loja e sair andando sem pressa, sem guitarra nenhuma nas costas, com essa chuva fria congelando minha alma negra. E esse buraco enorme que todo o whisky do mundo jamais vai preencher.


Mário Bortolotto


sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Felicidade não é só realizar sonhos



Felicidade não é só realizar sonhos. E às vezes você realiza e sabe que a tristeza vai ser eminente mesmo assim. Quero deixar claro que esse não é um texto de lamento. Eu sou o que sou e gosto de ser assim. Tristeza faz parte da vida. Não vou tomar nenhum anti-depressivo por causa disso. Me sinto "tranquilo" mesmo quando estou triste. Ou como diz o bluesman: "o que é o blues senão um bom homem se sentindo mal"

Mário Bortolotto

terça-feira, 31 de julho de 2007

RICO. Rico?



Outro dia me senti rico. Rico como, perguntariam vocês. Ganhou na loteria? Herança?  

Posso esclarecer? Esclarecerei.

A minha mulher comprou uma latinha de manteiga Aviação, aquela. Ela queria agradar minha filha, que gosta dessa manteiga. Acho que é a primeira vez que entra uma lata dessas lá em casa, sabe como é, a manteiga foi condenada pelos médicos. A latinha tinha (tinha, tinha....), corrigindo, a latinha tem uma tampa externa, removível e uma tampa fixa, que precisa ser retirada com abridor de lata. A Laura queria retirar a tampa interna e ficar com a externa, usando a lata como manteigueira. Eu, chato de galocha, fui ler as letras miúdas da embalagem e disse para ela que o fabricante mandava tirar da lata e guardar na geladeira. E perguntei onde iríamos colocar a manteiga, num "teipeuer" (ou seria tupperware)? Ela olhou feio para mim e respondeu incisivamente:

- Saiba o senhor que aqui em casa temos três manteigueiras!
- Três?!?!?!
- Uma redonda, outra quadrada e uma retangular.
- Quem diria, sou rico e não sabia! Compramos isso quando?
- Ganhamos no casamento.
- Casamento? Isso foi há mais de vinte e cinco anos (e três cidades e oito casas depois!!!!) 


Esse tempo todo e eu não sabia que era rico, com três manteigueiras!!

Peguei a redonda, de base e tampa de inox e corpo de cristal. Nela coube certinha a manteiga da latinha. Nasceram uma para a outra. Uma lindeza!

Sou ou não sou rico?

Por falar nisso, lembrei de um texto do Mario Bortolotto sobre a manteiga Aviação, lá em Londrina. Compartilho com vocês:

"Pra mim o que sempre diferenciou as classes sociais no Jardim do Sol era a Manteiga Aviação. Explico. Não há muitas classes sociais no Jardim do Sol. Não creio que lá alguém comprasse Manteiga Aviação. Ou talvez sim. Mas eu não freqüentava a casa deles. Então não podia saber. Mas com certeza, se eu estivesse visitando algum amigo e visse sobre a mesa do café um pote de Manteiga Aviação eu saberia que aquela família estava um patamar acima da minha na escala social. Lá em casa o meu pai comprava margarina. Lembro da Margarina Saúde que vinha em lata. Uma lata razoavelmente grande se comparada aos potes modernos de margarina de hoje. Minha avó morava nos fundos de casa e ela sim tinha um pote de Manteiga Aviação. Era na verdade uma latinha. E estava vazia. Não sei se minha avó um dia teve realmente aquela latinha cheia ou se só guardava como uma espécie de troféu ou um souvenir, embora com certeza ela não soubesse o significado da palavra "souvenir". Mas sempre que eu entrava na casa dela, ficava olhando aquela latinha e pensando no significado profundo dela estar ali, no armário da cozinha da minha avó. De vez em quando levantava do sofá onde passava as tardes lendo gibi e ia até o armário e pegava aquela latinha com o desenho do avião. E ficava imaginando como minha avó tinha conseguido. Nunca perguntei a ela. As pessoas têm os seus segredos. E era importante manter o mistério. Gostava de ficar imaginando. Nem sempre precisamos da verdade. Então quando estava jogando futebol no campinho com os outros moleques ficava imaginando se algum deles tinha Manteiga Aviação em casa ou se assim como eu, eles lambuzavam recatadamente suas fatias de pão com a prosaica Margarina Saúde. Aí eu cresci, saí de casa, meus pais morreram e eu comecei a ganhar meu próprio dinheiro e percebi que não era tão difícil assim comprar um pote de Manteiga Aviação, assim como não é impossível degustar um Red Label em vez de sempre ter que apelar pra um "Passport". Vi que as coisas que me pareciam impossíveis e distantes nem eram tão inacessíveis assim. Percebi que o mundo na verdade é muito mais complicado quando podemos escolher entre uma coisa e outra simplesmente tendo que pagar um pouco mais pelo produto que julgamos de maior qualidade. Que adultos, temos que tomar decisões e saber a verdadeira diferença entre as coisas. Que temos que diferenciar as pessoas em suas reais posições, em seus graus de importância. Que temos que escolher caminhos porque a vida nos cobra isso. Porque a vida não nos deixa relaxados apenas olhando para o pote de manteiga e tentando entender o significado profundo daquilo tudo. Porque as tardes são frias e as noites já não nos acolhem com a mesma desenvoltura. Porque adultos, nos tornamos todos muito tristes porque passamos a ter consciência demais. Porque adultos, ficamos cada vez mais sozinhos e assustadoramente sábios. E senti uma imensa saudade do tempo que apenas sabia que ao chegar em casa, minha mãe estaria fazendo bolinhos de chuva pro café da tarde e sobre a mesa haveria um pote de Margarina Saúde. Eu apenas iria ficar imaginando como seria a minha vida se pudesse ter acesso à Manteiga Aviação. Eu iria ficar imaginando, mas sabia que jamais conseguiria. Acho que é triste demais saber que você pode. E agora que já sabemos, o que é que vamos fazer com tudo isso?" (http://atirenodramaturgo.zip.net/)


Outro dia conto da minha outra riqueza, a garrafa de vidro. E conto também da latinha da casa do meu avô.



José FRID


Atualização em 2017:

Manteiga foi liberada, margarina totalmente condenada, quase plástico, nem mosca, barata, rato gostam.....

quarta-feira, 4 de julho de 2007

O amor é foda!

ASSIM SENDO
(anotações para orientar Noé)


Tem gente que ama muito
Mas depois quer se livrar do amor
Pra conseguir um novo amor
Ou pra conseguir a vida que tinha antes do amor
Porque o amor muda tudo
O jeito que você segura o talher
Ou o jeito que você anda na rua
O amor incomoda
O amor é foda!

Mário Bortolotto