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sábado, 18 de maio de 2013

Cimento fresco



Tem um dedo no cimento
Da calçada em reforma
De um rebelde do nosso tempo
Que tem medo de perder a memória

Uma cicatriz contra o esquecimento
Na matéria ainda fresca

O pavimento foi feito
Pras pessoa passa, pros mendigo canta
Mas esse furo de dedo
Me fez pensar:

É uma forma de protesto
Contra a construção civil
Deformar a calçada
Com o indicador direito?
(Ou isso é um polegar?)

Não faço parte dos concretos
(Tampouco assino contratos
Com movimentos, círculos sociais, multinacionais)
Mas encontrei nesse dedo de prosa
Uma tentativa de imprimir uma digital
No mundo
Antes desse monobloco cinzento secar.


Gustavo Lacerda in Mallarmargens, revista de poesia e arte contemporânea

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Sede



Engulo a vida como um copo d'água
De gente simples que oferece
E não espera nada

De pé, na cozinha
Abro a garganta pra matéria cristalina
Como quem busca silêncio
Ao fechar a porta no fim do dia

Se isso é água, se isso é vida
Tenho somente cinco segundos
De goles desesperados e conversa amiga
Bebo apressado — como senhor disse:
A sede é grande
O tempo é pouco
E toda hora é hora de despedida.


Gustavo Lacerda in Mallarmargens, revista de poesia e arte contemporânea