terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Coincidências??



Resolvi ler por esses dias uma "Antologia Poética" do Carlos Drummond de Andrade, da qual já tinha lido algumas poesias esparsas. Dessa vez, propus-me a ler "de cabo a rabo", começando na página um e acabando na duzentos e setenta e um. No início nem percebi o alcance da proposta: as poesias são emendadas uma nas outras, a letra miúda e num tipo gráfico feio, sem refresco para o leitor. Só para comparar, um livro de poesias tem em média oitenta páginas, bem diagramadas, valorizando os poemas.


A leitura tinha um interesse especial para mim: a antologia foi organizada pelo próprio Drummond, logo os poemas que dela constam são aqueles que ele achou que eram os seus melhores, ou os mais interessantes, ou que eram dotados de alguma particularidade histórica, sentimental, etc. Assim, se eu não gosto de um poema, surge a questão: por que o poeta o escolheu, o que tem de especial esse poema? Releitura obrigatória. (De muitos eu concluí que: ou o poeta se equivocou na seleção, ou o poema tem uma particularidade tão particular que um simples mortal não alcança, ou eu não entendo nada de poema, não sei identificar o "bom" poema!)


Como o carioca é, antes de tudo, um forte, mantive firme minha leitura até a última página, mesmo tendo de enfrentar poemas de mais de dez páginas, como um em homenagem ao Chaplin (que é um poema delicioso, apesar de grande), ou poemas tão herméticos que nem descobri a intenção do autor. Mas não foram só pedras (tinha uma pedra no meio do caminho,  no meio do caminho tinha uma pedra ..... ), muito pelo contrário, a maioria dos poemas são preciosidades deliciosas, foi muito bom aplicar meu escasso tempo em degustar a antologia do Drummond.


Entre os bons, na minha modesta e leiga opinião, cito Poema Patético, A Bruxa, José, Consolo na Praia, Estrambote Melancólico, Cidadezinha Qualquer, Romaria, Desaparecimento de Luísa Porto, Morte do Leiteiro, Quadrilha, Necrológio dos Desiludidos do Amor, Caso do Vestido, Amar, O Lutador, Procura da Poesia, Mulinha, Lira Romantiquinha. Breve disponibilizarei alguns deles no meu blog para compartilhar com vocês.  Não percam!


Uma amiga tomou a mesma resolução em relação ao "Os Sertões", do Euclides da Cunha. Disse que ia até o fim. Colocou o dicionário do lado e foi em frente, palavra por palavra, página por página. Será que ela conseguiu concluir?


Agora as coincidências.


Concluí a leitura no domingo de manhã, na praia. Subo a serra, coloco a vida em dia, ligo a televisão, zapeio na TVA e paro no Cinemax, filme nacional. Sempre prestigio se der para agüentar. Vou assistindo, zapeando sempre que dá, vendo se não tem coisa melhor em outro canal. Peguei o filme no meio, aparece uma cidade do interior, fazenda, grileiros, pistoleiros. Dois casais, um casado mesmo, o outro só "amigos". Conversa vai, conversa vem, o casado fica loucamente apaixonado pela namorada do outro. Ela topa ficar com ele com a condição da mulher dele pedir para ela ficar com o marido. Eu percebo que conheço aquela estória, já vi ou li em algum lugar.


O marido não come, não trabalha, sucumbe à paixão. A mulher dele, diante da situação, vai lá na casa da outra e pede para a outra aceitar seu marido, pois senão ele morrerá de paixão. A outra tripudia, diz que não quer homem nenhum, em especial o marido da outra, mas como ela pediu, ficará com o traste por uns dias, satisfará a luxúria do marido dela.


Caiu a ficha. Pego a antologia do Drummond e lá está: "Caso do Vestido", poema no qual uma mãe conta para as filhas a história de um vestido, situação semelhante à do filme. Procuro no guia de programação: o filme "O Vestido" é uma adaptação livre sobre o poema "Caso do Vestido". Coincidência?


E tem mais. Após o filme terminar, com final um pouco diferente do poema (a adaptação é livre, né?), entro na Internet para ler os e-mails atrasados – faltou o seu! – e ver as notícias. Vou no blog do Noblat, como sempre, e qual o "poema da noite"? (todo noite o Noblat publica no blog um poema por ele escolhido e faz alguns comentários sobre o autor) "Procura da Poesia", de quem de quem? Carlos Drummond de Andrade!!


Coincidências?


José FRID

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