Naquela segunda ela acordara tarde, muito tarde. Tinha deixado um bilhete na cozinha para a mãe, pedindo-lhe para avisar no trabalho que ela só iria após o almoço. "Alguma coisa que ela comeu na viagem tinha lhe feito mal, passou a noite toda reinando, coitadinha", explicara a mãe, alegre em atender a um pedido da filha.
Ficara até tarde acordada contando as peripécias da viagem. Primeiro, com o carente Olavo no colo, aos pais e irmãos, a parte social do passeio, como está um, como está outra, quem engordou, emagreceu, casou, separou, engravidou, nasceu, morreu, viajou, casa de um, casa de outro, etc. Todos viram as fotos na câmera digital, muitos comentários e risadas, a turma do interior não é muito fotogênica. Depois ela distribuiu lembrançinhas e encomendas, principalmente doce de leite, o forte da cidade.
No quarto com a irmã, Adriana desfazendo as malas, a outra descarregando as fotos no computador, o tema foi a parte mais íntima da viagem, as fofocas mais quentes, quem ficou com quem, quem traiu quem, as festas, os passeios, a "pegação", até chegar no baile de sábado à noite. Detalhes, mais detalhes, implorava a irmã, solicitações atendidas com prazer por Adriana.
"Quer usar?", pergunta a irmã. "Não, pode desligar. Se eu começar a ver e-mails, não vou dormir tão cedo. Dei meu endereço para o pessoal, a caixa deve estar lotada. E nem vou abrir o MSM. Se a turma verificar que estou conectada, a conversa irá longe".
- Por que você deixou o celular desligado?
- Esqueci de carregar, na chácara da represa não dá sinal, na cidade ninguém tinha o número, nem lembrei de ligar.
- E o Pepê, como ele falou com você?
- Não falou, eu avisei que na chácara não funcionava.
- Ele não achou ruim? Ele liga para você toda hora, todo dia.
- Não gostou, reclamou, disse que ia morrer de saudades, essas coisas melosas, que ficaria com saudade da minha voz. Aproveitei e falei para ele ligar e escutar minha voz na caixa-postal, aí é que ele ficou bravo, disse que eu estava gostando de ficar sem falar com ele, pediu o telefone de lá, eu disse que não sabia, ele fez aquele drama, mas nada que uns beijinhos não desse jeito. Vou falar com ele amanhã.
- E quando vou conhecer a peça?
- Breve, estou vendo o melhor momento. Ele é muito tímido. Toda vez que eu falo para ele vir em casa, ele desconversa.
- Ele não é casado?
- Não, já tive na casa dele, mora com um colega de Santos.
- E por que ele some alguns fins de semana?
- Vai para Santos ver a família?
- Dele?
- Pára de pensar bobagem! Mãe, pai, irmão.
- E por que você não vai com ele?
- Já fui.
- E ai?
- Aí nada. O que você queria?
- Mas você já está um tempão com ele. Não tá firme?
- Firme como sabão na pedra, como gelatina. A gente vai ficando. Tá bom assim, sem nada mais sério.
- Papai já está reclamando, escutei ele falar com mamãe. Ele também acha que o cara é casado, ou viciado, vagabundo, ou velho para você, ou tudo junto.
- Não é nada disso, ele é tímido, desconfiado. Se eu o trouxer aqui em casa, vai pensar que estou armando, mamãe vai interrogar sobre dinheiro, casamento, essas coisas, aí ele vai dar no pé. Além disso, ele é são-paulino roxo. Se papai descobre, vai ser aquela discussão. Melhor deixar como está.
- Acho que você está escondendo alguma coisa desse cara, tem vergonha dele. Pode contar, sou sua irmã, confie em mim.
- Não tem nada não.
- Sei não. Acho que você está escondendo porque ele é feio, desdentado, burro, malcheiroso, velho, algo assim ...
- Não tem nada disso não. Você viu naquele dia .....
- De longe, de muito longe. Você não me deixou chegar perto, acho que estava escondendo ele de mim.
- Deixa de bobagem.
- Eu achei meio velho .....
- Você viu de longe. Ele é só dois anos mais velho do que eu.
- E por que você não me deixou falar com ele?
- É que a gente estava com pressa, tinha a hora do cinema. Qualquer dia a gente sai a quatro, vamos num barzinho, e aí você tira suas dúvidas. Vai gostar dele também.
- Sei não, tem alguma coisa esquisita.
- Não tem nada de esquisito. Quem disse que tenho que apresentar um caso para a família?
- Caso?
- É. Caso e só. Nada demais.
- Esse tempo todo e você diz que é só um caso?
- Sim. Por que? Não pode? Um casinho com um cara que conheci no Metrô. Só isso!
- Não precisa ficar nervosa. Deixa para lá, o traste é seu. Você vai contar de Avaré para ele?
- Eu não. Por isso que é melhor ficar assim, sem compromisso.
- Sua safadinha, diz a irmã já bocejando. Posso apagar a luz?
Pouco depois escuta o leve ressonar da irmã. Sempre invejara a sua capacidade de adormecimento imediato. Sono "miojo": três minutos e pronto. Ela não, normalmente tem dificuldade para dormir. Ou despenca na cama morta de cansaço, fruto de noites maldormidas, ou rola, rola na cama até dormir. Ver televisão ajuda, chama o sono. Mas tevê ligada no quarto só depois da irmã despencar nos braços de Morfeu. Porém, a programação não pode atrair sua atenção, senão lá se vai a noite outra vez. Também qualquer leve preocupação já a deixa sem sono. Ou um compromisso pela manhã com horário rígido.
Nesta noite de domingo não está sendo diferente. No escuro, ouvindo a irmã dormir gostoso, não consegue desligar. Preocupada. Insegura. A fuga teria sido a melhor solução? Deveria ter ido falar com ele? Telefonado? E se na caixinha não tivesse anel? E ele, como estaria? O que acontecera com ele?
À medida que os minutos vão passando, mais hipóteses ruins surgem: desesperado pulou nos trilhos do Metrô; ainda está lá na estação a esperando; está correndo os hospitais e delegacias atrás dela; indo a velórios (ela se arrepia toda depois desse pensamento); foi preso pelos seguranças do Metrô por gritar desesperado à sua procura; comunicou seu seqüestro à polícia; correu atrás do carro do pai dela e foi atropelado por um ônibus; está bebendo até morrer ...... Como dormir assim?
Ela se levanta, vai ao banheiro, constata que todos dormem. Pega água na geladeira, com cuidado para não acordar Olavo, que dorme na área de serviço. E ela acordadíssima. Volta ao quarto, pega uma manta e põe o celular no bolso do pijama. Vê as horas no rádio-relógio da irmã: três e trinta e quatro.
Deita no sofá, joga a manta por cima. Liga a tevê, gira pelos canais, pára numa comédia romântica. Não tem nada melhor passando para lhe dar sono. Já viu o filme, ou melhor, alguns pedaços do filme, não teve paciência para assisti-lo todo de uma vez. A mulher quer casar mas o homem não, tem medo de perder sua liberdade. Mas o filme tem uma vantagem: não exige muita atenção para acompanhá-lo, o que é excelente para ela nesse momento, sonada e preocupada com Pedro Paulo.
Assiste ao filme meio desinteressada, só quer pegar no sono. O filme prossegue, o casal vai morar junto, sem casar, só por um ano. Se der certo, ele fará o pedido de casamento no dia do aniversário de "ajuntamento". Caso contrário, cada um para o seu lado. Enquanto vão se desenrolando as atividades do casal, ela volta a pensar em Pedro Paulo. Quantas coisas fizeram juntos, recorda com carinho. E agora, onde ele estará? Como?
Ela tira o celular do bolso. Desligado. Será que ele deixou algum recado? Tem medo de ligar o celular e ele telefonar para ela. Atenderia? São mais de quatro horas, ele não deve estar acordado. Ou está ocupado atrás dela. A bateria descarregada. Ou bêbado caído no chão. Decide que vale a pena arriscar. Liga o aparelho. O mostrador acusa o horário: quatro e quarenta e três. Aparece o desenho da cartinha. Ela tem mensagens. Disca a caixa-postal: você tem quinze novas mensagens. Tecle um para ouvir ...
1. Primeira mensagem: "Pimentinha, que horas você chega? Já estou na estação te esperando. Beijos". Tecle sete para apagar. 7. Mensagem apagada. Próxima mensagem: "Adri, onde você está?" 7. "Volta, que eu tenho bilhete para você!" "Adriana, o que houve? Estou preocupado!" 7. "Pimenta, cadê você? Vou passar pela catraca e te procurar. Se a gente se desencontrar, me espere nas catracas do Metrô. Te amo. Beijos" 7. "Adriana, onde você está? O que está acontecendo? Vou até a pracinha procurar você. Aguarde nas catracas" 7. "O que houve? Atende esse telefone!" 7. "Porra, Adriana, você está de sacanagem comigo? Onde você se escondeu?" 7. "Adriana, esqueça o último recado. É que estou preocupado com você. Você foi comprar bilhete e sumiu. Já procurei em todo o lugar e não encontrei você. O que houve? Já estou desesperado! Liga para mim. Estou nas catracas do Metrô como combinamos. Vou esperar ..." 7. "Pimentinha, o Metrô vai fechar, não posso esperar mais. Não sei para onde você foi, espero que esteja bem. Alguém veio buscar você de carro? Não deu tempo para me avisar? Tomara! Espero que você não tenha sido seqüestrada, acho que não. Nem assaltada, tem tanto guarda e segurança na estação. Estou preocupado com você. Me liga logo que possível. Te amo. Beijos. Durma bem"
"Adri, já estou em casa, não se preocupe comigo. Estou mal com o seu sumiço mas vou agüentar até amanhã. Sei que você vai explicar tudo. Tenho uma surpresa para você. Beijo, amor!" "Adri, cadê você? Não estou conseguindo dormir, preocupado com você. Ligue-me logo que acordar. Te amo, meu amor. Para sempre."
Ela desliga e apóia o celular em seus seios. Respira fundo, lentamente. Está emocionada com as palavras deles. Emocionada e envergonhada com a sua fuga, com os transtornos que causou para ele. Emocionada, envergonhada e preocupada, sem saber o que fazer. Ele disse que tem um presente para ela. Só pode ser o anel.
No filme chega o dia do aniversário do "ajuntamento". Ela presta atenção, nunca tinha visto até ali, sempre dormira antes. A mulher está toda contente, é o dia que vai realizar seu maior desejo, casar. O homem chega com uma caixinha de veludo preto e dá para a mulher. Ela sorri para ele emocionada, abre a caixinha e começa a xingá-lo, a bater nele. Ele, perplexo, se defende dos golpes dela e pergunta se ela não gostou da jóia, que custou dez mil dólares. Ela fala que ele não vai pedi-la em casamento, que ele é um traidor, etc. A jóia é um par de brincos .....
Adriana, confusa, adormece. São quase seis horas da manhã de segunda-feira.
Nenhum comentário:
Postar um comentário