Ele chega na plataforma quando soa o sinal de fechamento das portas do vagão. Poderia correr para tentar entrar, mas não seria o acaso agindo. Continua no seu passo e observa o trem partir. Os vagões passam por ele, inicialmente devagar, os últimos em alta velocidade. Só vê as janelas se alternando com as portas. Sente a vibração da estação com esse movimento dinâmico. Resta agora apenas o barulho do trem ecoando no túnel.
A plataforma está quase vazia. Poucos sobraram como ele. O papel do bombom está na sua mão. Não tem onde jogar, o Metrô retirou todas as lixeiras alegando risco de bombas. Ele lê outra vez a mensagem: "As pessoas entram em nossa vida por acaso, mas não é por acaso que elas permanecem." Alisa e dobra duas vezes a embalagem com cuidado. Caminha até a ponta da plataforma, a boca do túnel querendo engoli-lo. Os monitores pendurados mostram passageiros em vários trechos da estação. Ninguém é Adriana. Senta-se num dos bancos marrons, tom de fezes. Quem teria escolhido cor tão sugestiva? Seria para combinar com as venezianas amarelas? E essa parede de concreto com dois largos furos, que separa as duas vias dos trens? O que significaria? Modernismo? Nunca entenderá os arquitetos.
Se ele fumasse, era a ocasião para acender um cigarro, tragar e soltar baforadas em espirais, reclinar e observá-las elevando-se e diluindo-se no ar, enquanto pensaria na sua situação, em que fazer .... e na paz mundial. Sorri. Lembranças do filme "O Dia da Marmota", no qual a personagem da Andie MacDowell (que cabelo!) só brinda à paz mundial. Diante dos problemas globais, a sua preocupação atual é um nada, um imenso nada. Quantas pessoas somem por dia no mundo? Quantas são assassinadas? Morrem de doenças pavorosas? Mas que importa? Que o mundo se acabe! Para ele tudo gira em saber onde está Adriana, sua pimentinha, o sabor e a cor da sua vida.
Sente-se meio como o personagem do Bill Murray, preso no Dia da Marmota, sem poder fazer nada, tocar a vida para frente. No caso dele, está preso ao sumiço dela, não consegue fazer nada ou pensar em outra coisa, até encontrá-la, entender o que houve no domingo.
Como não fuma, se distrai vendo os trens chegarem e partirem, o povo entrar e sair dos vagões, a plataforma encher e esvaziar a cada partida, como se fossem ondas do mar. E a observar os passageiros, alguém poderá estar de conjunto cinza, cabelos presos, nuca tentadoramente exposta.
Já esteve naquela estação inúmeras vezes, não neste horário, mas à noite, quando deixa Adriana em casa, depois de saírem juntos. Deixar em casa é forma de dizer, só a leva até ali. Ela diz que mora por perto, pode ir a pé, ou alguém vem buscá-la. Ele estranha não poder levá-la até em casa, mas é prático e econômico, pois evita gastar mais uma passagem de Metrô. Ele não vai à casa dela, mas ela dorme na dele. É o que importa!
Eles costumam marcar encontro em alguma estação do Metrô, seguem juntos até a estação mais próxima do programa do dia – cinema, barzinho, show, shopping, teatro, feijoada, exposição, etc., sempre de olho no horário do Metrô. Depois, ele vai com ela até o Tucuruvi. Os dois gostam de namorar no balanço dos trens. Em horas tardias, vagões ermos. Um pouco de exibicionismo também. Um dia terão coragem e farão como num filme do Tom Cruise, no qual ele e uma louraça retiraram os passageiros de um vagão para transarem por várias estações.
Recorda um dia que ficaram namorando ali mesmo, encostados naquela parede do lado da escada rolante, se interpenetrando com avidez, até que uma segurança metroviária ostensivamente estacionou do lado deles. Com ela ali do lado deles, quase querendo participar, eles capricharam nos amassos, mas nada além do que fariam dois corpos que não querem se desgrudar. A mulher nem se incomodou, parece que estava curtindo, como se assistisse uma comédia erótica. E ela ficou ali até eles se despedirem, encabulados, Adriana subindo as escadas, ele embarcando no último trem.
Essas recordações melhoraram um pouco o humor dele. A vida é bela. Ele vê aproximar-se uma idosa arrastando, com dificuldade, uma enorme mala com rodinhas, que trepida e ameaça tombar a todo instante, culpa do piso pastilhado da plataforma. Ela ainda tenta equilibrar uma sacola plástica em cima da mala, que teima se deslocar para o chão. Pedro sorri novamente: é a Adriana daqui a alguns anos.
O trem chega na estação, abre as portas, os passageiros desembarcam, a senhora tenta embarcar, mas tem dificuldade de passar a mala no vão entre a plataforma e o vagão. Ele se levanta para ajudá-la e coloca a mala dentro do vagão. A mulher entra e senta no banco a ela reservado. O trem fecha as portas antes que ele consiga sair.
Ele pergunta onde ela irá descer. "Na Tietê, estou indo para Marília visitar minha filha". Ele diz que vai ajudá-la a desembarcar. Ela agradece e começa a contar da viagem, da filha, dos netos, do genro, etc, sem que ele consiga fazer ela parar de falar. Conclui que, realmente, a mulher é a Adriana do futuro: mil malas e falação pelos cotovelos.
Ele fica escutando o monólogo e equilibrando a mala, um trambolho que insiste em se deslocar a cada movimento do trem. Absorto, nem percebe as estações nas quais o trem vai parando: Parada Inglesa, Jardim São Paulo, Santana, Carandiru, "Estação Tietê, acesso ao terminal rodoviário". Descem e vão até a saída. Ele pede a um metroviário guiá-la com suas tralhas até ao terminal rodoviário. A gentil senhora agradece sua ajuda e diz que São Genaro vai lhe proteger. "Tô precisando", diz cabisbaixo.
O trem partiu, ele quase solitário na plataforma. O sol está quente e o céu azul, uma típica segunda-feira pós-feriado chuvoso. Debruça-se na amurada da estação. Dá-se conta da ação do acaso. Estação Tietê. Por que veio parar ali? E agora? Seguir viagem? Para onde? Esperar Adriana ali? Continua sem saber o que fazer.
A Marginal ao longe, sempre engarrafada. O estacionamento repleto de carros. Lá embaixo as pessoas seguem em suas vidinhas pela Cruzeiro do Sul. O sinal fecha, elas atravessam na faixa, umas indo, outras vindo, e ele ali parado. Elas sabem para onde vão, ele não tem a menor idéia do que fazer. Ele se olha no espelho do fim da plataforma: está acabado! Passa a mão no cabelo, arruma o colarinho, mas nada funciona. Só Adriana para dar jeito.
Volta a sentir fome. Com o de hábito, retira o celular do bolso para ver as horas. Está desligado! Desespera-se: e se ela ligou? Precisar dele? Como isso foi acontecer? O que ocorreu na noite anterior? Entra em pânico e aciona os botões para ligar o aparelho, que não lembra ter desligado.
O relógio da estação marca onze e cinqüenta e cinco. O celular entra em operação. Registra a existência de mensagens na caixa-postal e mensagens de texto. Só podem ser dela! "Ai, o que foi que aconteceu?" Sôfrego, aciona a caixa-postal à procura da voz dela.
"Você tem três novas mensagens na sua caixa-postal". Tecla as opções para ouvi-las e fica profundamente frustrado ao verificar que não são de Adriana: o irmão, o amigo que mora com ele e um colega de trabalho. Três machos ao invés da sua pimenta. E três sacanas! Sacanas filhos da puta! E viados! Putos!
"E ai, mano? A gata gostou do caco de vidro colorido? Comeu? Detalhes, detalhes! Ligue para mim assim que der. Tem programa para o fim de semana, aquelas cachorras de sábado". "Aqui é o Gonçalves, vi o anel em cima da mesa, deu errado ontem? Liga não, tá cheio de mulher por aí, e no metrô mais ainda. Pode dar o anel pra outra. Me liga". "Negão, tu não vem pro trampo hoje? O chefe quer saber. Inventei que você vem depois do almoço. E o negócio do anel, colou? A menina caiu no conto do vigário? Tá com ela até agora? Liga pra nós".
Olha desconsolado o celular. Vê o desenho da cartinha. Última esperança: os torpedos. Mas tem medo de ver. E se for daqueles três sacanas? Enrola. Observa os trens indo e vindo. As ondas de passageiros se sucedendo em ambas as plataformas. O barulho infernal dos trens partindo ou chegando. O silêncio sepulcral nos intervalos.
Pára na frente dele o vagão de número 1073. O acaso ataca novamente. São os números do celular dela. Quatro mensagens de texto. Uma pode ser a dela. A primeira: "Ligue para mim, já estou disponível". Ela ligou o celular! Ele imediatamente liga para ela: "Olá! Se você ligou para escutar a minha linda voz, dê-se por satisfeito. Caso insista em falar comigo, deixe seu recado que a minha secretária retornará logo que for possível. Se você não sabe quem está falando, é engano, adeus!"
Fica emocionado ao ouvir a voz dela. Sempre brincalhona. Uma das coisas que admira nela, o bom humor. Emocionado e triste. As frases, naquele momento, soam antigas, amargas, debochadas. Ela não podia fazer isso com ele! Ligar o celular, escutar as mensagens que ele deixou, desligar sem retornar para ele. Não, não!!
O celular indica a data e o horário da mensagem: dia de hoje, cinco e oito. Hoje de manhã! "O que ela estaria fazendo a essa hora?", se pergunta. Ela costuma acordar às seis. "Será que perdeu o sono, preocupada com ele? Tomara!" Ele quer se enganar, faz força para se iludir. Começa a maquinar explicações para ela não ter ligado para ele, sua fuga, o celular ligado e depois desligado, etc. Não acha explicações convincentes para o acontecido, mas tem certeza que Adriana saberá esclarecer tudo. Animado, tem coragem de ver as outras mensagens, que são daquele trio nefasto de piadistas.
E agora, Pedro? Para onde? Ele lembra dos versos de Drummond: "E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? "Esse José está como eu, sem saber o que fazer." Ele tenta lembrar dos outros versos do poema, mas vêm à mente dele as linhas iniciais de outro poema: "Perdi o bonde e a esperança. Volto pálido para casa. A rua é inútil e nenhum auto passaria sobre meu corpo." Não, isso foi ontem, hoje ele é só esperança, não perdeu nenhum bonde .... olha o trem chegando na estação!
Entra no primeiro vagão do trem, vendo antes a hora marcada no relógio analógico da estação: doze e vinte e dois. Antes das portas fecharem entra uma mulher com uma mochila vermelha, que se coloca à frente dele. A marca da mochila está bem diante do seu nariz:: "NO STRESS". Mensagem do acaso para ele relaxar e gozar como a ministra? Uma das partes da mochila está aberta. Ele toca o ombro da moça e avisa-lhe. Ela olha a parte aberta, confere, não falta nada, e diz para ele que aquilo incomoda muita gente, todo mundo avisa que a mochila foi aberta, querendo ajudar.
O trem parte, ele segue esperançoso atrás de Adriana, que ele tem certeza está à sua procura. Sem estresse, tranquilinho. Como sua mãe diz, o que é do homem o bicho não come!
E Adriana, por onde andará, nessa segunda-feira ensolarada, céu azul ...?
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