Naquela manhã ela acordara tarde, muito tarde, como já foi dito. Ou melhor, escrito. E só acordou por causa das panelas barulhentas, dos uivos e latidos do Olavo e, principalmente, dos cheiros que vinham da cozinha: feijão, arroz e ensopado de quiabo com carne, seus preferidos. "Mãe, ligou?", berrou ao se levantar do sofá e sair da sala. "Bom dia, não?", inquiriu a mãe, ainda com a esperança de ensinar bons modos à filha. "Bom dia, mãezinha querida", berrou a filha lá do banheiro, na tentativa de se fazer escutar apesar do longo corredor entre elas. "Liguei, a Ruth pediu para você não esquecer da reunião das duas com o cliente chato", respondeu a mãe se dirigindo ao quarto.
Adriana toma uma ducha rápida, o suficiente para espantar o imenso cansaço da noite mal ou não dormida, não sabe exatamente o que aconteceu ontem. No quarto, um copo de vitamina e um pãozinho na chapa com queijo derretido. "Mãe é mãe, o resto é madrasta", pensou ao ligar o computador. Precisa se preparar para a reunião. O material está no seu e-mail. Esse é o problema: a sua caixa-postal deve estar soterrada de mensagens do povo do interior. Como resistir e se fixar no trabalho? Por que foi colocar seu e-mail no "vento"? Emoção em conhecer tantas pessoas novas? Saber que não conseguiria manter contato à distância sem a Internet? Os meninos? Manter-se atualizada com as fofocas da cidade?
Fecha um olho e com o outro entreaberto, fingindo que não está vendo os e-mails enviados por Rodrigo, Gustavo, Paulo, Leonardo ...,, vai percorrendo a lista de mensagens até se fixar naquelas enviados pela Ruth, sua chefona aloprada. "Mente desocupada é morada do diabo", ou algo assim, já ouviu dizerem. Melhor se afundar no trabalho para não pensar nos caipiras. E no Pedro Paulo e seu anel.
A única certeza é que lá não estará o e-mail dele. Ela não sabe por que nunca pediu seu e-mail e vice-versa. Os dois trabalham com computadores sempre ligados na Internet. Mistérios da vida. Seria por que se falavam muito pelo celular? Ou seria para não dar muita intimidade para ele? "Isso não, tenho até escova de dentes na casa dele!" Ou seria para manter o relacionamento em outro nível, sem o mundanismo da Internet, com suas piadas, suas correntes, seus alertas de vírus, os spams? Não sabe nem tem tempo para pensar nisso agora. O que importa é o trabalho!
Abre os anexos, começa a ler os dados para a reunião. A mente começa ligada no tema do trabalho, mas, pouco a pouco, vai se dirigindo para os acontecimentos da semana passada, Rodrigo, Gustavo, Paulo, Leonardo .... Ela percebe a divagação e tenta se controlar, concentrando-se no trabalho. A alegria dura pouco. A voz de Pedro Paulo vai penetrando lentamente em sua mente, as lembranças dos recados deixados no celular vão se sucedendo e ela se pega preocupada com ele, a fuga dela ... Desiste. Desliga o computador e começa a se arrumar para sair. Sozinha no quarto não conseguirá afastar seus fantasmas. Na empresa, no olho do furacão, com a Ruth no seu pescoço, não terá chance de se lembrar de nada.
A mãe a vê passando já vestida e pergunta-lhe se não vai almoçar. Ela diz que não vai dar tempo e pede para guardar a comida para o jantar. Pega água e toma uns comprimidos de guaraná, ginseng e catuaba.
- Isso levanta defunto, diz a mãe.
- Tô precisada, responde arrumando o cabelo no espelho do corredor.
- Você não vai encontrar o príncipe encantado e desconhecido hoje, pergunta a mãe com sarcasmo.
- Não começa, mãe. Tô morta de cansaço. Fiquei conversando com a Rosana até tarde. Vejo ele amanhã, se eu quiser, ela responde ríspida.
- Ficou nervosa por que? Não se pode falar no nome desse desconhecido?
- Tô nervosa não, só cansada. Pode, mas não desse jeito. Ele tem nome.
- É, mas qual? Pepê? Isso lá é nome de gente?
- É.
- Por que ele não vem aqui em casa?
- Por isso, por causa dessas perguntas. Tchau, tô atrasada.
- Péra aí! Que perguntas?
- Essas. Você vai querer saber tudo dele ...
- E daí?
- Não gosto quando você faz isso, um paredão de interrogatório!
- Nada demais.
- Pra você, não para quem vai ficar respondendo.
- Sou sua mãe, tenho que conhecer com quem anda minha filha ...
- Maior de idade, dona do seu nariz ......
- Minha filhinha querida, criada a pão de mel .....
- Começou a chantagem! Tchau, tô atrasada.
Ela sai esbaforida, ainda calçando os sapatos com uma mão, a outra segurando a bolsa e uma pasta cheia de papéis. Já na rua, a caminho do Metrô, percebe que esqueceu o celular no bolso do pijama. Voltar e enfrentar a mãe? Faz um esforço e lembra que ele está desligado. Melhor ficar sem ele que escutar a ladainha da mãe. O sol está forte, o céu azul, típica segunda-feira depois de feriado chuvoso. Vai andando devagar para não suar ou não estragar os sapatos.
Quem dera pudesse ir trabalhar de tênis. Ou de sandália. De saia comprida, larga, bluzinha. Ou macacão. Cabelos soltos, bolsa atravessada, algo assim anos setenta, meio riponga. Aquilo sim que era conforto. Por outro lado, seu uniforme é matador. Os homens sempre a olham quando passa. Eles não podem ver uma mulher de saia e salto alto. Vão acompanhando com os olhos. Comendo com os olhos. E comentam entre eles. Bobos. Se as mulheres soubessem o poder que têm ...... Ela sabe, tem plena consciência do efeito que causa. Tem certeza que o Brad Pitt, se não fosse o Brad Pitt, isto é, se fosse o homem Brad Pitt, mas não o ator famoso, cairia na dela facilmente, só ela querer. E passar na frente dela. Ela assim com está agora. Só pedir para ele segurar a pasta para ela procurar o passe do Metrô na bolsa ....
A lanchonete da esquina. Ela vai caprichar no andar para comprovar sua tese. A "homarada" vai sair para vê-la. Caminha até a primeira porta e pára. Ajeita os papéis na pasta. Procura algo na bolsa. Um olho ali, outro na lanchonete. Já deu tempo para eles a perceberem. Empina o busto, sutiã branco rendado sob a blusa branca. Passa a mão na nuca desnuda. Pronto. Os comentários já começaram. Recomeça a andar devagar, bem deusa. Dobra a esquina, ainda tem duas portas para passar. Capricha no andar, tipo Gisele na passarela. A dela é ali. Sente a agitação dos homens. Quer que venham olhá-la. Por trás, como homem gosta. Ela quer também um assobio até o fim da segunda porta.
Olha firme para frente, mas percebendo o movimento na lanchonete. Um disfarça e vem para a porta. Toc, toc, pesca mais um, dois na segunda porta, falta o assobio. "Vai ser gostosa lá em casa", ouve atrás dela. "Linda, não?", pergunta um. "Apetitosa", diz outro. "Mora aqui perto", esclarece alguém. O assobio, cadê o assobio do Brad Pitt? Começa a segunda porta e nada. Só ouve comentários. Está chegando o fim da segunda porta. Capricha mais no andar, balança mais. O assobio vem. Não da lanchonete, mas do caminhão de refrigerante. Sorri agradecendo. Valeu, o entregador foi para a lanchonete. Tese demonstrada.
O Metrô está calmo a essa hora. Quem tinha que ir já foi. Chega na plataforma, a sirena do trem apita avisando que as portas vão ser fechadas. Não dá para correr de salto alto, mas um lindinho segura a porta para ela. O trem não parte e tem que reabrir todas as portas. "Não segure as portas do trem, blablablá, causar atraso blablablá ...". Ela aproveita, entra no vagão e agradece com um sorriso. Recebe outro em troca. Dá uma geral no cidadão e resolve sentar, não vale a pena. Se fosse o Pitt ...
Quem sabe encontra Pedro Paulo no Metrô, pensa. Já aconteceu várias vezes. Ele diz serem almas gêmeas. Quando quer chateá-lo, ela diz ser apenas mera coincidência. Mas está preparada para revê-lo? Sem anel ou com anel? Ainda bem que tem a reunião a tarde inteira, não vai ter tempo para pensar em Pedro Paulo, anel, fuga, essas besteiras. E nem em Rodrigo, Gustavo, Paulo e Leonardo.
Que horas seriam? Sem celular está perdida. Não devia ter trocado o relógio que ganhou de Pedro Paulo. Tá certo que a pulseira é mais bonita, mas não mostra a hora. Ele fez um escândalo com a troca. Tinha gastado horas escolhendo um relógio para ela trocar assim, de repente, por uma pulseira qualquer, que logo estaria fora de moda, jogada na gaveta. Relógio não, sempre será útil, disse ele. Ela teve um trabalhão para convencê-lo que ele é que tinha comprado a pulseira, pois tinha pensado nele quando a comprou. "Qual pulseira ele teria escolhido para mim se soubesse que eu estava precisando de uma? Sem dúvida essa aqui", explicou carinhosamente. Mais uns beijinhos e pronto. Como dizia Goethe, "eterno não é o amor, mas a capacidade de amar".
Será que ele estava pensando nela, agora?
José FRID
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