A viagem é curta. Ao passar sobre a Marginal, engarrafada como sempre, ele lembra do trabalho, precisa dar notícias. O trem entrará no túnel depois da próxima estação, ficará isolado do mundo. Tem que decidir, agora, se desce ali e liga logo para o chefe, ou se deixa para ligar quando chegar na estação do seu destino. Mas que destino? Onde andará Adriana? Em que estação a encontrará?
Armênia, antiga Ponte Pequena. O que os políticos não fazem por uns votinhos. Aqui ainda tem uma justificativa histórica, homenagem a um povo sofrido. Pior é a mania de colocar nome de time em estação. Portuguesa-Tietê. Corinthians-Itaquera. Palmeiras-Barra Funda. E por que não Adriana-Tucuruvi? Já teriam dois votos, pelo menos. Mais os da família dela, certamente. Saca o celular e chama o escritório:
- Tomás?
- Sim. Negão?
- Negão é o teu passado!.
- Tá nervosa, santa?
- O chefe taí?
- Não. Você vem hoje?
- Acho que não vai dar.
- Tá em lua de mel?
- Que porra de lua de mel é essa?
- O anel, porra. A menina, lembra?
- Sim. Tá chegando um trem ... fale alto!
- Onde você está?
- No metrô.
- Fazendo o quê?
- Ligando para uma anta!
- Não é isso. Por que você não vem trabalhar?
- Tenho que resolver uns problemas pessoais.
- Com a menina?
- Não. Ela está trabalhando.
- Deu certo o pedido? Ela gostou do anel?
- Deu tudo certo, depois explico.
- Que que eu falo para o chefe?
- Diga que fiquei em Santos ... o trem vai sair, espere ....
- Santos?
- É, diga que fiquei para resolver o problema das notas fiscais, algo assim.
- Mas tá tudo bem mesmo?
- Tranqüilo. Lá vem outro trem .... (desliga)
Depois de vários trens e algumas tentativas no celular de Adriana, ele ainda não sabe para onde ir ou que fazer.
- Gonçalves?
- Fala, garoto!
- Tô ligando só para avisar que está tudo bem ....
- E o anel?
- Desencontrei, só isso.
- O que aconteceu?
- Ela foi direto para casa. Vou encontrá-la amanhã.
- A gente se fala à noite?
- Sim, vou para casa.
- Vamos comemorar seu último dia de solteiro.
- Não tô casando ....
- Tá se amarrando, o que dá no mesmo.
- Tá bom, a gente comemora.
Teria cabeça para comemorar alguma coisa hoje à noite? Ou cairia na cama e desmaiaria, após a noite não ou mal dormida. Novo trem chega. Os raios de sol incidem em um ângulo que faz, momentaneamente, o vagão resplandecer. Um sinal? Entra no segundo vagão, fica junto à porta. Verifica passageiro por passageiro na pálida esperança de encontrá-la. Nada. Nada até quando?
O trem sai da estação e mergulha no túnel. A sorte está lançada. Alea jacta est. Logo chega a Tiradentes. Luz. São Bento. Sé. Sé. Sé. O vagão esvazia de um lado, começa a encher pelo outro. Ele procura Adriana entre os que entram. Nada. Nenhuma mulher de saia com nuca de fora. As sirenes tocam. As portas começam a fechar. Ele segura um painel da porta, dá um salto e consegue desembarcar. As portas do trem reabrem como se chamassem ele de volta. Resiste. "Volta, volta", dizem as portas. "Não segure as portas, você pode causar atraso em todo o sistema ......" Soam as sirenes, as portas lacram o trem, que parte. Venceu. Dá alguns passos e pára indeciso: Palmeiras, Corinthians ou saída?
Por que tem que decidir à toda hora? Ontem estava tão certo, tão seguro com o anel, hoje está em dúvida que time escolher para saber aonde ir. Ele quer é ir para Adriana do Tucuruvi. Como é santista, pega a escada para a saída, mas sem muita convicção. No andar de cima cruza com os passageiros que vêm da Zona Leste. Recorda da reclamação da Adriana com a ultralotação do metrô. Foi em uma sexta-feira que vieram juntos, de manhã, da casa dele. Vários homens queriam se encostar em Adriana. Ela percebeu e falou no ouvido dele: "Se é para alguém gozar atrás de mim, que seja você". E assim foi feito. Sorte dele.
Nesse dia, por coincidência, ao chegar no trabalho, verificou que tinha recebido um e-mail muito apropriado sobre o assunto. Imprimiu e levou para ela ler:
Poema muito lindo....
"O momento em que estamos juntos é interminável...
Nossos corpos estão tão unidos que posso sentir as batidas do seu coração.
Nossa respiração confunde-se com a do outro...
Nossos movimentos são sincronizados ... indo e voltando... para frente e para trás ...
Às vezes pára, e então, quando nos cansamos da mesma posição, nos esforçamos
para mudar, mesmo que seja só por pouco tempo.
O suor de nossos corpos começa a fluir sem nada que possamos fazer...
Um calor enorme parece que nos fará desmaiar...
Uma força ainda maior nos faz ficar ainda mais colados um ao
outro e, quando não agüentamos mais segurar...
Uma voz ecoa em nossos ouvidos:...."Estação Sé, Desembarque pelo lado esquerdo do trem."
"O momento em que estamos juntos é interminável...
Nossos corpos estão tão unidos que posso sentir as batidas do seu coração.
Nossa respiração confunde-se com a do outro...
Nossos movimentos são sincronizados ... indo e voltando... para frente e para trás ...
Às vezes pára, e então, quando nos cansamos da mesma posição, nos esforçamos
para mudar, mesmo que seja só por pouco tempo.
O suor de nossos corpos começa a fluir sem nada que possamos fazer...
Um calor enorme parece que nos fará desmaiar...
Uma força ainda maior nos faz ficar ainda mais colados um ao
outro e, quando não agüentamos mais segurar...
Uma voz ecoa em nossos ouvidos:...."Estação Sé, Desembarque pelo lado esquerdo do trem."
Ela deu um sorriso gostoso, aquele sorriso que ele tanto adora, falou "lindinho" e perguntou se ele é que tinha escrito. "Não, quem sou eu". Ela falou "lindinho" outra vez e o encheu de beijos. Ele até esqueceu de pedir para ela anotar seu e-mail e fornecer o dela. É por essas e outras razões que ele está naquela situação, sem nenhum meio de falar com ela, conclui.
Ele chega na plataforma superior da estação. Encosta-se ao muro da abertura circular que permite visão dos trens das duas linhas, uma sobre a outra. A cobertura de vidro, também circular, deixa passar a luz do sol e um pouco do barulho da fonte encima da estação. A torre do elevador destinado aos deficientes físicos chama a sua atenção. Toda envidraçada, deixa a sua estrutura metálica luzir ao sol. Círculos horizontais de metal engastados em longarinas verticais também metálicas. Uma obra de arte. Para Adriana, um símbolo fálico, uma camisinha gigante de vidro sobre um pênis de metal. Parece que ela só pensa naquilo!
Ele procura Adriana nas pessoas que lá embaixo saem dos trens. Nos intervalos entre eles, procura por ela na plataforma onde se encontra. Sem esperanças. Mas o acaso, quem sabe? O celular toca, é seu irmão.
- Fala cachorrão!
- Mais respeito com seu irmão mais velho, que tudo lhe ensinou na vida!
- Eu tava ferrado se seguisse seus conselhos, só sai merda!
- Não enrola, não. A gata gostou do caco de vidro colorido?
- Tá tudo bem ....
- Tô achando esse "tá tudo bem" meio chocho, meio bicha. Que houve?
- Nada, só desencontramos na estação ....
- Então tu tá solteiro!!! Deus é pai, não é padrasto!
- Porra, eu não ia casar!
- Bem que você queria fazer essa besteira!
- Eu?
- Não, eu! Quem ia dar o anel para a menina?
- Mas só para marcar um compromisso, um "up grade" na relação ...
- Enrolar a menina ......
- Tá bom, deixa pra lá. O que você quer?
- Pô, sou seu irmão, quero o melhor para você. Queria só saber se a grana que você jogou fora tinha compensado .....
- Já falei que está tudo certo. Vou vê-la amanhã.
- E sábado?
- Que que tem?
- Você vem para a gente repetir a despedida de solteiro?
- Pára com isso de despedida. Não tem despedida nenhuma.
- Quero saber se posso marcar com as três outra vez. A moreninha .....
- Carla.
- Essa mesmo. Ela disse que gostou de você.
- Tô fora!
- Ingrato. Cuspindo no prato que comeu. Você tem quer descer com o Gonçalves, são três para três, tá tudo certinho ....
- Você tem muito tempo para arranjar outro .....
- Mas ela gostou de você!! Adianta nosso lado ...
- Acho que não vai dar, vou ficar com a Adriana.
- Dá o anel, enrola e vem sábado. Diz que mamãe tá doente, aniversário da vovó, essas coisas, assim ela não vai querer vir com você e aí vamos nós!
- Você é um cara esquisito mesmo. Se eu vou dar um anel de compromisso para uma mulher é sinal que quero ficar com ela, não? Não dá para dar o anel e ir para a farra, você não acha?
- Não. O que tem uma coisa a ver com a outra? Lavou, tá limpo! Quantas vezes você não veio para Santos e saímos juntos, nós três? Com Adriana na parada e tudo. O que acontece em Santos, fica em Santos!
- Agora é diferente. A coisa está mais séria ..... é amor mesmo ....
- Não agüento essa baboseira. Vou marcar com as gatas e fico te esperando, viu? Tchau, trouxa. (desliga)
"Quem tem um irmão desse, não precisa de inimigo!". Pedro Paulo dá uma última olhadinha nos trens lá embaixo. Nada ainda. A cabine do elevador começa a subir, passando por dentro da armação metálica e da parede de vidro. Ele pensa que Adriana pode ter razão: parece que vai ejacular. Ele se afasta rápido em direção à as catracas da saída. No caminho até elas já vai decidindo o caminho que fará depois: sairá para a direita, cruzará a praça e procurará Adriana nos restaurantes e lanchonetes da região. Ele sabe que ela, muitas vezes, almoça por ali, quando vai visitar clientes. Até almoça com eles, o que deixa Pedro Paulo muito chateado. Ciumento, ele? Não, cuidadoso!
Sai na Praça da Sé, ar puro enfim, depois de horas nos subterrâneos da cidade. O céu continua azul, o sol forte clareia a vida de todos. O pastor come-grana está no local de sempre, dentro do retângulo de giz. No momento ele acabou de distribuir pequenos envelopes coloridos para os ouvintes e ora, ou melhor, grita que o dinheiro é sagrado, que Deus devolverá o dinheiro em dobro, etc. e tal ..... Certamente Adriana ali não está. E agora, para que lado ir?
"Prazeres da Carne". É lá que costumam almoçar. É por lá que irá começar sua busca!! Atravessa a rua e entra na Quinze de Novembro. Some na multidão da hora de almoço.
Encontrará Adriana? Ela estará sozinha? Grandes emoções nos próximos capítulos!!!
José FRID
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