Estamos acompanhando a ida de Adriana ao trabalho. Ela cruza a cidade de metrô, do Tucuruvi à Saúde, sem baldeação, coisa de uns quarenta e poucos minutos, se ninguém se jogar (ou ser jogado) nos trilhos do trem. Ou faltar energia.
Vemo-la (bonito, não? Merece até repetição: vemo-la. Tente usar numa conversa com seus amigos) sentadinha no banco de frente para a área destinada às cadeiras de rodas. Ela está no primeiro vagão da composição, como sempre. Ela e Pedro Paulo gostam de viajar nos vagões extremos: de manhã no primeiro, no último na parte da tarde e à noite. Para se encontrarem acidentalmente. Coisas de enamorados. Também pensam um no outro quando os ponteiros do relógio estão alinhados, formando uma reta. Mandinga que a avó dela ensinou. Motivo pelo qual ele deu a Adriana um relógio analógico, aquele que ela trocou por uma pulseira.
Teriam se encontrado hoje, na estação Armênia, se Pedro Paulo, como vimos no capítulo anterior, não tivesse entrado no segundo vagão do trem. Ele estaria tão transtornado que esquecera do pacto com Adriana? Um ato falho que Freud explica? Ou foi proposital, para evitar encontrá-la?
Ele procura Adriana, ela a três portas de distância. Isso importa? Não, pois não vão se encontrar hoje. Assim quer o destino. Cruel? Não, simplesmente a indiferença da vida cotidiana. Quantas vezes você se encontra em situações de quase-coincidência, que em nada influenciam sua vida?
O bilhete de loteria que foi premiado estava do lado daquele que você comprou. Lembra da sua hesitação? Você pegou os dois na mão e ficou com o errado. O que isso mudou sua vida? Nada e você nunca soube que esteve com o premiado na mão. O acidente que você evitou ao sair mais cedo de casa para ir ao trabalho. Sua vida não foi radicalmente alterada e você nunca soube que escapou do acidente. O jornal que acabou enquanto você folheava umas revistas na banca da esquina, no qual estava o anúncio do emprego que você procurava. Você continua naquele emprego chato, sem perspectivas e nunca vai saber que perdeu o emprego desejado por folhear a "Caras" na hora errada. A vida é assim. Indiferente.
Deixemos de filosofia barata e voltemos a Adriana. Ela está entretida na leitura de seus papéis, se preparando para a reunião da tarde. O cliente é importante, fechará a meta do mês com sua encomenda. Nessas horas, ela fica totalmente concentrada no trabalho, esquece até do seu Pepê. Assim, ela não percebe o impacto que causa nos homens do vagão, como a noiva da cidade, moça descuidada que dorme na canção do Chico e que deixa em sobressalto o coração da gente. Todo marmanjo quer entrar nos seus sonhos e ser um Tutu-Marambá.
Olhando assim, de fora do vagão, vemos que ela está bonita e sensual em seu uniforme cinza, cabelos presos, saia na altura dos joelhos, meias finas e sapatos pretos de salto alto. Vemos os homens entrarem e se depararem com suas pernas. Bonitas, mas nada em especial. Mas são homens, e para eles bastam estar expostas. E não são só as pernas, tem a saia, as meias e os sapatos altos. Eles se contorcem em tentativas vãs de verem algo mais que o exposto. Homens são assim. Insistentes.
Podemos ver outro grupo de homens em ação, aqueles que apreciam vistas aéreas. Adriana com sua blusa branca, sutiã rendado, é alvo preferencial daqueles que ficam em pé juntos aos bancos. Também se contorcem em busca de um pouco mais de pele ou de tecido. O ângulo é bom, a vista pode ser profunda.
Vamos deixá-los em suas fantasias e retornemos a Adriana, absorta em seus papéis. Ela não sabe que hoje será o último dia que vestirá aquele uniforme. Terá que trocar seu uniforme de trabalho. Amanhã será promovida para o lugar da sua chefe, a megera Ruth. Megera? Mulheres chefiadas por mulher, o que poderiam achar da outra?
A despeito das divergências, Ruth recomendou Adriana para a vaga que será aberta. "Ótima profissional, dedicada, competente, interessada. Com bons conhecimentos técnicos, teóricos e práticos. Com potencial de evolução. Capacidade de liderança e de trabalho em grupo. Bom relacionamento interpessoal. Boa comunicação escrita e verbal .....". Um dia pode ser que Adriana tomará conhecimento dessa avaliação e, quem sabe, veja Ruth com outros olhos. Ou não. São mulheres.
Ruth não foi boazinha em indicar Adriana, apenas reconheceu sua capacidade de trabalho, uma boa arquiteta e excelente vendedora. A melhor da regional da firma de móveis industrializados para escritórios, lojas e cozinhas planejadas. Ela almeja a diretoria, quiçá a presidência, sabe que vai precisar de muitas "adrianas" em sua equipe.
Agora é a vez de esquecer Ruth e ver onde Adriana está. Ela continua sentadinha lendo seus papéis. Caso estivesse de costas para o sentido do trem, poderia ter visto Pedro Paulo hesitando na Sé. Será que ela conseguiria sair do trem e alcançá-lo? Ou melhor, teria vontade de ir atrás dele? Nunca saberemos, ela não o viu.
O trem parte, Pedro Paulo fica, Adriana segue lendo seus estudos, a proposta a ser apresentada ao cliente. A clientela masculina alterou-se quase toda, mas muitos continuam querendo ser um "Tutu-Marambá" de Adriana. Tolos homens.
Enfim, Saúde. Ela desembarca e o relógio da estação lhe avisa que não vai dar para ela almoçar antes da reunião. Passa na lanchonete e sai com um suco e um copo de pães de queijo aperitivos, o suficiente para enrolar o estômago até umas quatro da tarde, provável fim da reunião.
Treze e trinta e cinco no relógio digital de pulso. Ponteiros presumidamente alinhados (ao trocar o relógio analógico, ela jurou que no relógio digital também dava para saber quando os ponteiros estavam alinhados, era só decorar os horários), instintivamente Adriana pensa em Pepê. Onde estará? Estaria pensando nela? Meneia a cabeça para tirá-lo de sua mente. Bastou ter pensado nele.
Adriana repara que Ruth está de sapatos novos, certamente uma autocompensação pelos quilos perdidos no spa do feriado. A blusa de seda vermelha não está mais esticada e forçando o botão sobre os seios. A saia preta desce suave sobre os quadris. Ela espera que a chefe tenha comido algo hoje, senão estará intragável, uma pilha de nervos pela dieta forçada.
O que Adriana não sabe é que essa visita ao spa foi preparação para a reunião de amanhã, na qual Ruth será promovida. A chefe quer estar deslumbrante, até roupa nova vai estrear. Os sapatos são parte do pacote festivo.
- Chefinha querida, você está linda!, diz trocando beijinhos com Ruth. (Sincera?).
- Você acha mesmo?
- Sim. O spa fez bem para você. Parece relaxada.
- Mas que fome passei!
- Os pratos não eram balanceados?
- Balanceados para a gente passar fome!
- Mas você está com um ar descansado ...
- É fraqueza. Seiscentas calorias por dia e só. E tome chá, chá. Exercícios, massagens, um porre!
- Mas no fim valeu, não?
- Sim. E como foi no interior?
- Muito bem. Mas ao contrário de você, comi mais de dez mil calorias por dia. Sabe como é, comida do interior. E tinha que comer em toda a casa que visitava, avó, tias, amigas, um horror! E as festa, churrascos, feijoada! Eu é que preciso ir para o spa, estou uma baleia!
- Menos, menos. Está linda. E a proposta?
- Está tudo pronto para a reunião.
Ruth comanda a reunião, a voz esganiçada do cliente irrita Adriana. O celular dele, tocando a toda hora e interrompendo a reunião, também. "Salve o Corinthians ..." é demais para qualquer cristão, principalmente palmeirense. Como um cara assim pode ser diretor, se pergunta. Ela disfarça a contrariedade com o cidadão e tenta se distrair lendo os papéis espalhados pela mesa. O tempo vai passando, os ponteiros fictícios se alinham no seu digital, ela pensa em Pedro Paulo. Dele segue até outra reunião, tempos atrás, quando o celular não parava de tocar. Mesmo no modo vibratório fazia um barulhinho que incomodava Ruth. Só entre as pernas conseguiu abafá-lo, mas ele não parava de vibrar. Era Pedro Paulo. Sexo por celular. Orgasmos múltiplos no meio da reunião. Por que tinha esquecido o aparelho em casa hoje, se interroga. Hoje seria de grande utilidade.
Ruth trás seu pensamento de volta à reunião, pedindo para ela explicar detalhes de projeto. Ela fala, explica, corrige, as horas passam rápidas. O cliente fecha o negócio, salve o Corinthians!
- Quer que eu passe na sua casa?
- Não precisa, vou com meu carro.
- Vê se não chega atrasada, a marginal está sempre cheia!
- Sem problemas. Corto por dentro e pego o Rodoanel. Saio já em cima da empresa.
- Não esqueça dos relatórios e das planilhas.
- Pode deixar.
- Posso ficar tranqüila?
- Sim, não se preocupe, diz contrafeita.
Ela odeia essa pergunta, pois as únicas respostas que o subordinado pode dar, "não se preocupe" ou "fique tranqüila", tiram o seu sossego. O chefe vai embora, lépido e fagueiro, e o subalterno fica ali preocupado e intranqüilo. Perde o sono para tranqüilidade do chefe.
A chefe se despede. Adriana nota que a bolsa também é nova, combinando com os sapatos. "A mulher está com a grana", diz para Carminha. "Acho que é namorado novo", responde a secretária, que completa informando que Ruth está indo para o salão arrumar o cabelo. Ela pergunta se Adriana quer alguma coisa do Habbib's , "um Beirute e um suco de laranja". "Só", pergunta Carminha. "Melhor incluir um quibe também. E um docinho folhado."
Adriana está cansada. A noite mal dormida. E cansaço lhe dá fome. Trabalhar também. Ainda bem que Pedro Paulo não sonha com uma mulher esquelética. Seu docinho. Por onde andará seu docinho de coco? Agora que acabou a agitação no escritório, bate uma saudade grande dele. E um enorme arrependimento. Por que ela fugiu ontem, sem falar com ele. Já conseguiu superar problemas maiores com ele, sem precisar fugir. Como a vez que ele queria levá-la no aniversário da mãe dele. Então, por que fuga de ontem? Não sabe. A visão do anel não seria suficiente. Trocaria o anel por outro tranqüilamente, como fez com o relógio. Haveria outra coisa em sua mente? Sentimento de culpa pelo acontecido em Avaré? Rodrigo, Leonardo? Não, foram só brincadeirinhas. Foram?
A montanha de papéis na sua frente não permite que ela, naquele momento, procure uma explicação lógica para sua fuga. O jantar chega, o trabalho chama. Adriana trabalha até tarde para pôr o serviço em dia. Ficou a semana fora. A fiel Carminha firme a seu lado. Faz planilhas e relatórios para a reunião de amanhã, na matriz, em Alphaville.
Trabalho concluído, Pedro Paulo volta à sua mente. Resolve desabafar com Carminha. "Você é louca, amiga. Homem como o Pedro Paulo está difícil de achar no mercado!" O arrependimento volta, latejante, dilacerante! Ligar para ele?Já? Agora?
José FRID
Nenhum comentário:
Postar um comentário