Capítulo X
Malas, muitas malas. De um lado e do outro da rua Direita. As fachadas das duas lojas estão tomadas de malas de todos os tipos. O malão da Adriana está lá, o da velhinha também. Nelson das Bolsas. Lá no fundo, no prédio triangular, outra loja de malas. Também do Nelson! No alto das fachadas, as bandeiras do Brasil e de São Paulo e o dístico: orgulho de ser uma empresa brasileira. Pedro Paulo se pergunta: orgulho de quê? Mas reconhece que o homem foi bem sucedido. Ao lado das lojas de bolsas, lojas de roupas de bebês, também englobadas pelas bandeiras e o dístico. "Ele deve é se orgulhar de si próprio!"
A Quinze está tomada de camelôs e rodinhas de artistas populares. Pedro Paulo caminha devagar observando tudo, pois Adriana pode já ter almoçado e está caminhando por ali. Ela gosta desses artistas e sempre pára para assisti-los.
Ele segue. Um mágico, a estátua viva de um roqueiro (ou algo assim), um jogador de futebol, outro mágico, um professor de matemática, ou melhor, um fazedor de contas, um cantor repentista, um pintor de azulejos. Fora os mil panfletos.
A recepcionista dos "Prazeres da Carne" entrega a comanda desejando-lhe um bom almoço. Seria aquela loirinha bonitinha, provavelmente do sul, a fornecedora dos prazeres carnais? Ele não se dirige à bancada de comida, vai direto ao setor de mesas. Caminha entre elas inspecionando cada pessoa, chegando até intimidar algumas delas. Seria seu rosto cansado? A barba por fazer? Naquele salão ela não está.
Sobe as escadas e repete a atuação no outro andar, com igual reação de alguns comensais. A inspeção fracassa ali também. Desce as escadas e se vê no espelho defronte a elas. Entende então a reação das pessoas: está péssimo! Em total desarmonia com o ambiente. Não é só a barba por fazer, as olheiras da noite mal dormida, mas também os cabelos desgrenhados, a camiseta do Raul Seixas amarfanhada, a calça cargo velha e o cinto puído pendente de lado. O tênis, muito novo e limpo, não ajuda, pois destoa do resto do conjunto. Sente grande vergonha de si mesmo. Volta a insegurança que o domina desde o domingo do anel. "Ainda bem que ela não me viu!"
Sai quase correndo do restaurante. Desiste de procurá-la naquele estado. Queria estar no seu terno "risca de giz" cinza, que usou no casamento da prima e repousa no seu armário lá em Santos. Os cabelos penteados com gel. Seus sapatos novos, brilhantes. A gravata azul clara. Seguro de si.
Encurvado, cabeça baixa, mãos no bolso, caminha a esmo pelas ruas, esgueirando-se junto aos prédios, como se escondesse de Adriana. Passa pelo Largo do Café, a lembrança do fracasso daquela noite só piora a situação. São Bento, Patriarca, Viaduto do Chá. Os adivinhos e ciganas atraem sua atenção. Ele só não se consulta com algum deles com medo de Adriana vê-lo sentado num banquinho, atento às baboseiras do vidente banguela de turbante.
Na porta do shopping entregam-lhe um panfleto: trago seu amor de volta em sete dias. Afasto mal olhado. Desfaço despachos. Amarro seu marido. Jogo búzios. Leio Tarô. Ele guarda no bolso: uma pessoa com tantas qualidades pode se tornar útil para encontrar Adriana.
Ele acha que aquilo é um aviso do acaso. Resolve procurá-la na praça de alimentação do shopping. Ela às vezes vai ali sozinha. Seus trajes talvez não a choquem. Passa por um espelho e se olha de soslaio. Uma decepção. Como pôde sair de casa assim? Ainda mais para encontrá-la.O que passou na sua mente? Seria um transtorno mental pela noite mal dormida? Outro espelho, passa reto, sem coragem. Quarto andar, passa em frente a uma loja de tênis. Entende, então, por que escolheu aqueles trajes. É amor!
Ele está sempre de sapato, calça social e camisa de botão. Hoje saiu de casa com o tênis que ela deu e ele usou muito pouco – uma vez foram juntos ao Parque do Ibirapuera, descendo da Paulista. E umas poucas vezes mais. A calça cargo velha também é presente dela. A camiseta, ele comprou na Galeria do Rock, mas porque ela adora o Raul Seixas. O cinto ela não gosta, mas ele usa para provocá-la. Puro amor! Mesmo transtornado e insone, ele vestiu-se para ela. Procura um espelho, arruma os cabelos, levanta a calça, aperta o cinto, arruma a camiseta.
Satisfeito, sobe à praça de alimentação mais animado. Espera encontrá-la e encantá-la com sua indumentária amorosa. Ele tem certeza que, se ela olhar para ele, vai entender sua mensagem afetiva. O cheiro da comida abre seu apetite. Circula pelo ambiente, sem pressa, mas não a encontra. Serve-se no restaurante chinês e procura uma mesa em que possa ver e ser visto. Acha uma bem próxima às escadas rolantes e de frente para o corredor de acesso ao elevador. Fora de seu alcance só a escada fixa, mas tem certeza que a Adriana nunca irá chegar ou sair por ali, de sapatos altos.
As olhadelas dele para as mulheres que passam, à procura de Adriana, e o seu sorriso de boba felicidade, atraem a atenção delas. Muitas olham para ele, apreciam a barba por fazer, as olheiras profundas, e devolvem o sorriso. Lê fica sem graça e desvia o olhar. Outras fecham o semblante e ele desvia o olhar também. A cabeça de Pedro Paulo oscila de um lado para outro, tal como um ventilador de paredes. Entretanto, sua mente está fixa em um só pensamento: Adriana.
Está feliz, quase em êxtase. Alegre em concluir que a decisão de dar o anel para ela é acertada, acertadíssima. É amor. Amor. Repete baixinho, como um mantra: amor, amor, amor. As roupas mostram isso. Vestiu-se para ela, mesmo estando semi-inconsciente do que fazia. Ela está no seu coração, na sua mente, impregna todo o seu ser.Seu rosto se ilumina.
O celular toca e retira-o do seu enlevo amoroso. O visor indica ligação do escritório. Bate uma saudade da voz dela. Abestalha-se. Entristece. Lembra que faz mais de dez dias que não fala com ela, que não toca o hino do Palmeiras, toque personalizado imposto por ela. Por que? Por que?
Ele está seguro da sua decisão, mas como encontrá-la nesta cidade tão grande? Só tem o celular que não atende. Desligado? Sem bateria? Quebrado? Perdido em Avaré? A sua felicidade vai se escoando a cada questionamento. Como pôde manter um relacionamento afetivo baseado exclusivamente em um celular? Sem endereços, nomes, família, amigos, telefones, trabalho, e-mail. O que ela estaria escondendo? Teria uma vida dupla? Garota de programa? Traficante? Contrabandista? Assaltante de banco ou cargas? Petista aloprada? Qual o seu terrível segredo para agir assim?
Ele entra em desespero. Pensamentos ruins surgem. E se ela morreu na noite passada? Já teria sido enterrada? Não, a família teria avisado pelo celular. Se é que ela tivesse família em São Paulo. O que teria acontecido na estação? Qual a causa do sumiço? Alguma coisa de grave ocorreu, algo inesperado, senão ela voltaria para avisá-lo.
Ela estava alegre ao falar com ele. Parecia bem de saúde. Ele se recorda que ela caminhou de forma normal até a bilheteria, sem apresentar fraqueza ou dificuldade. Ainda arrastava seu malão preto. Será que passou mal na fila? Para não avisá-lo, teria que ser um desmaio súbito. Um colapso nervoso. Um ataque cardíaco. Porém, qualquer dessas hipóteses causaria um grande alarido, que despertaria sua atenção. Será que ele estava tão embevecido com o anel que não vira o resgate removê-la para o hospital? O que teria havido com sua pimentinha?
Se alguém tivesse aparecido para levá-la em casa, ela com certeza lhe avisaria. Ligaria para ele do celular da pessoa. Quem não tem celular hoje em dia? Aconteceu algo grave, tem certeza. Mas o que fazer? Para onde ir? Como procurá-la? O apetite som, um enjôo brota nas suas entranhas. Ele corre para o banheiro e vomita muito. Algo na comida ou Adriana? A tensão acumulada? Outra vez o estômago se revira. E mais uma vez. Não há mais nada para exteriorizar. Ele respira fundo, lava o rosto, bochecha para tirar o gosto ruim da boca. Cansado. Confuso. Entra no box, abaixa a tampa, senta no vaso, tranca a porta, recosta-se na parede, fecha os olhos e se deixa ficar. Até quando? Até quando?
A noite cai. Ele sai do box. Olha-se no espelho. Está deplorável. Passa as mãos nos cabelos, ajeita a roupa. Desce as escadas do shopping triste e cabisbaixo. O barulho do trânsito lhe desconforta. Entra no metrô Anhangabaú com destino de casa. Deixa-se levar pela multidão, é inserido com força no vagão e sustentado em pé pelos corpos dos outros passageiros. Como irá descer na sua estação?
Consegue sair no Tatuapé. Debruçasse na mureta baixa da estação. Lá embaixo os trilhos do metrô, dos trens e as duas avenidas. O paraíso do suicida: cinco vias para morrer. Se ele pular, não dará tempo para os condutores e motoristas frearem, só o choque e as carnes rasgadas. Haverá dor?
José FRID
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