Capítulo XI
Naquela noite eles se sonharam. A tensão e o cansaço dos dois dias derrubaram o casal. Sono pesado. O corpo repousa, mas a mente gira rápida para poder processar tantas informações e emoções daqueles dias.
Não se encontraram logo de imediato. O cérebro é manhoso, tem seu próprio jeito de se organizar e se realimentar todos os dias. Primeiro os sonhos curtos vão se sucedendo, processando as situações do dia a dia, acomodando as informações, sentimentos, etc. no diversos escaninhos do cérebro, que um dia, um mês, ou nunca, serão recuperados. Como se a mente varresse o lixo mental acumulado durante o dia para poder abrigar a superprodução com o tema principal. E assim, lá se vão para o fundinho do cérebro Santos, Avaré, Carla, Rodrigo, Leonardo, telefonemas, etc. Só restam o anel e a fuga.
Quem pudesse enxergar os dois nessa noite veria seus corpos assumindo diversas posições sobre as respectivas camas. E se pudesse entrar em suas mentes constataria que no meio da noite, na madrugada, eles se encontraram na Barra Funda.
E ele sonha que ele está na plataforma de desembarque dos ônibus que vêm do interior de São Paulo. Altivo, com seu terno cinza de "risca de giz", cabelos milimetricamente penteados para trás, fixados com gel, perfeitamente escanhoado, a gravata azul claro, os sapatos pretos brilhando, o relógio dourado resplandecendo em seu pulso, a caixinha de veludo no bolso do colete. Seguro. Decidido. Encantador. As mulheres passam e suspiram, desejando tão belo espécime masculino. Ele sério, consciente do efeito causado, mas compenetrado no aguardo de Adriana. Mas se ele não fosse comprometido ......
Irrompe o hino do Palmeiras, é ela avisando que já está em São Paulo. Mais alguns minutos, o ônibus se aproxima, ele atento, o coração aos saltos. Algumas manobras e o coletivo cintilante estaciona exatamente ao lado dele. A porta se abre com um silvo curto de ar comprimido. Surge Adriana no alto da escada, envolta numa nuvem prateada, que lhe sorri radiante. Sua saia branca com desenhos e listas vermelhos e verdes farfalha ao descer os degraus. Os inúmeros pequenos botões de pérola da blusa branca resplandecem. Ele se aproxima e a enlaça, rodopiando-a na plataforma. Ele a beija, ela com os braços ao redor de seu pescoço.
Ele teatralmente abre a caixinha de veludo. A pedra do anel e os olhos dela brilham como mil estrelas. Ele coloca o anel no dedo dela, a multidão aplaude, os últimos raios de sol se misturam com os primeiros lampejos das luzes da estação. Seguem abraçados para o Metrô, ele puxando o malão dela, ela com a cabeça recostada em seu ombro.
O metrô voa até o Tucuruvi. Caminham abraçados, cumprimentando os vizinhos e os comerciantes locais, as crianças e os cães. Os pais estão na porta da casa dela, um sobrado amarelo com janelas azuis. Antes de falar qualquer coisa, Adriana estica o braço e mostra o anel, que faísca sob a luz da lua cheia. A pulseira que foi trocada cintila também, afinal isso é um sonho. Todos se abraçam, o casal ganha parabéns. Os irmãos dela vêm também cumprimentar o casal.
Na sala estão os avós, tios e primos. Rapidamente a mãe organiza uma festa, doces, salgados, champanhes são espocadas. Pedro Paulo mal consegue respirar com tantos abraços, beijos e apertos de mão. Parece que toda a família, amigos, colegas de trabalho e vizinhos estão presentes, espalhados pela casa. Música e churrasco no quintal. Aparecem as bandeiras do Santos e do Palmeiras, selando a união.
Adriana liga para a casa dos pais dele e diz que no próximo sábado almoçará com eles em Santos. O irmão dele pede para ela trazer uma irmã ou prima, quer ter a mesma sorte de Pedro Paulo.
Os dois estão no quarto dela, com pijamas de flanela fina, o dele com xadrez azul e branco, o dela em xadrez rosa e branco. Ela sai para os últimos retoques, o anel cintilando no corredor. Ele coloca as taças de champanhe no criado mudo, ao lado do celular dela. A saia verde e vermelha, que um dia foi uma toalha de mesa que sua mãe trouxe de Portugal, repousa sobre o malão. Ele repara primeiro nos corações vermelhos no corpo de galo. É o amor maior. Bom presságio para aquela noite.
Porém, logo fica incomodado: o Galo de Barcelos olha fixo para ele. Pedro Paulo põe a mala de perfil, vai ficar encabulado com aquele animal olhando para ele dormindo com ela. Como poderá fazer o que tem que ser feito, com o galo santo lhe observando? Acusado, enforcado, como o peregrino da lenda? E se o galo resolver cantar na hora errada? Ele dobra a saia e guarda-a no fundo do armário. Nessa noite só ele irá cantar.
Amam-se a noite inteira. Champanhe, morangos, mel. A música baixinha pontua os gestos, os movimentos. Os corpos nus sob o luar, qual esculturas prateadas. No chão, meu paletó enlaça seu vestido ...
Acordam abraçadinhos, tomam café da manhã de comercial de margarina. Ele ajuda a ela se arrumar, sobe o zíper da saia, ajusta as fivelas dos seus sapatos, não sem antes beijar os dedinhos. Ela ajeita a gravata dele. Saem abraçadinhos, o sol forte, o céu azul, ... Abraçadinhos vão de metrô até a Saúde, ele a deixa na portaria do escritório com um beijaço, invejado pelas colegas de trabalho que vão chegando. Combinam de acertar por e-mail um almoço próximo da Paulista. Ele chega no escritório, seu colega pergunta se tudo deu certo, diz que sim, que vai almoçar com ela .....
E ela sonha que ela rapidamente deixa a plataforma de desembarque e sobe correndo a escada rolante. Saudades do seu Pepê. A saia estampada com flores grandes e coloridas farfalha enquanto ela percorre rápida o corredor da estação. Lá está ele nas catracas do Metrô, como combinado. Do jeito que ela gosta: com um largo sorriso, a barba por fazer, a sua camiseta, a sua calça, o seu tênis. Ele é dela. Todinho. Ela passa pela roleta e é abraçada por ele, que a rodopia. Ela pergunta o que é aquele volume no bolso da calça. Ele responde, malicioso, que é um presente para ela. Ela ri gostosamente, diz para ele parar de ser bobo e mostrar logo o que é aquilo.
Ele tira a caixinha de veludo do bolso e dá para ela, dizendo que ficou com muitas saudades dela. Ela abre e sorri ao ver o par de brincos de ouro com várias pedrinhas coloridas. Pergunta, dengosa, se dá para trocar. Ele fecha a cara, ela gargalha dizendo que é brincadeirinha. Diz que também tem um presente para ele.
Ela guarda a caixinha no bolso da saia e abre a mala. Agora ele é que ri da bagunça. Mexe e remexe, ela acha o pacote. Ele rasga o papel com cuidado, um pote de doce de leite com ameixa, uma barra de doce de leite, um saquinho de balas de doce de leite, uma caneta com corpo em bambu "Estive em Avaré e lembrei-me de você" e um chaveiro no formato de uma vaca malhada "Lar Doce Lar". O famoso kit Avaré. Ele agradece, diz que é o seu doce predileto e a beija apaixonado.
Descem abraçados as escadas, ela diz "que bela camiseta". Ele sorri, comprou a camiseta do Raul para lhe agradar. Sentam no último vagão do trem, conversam e come as balas e se abraçam e se beijam etc. até o Tatuapé. Atravessam a passarela, as luzes vermelhas e brancas colorem a avenida, entram no shopping e passam em revista todas as vitrines até chegarem na praça de alimentação. Melhor dizer ela passa em revista, ele só acompanha. Caminham de mãos dadas, ele puxando a sua mala. Ele está bonzinho, sem pressa, nem reclama quando ela entra numa loja ou outra para ver melhor uma roupa, um sapato, um perfume, uma pulseira. Ele fica na porta a aguardando, com o cabo da mala servindo-lhe de apoio.
Ela lhe surpreende saindo de uma loja com os cabelos presos e usando os brincos novos. "Gostou?" "Tá linda, como sempre!", ele responde sorrindo. Ela sacode a cabeça, os brincos balançam. As pedrinhas brilham. Mais beijos e abraços. O que dez dias de separação não fazem por um casal.
Ela pede só uma saladinha básica, pois comeu muito no interior, "estou uma baleia", do que ele discorda de forma veemente, afirmando que ela está gostosa. Ele enche o prato, "não comi nada hoje". Sentados lado a lado, ela come a salada e pesca no prato dele, que de vez em quando se irrita e pergunta se ela quer comer tudo. "Não, é só gula, estou sem fome", diz ela. "Acredito", responde ele irônico.
Caminham sob as árvores da praça em frente ao apartamento dele. O luar infiltra-se entre as folhas bordando lindos desenhos na calçada irregular. A mala vem atrás deles, tropeçando nas depressões e saliências do passeio. O pipoqueiro no ponto do ônibus prepara a última fornada do dia. Ela olha e aperta o braço dele. Ele conhece o sinal. Atravessa a rua e espera a pipoca ficar pronta, com muito bacon como ela pediu. No orelhão Adriana fala com a mãe. "Cheguei bem, tá tudo bem, tudo correu bem, a viagem foi ótima, depois lhe conto. Sim, vou dormir na casa dele, amanhã vou direto para o trabalho. Tenho roupa, não usei quase nada. Beijos."
Ele pega uma pipoca do saco e põe na boca de Adriana. Ela toma o saco e diz que não é assim que se faz, "vou ensinar como se come pipoca a dois". Ela coloca uma pipoca entre os seus próprios lábios e o beija. "Que nojo", diz ele brincado. Ela fica amuada e diz que não vai dar mais para ele. Ele implora para ela dar para ele, está morrendo de saudades. Ela não entende o sentido das palavras dele, ou finge não entender, ri e diz então que vai dar para ele. Ela enche a mão de pipoca e empurra na boca de Pedro Paulo. Enamorados são assim.
Ao entrar no edifício azul e branco, ela pergunta se o Gonçalves está. Ele responde que só voltará de Santos amanhã, irá direto para o trabalho. Ela faz questão que ele a pegue no colo antes de adentrar o apartamento, a mala jogada no corredor. Beijos, abraços, mordiscos nas orelhas, ele quase engole uma pedrinha, roupas pelo chão, não dá tempo de chegar no quarto. Deitam-se em cima da saia florida e da camiseta do Raul, que adora a companhia. Uma música romântico-brega chega aos seus ouvidos vinda do ponto de ônibus. Sorriem e se amam e se amam e se amam.
Mais tarde, Pedro Paulo resgata a mala no corredor e sai à procura da garrafa de Periquita que deixou por ali. Ela vai ao quarto pegar os pijamas, esfriou essa noite. Estão em volta da mesa da cozinha, com pijamas de flanela fina, o dele com xadrez azul e branco, o dela em xadrez rosa e branco. Ela soltou os cabelos, os brincos repousam no criado-mudo. Estão de mãos dadas sobre a mesa, os pés entrelaçados sob ela. A garrafa de vinho aberta, dois copos, um pão italiano meio vencido, um queijo prato suspeito. Mas nada importa, é a fome, é o amor, a fome de amar. Tudo lindo, lindinho, gostoso, gotoso. Argh!
Os despertadores tocam nos dois quartos separados-unidos pelo Metrô. Os dois espreguiçam. Ambos vão ao banheiro. Ela volta para cama, "cinco minutinhos". Ele olha pela janela da sala, as árvores da praça balançam com a brisa matinal. Ele sonha acordado, ela tenta continuá-lo. Sonham-se ainda? Lembram-se dos sonhos?
José FRID
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