O menino não fica bravo com aquelas pessoas diferentes que, de vez em quando, vêm tirar fotografias deles. É engraçado, eles chegam um pouco perto, falam umas coisas que não dá pra entender e tiram umas fotografias. Algumas mulheres ainda dão um dinheiro, mas é um dinheiro diferente, não dá pra comprar em qualquer lugar.
No começo, o menino achava esquisito eles falarem diferente, ele pensou até que era bobos igual uns mendigos, principalmente os que dormem lá perto da estação de trem. Mas o padre explicou que não, eles falam diferente porque moram muito longe, alguns até depois do mar. Então, o menino percebeu que o jeito de falar depende do lugar que a pessoa tem a casa dela. Se fica longe, aí a pessoa fala diferente.
Mas então, no outro dia, o menino pensou que primeiro ele teria que comprar uma casa, para depois aprender a ler e a escrever, para aprender do jeito que falam onde seria a casa dele. Só que o padre falou que ele precisa primeiro aprender a ler e a escrever para depois comprar a casa dele, como ele vai saber qual é o jeito dele, se ele ainda não tem casa? Se for assim, então, só podem aprender a ler e a escrever as crianças que já têm uma casa, porque aí elas aprendem do jeito que é onde fica a casa, para depois poderem comprar outra casa para os filhos deles. Ele, que não tem casa nenhuma, não vai poder aprender a ler e a escrever nunca, porque não vai saber qual é o jeito certo.
Ricardo Lísias in "Cobertor de Estrelas", p.38
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