Gonçalves sacode Pedro Paulo: "Ô vagal, vais trabalhar hoje?" Ele toma um susto com a mão do amigo. Abre um olho, solta um monte de impropérios, boceja. "Tava sonhando tão bem". "OK, bela adormecida. Tá na hora. Ou melhor, já passou da hora. Fui".
Ele tenta se levantar, a cabeça dói. Não deveria ter bebido toda a Periquita sozinha. Mas se não bebesse, não teria aquele sonho bom. A boca seca. Ele olha ao redor e pela luminosidade do quarto verifica que é hora de ir trabalhar. Trabalhar? A melhor coisa para esquecê-la, ou melhor, sua fuga. Não sabe onde ela está, nem onde procurá-la. Fazer o quê, então? Melhor ocupar a cabeça e esperar ela ligar. E torcer para.
Tempos depois, com muito esforço, a cabeça ainda latejando, levanta-se da cama, toma banho, café, leite, pão fresquíssimo – esse Gonçalves vale ouro. A cortina da sala está aberta: céu azul, sol forte, a pracinha repleta de carrinhos de bebê. Perdeu a hora, constata.
Abre o guarda-roupa. A caixinha de veludo está na prateleira do meio, na frente das camisetas. Ele a abre, aprecia a jóia, passa a toalha sobre a pedra e diz para si mesmo que ela vai adorar. Guarda a caixinha no fundo do armário, sob as camisetas, onde a faxineira não mexe e o Gonçalves não vê. Enquanto escolhe uma camisa, lamenta não ter um terno para vestir, como no sonho. Anota um recado para si mesmo num papel sobre o criado mudo: "trazer terno de risca".
Procura o celular no quarto, na sala, está no chão ao lado do sofá. Está ligado e indicando uma mensagem: "ligue para mim, já estou disponível". O número marcado é o dela. Está viva!
Imediatamente liga para ela. Chama, chama e ninguém atende. Cai na caixa postal. Ele deixa o primeiro dos muitos recados do dia. Mesmo assim, fica animado. Ela está recebendo suas mensagens, pois a caixa postal não está lotada. Por que não atende? Deve ter suas razões? Quais? Melhor ir trabalhar. Breve ela vai dar notícias. Espera. E torce para.
A caminho do Metrô seu irmão liga querendo saber de sábado, se pode marcar com a Carla e suas amigas. "Ainda não, tá cedo. Ligo na quinta." "E o anel?" "Tá na mão. Tchau." Desliga apressado antes que o irmão insista no assunto. O que dizer para ele? Que ela sumiu? Que o anel está guardado no meio das cuecas?
Trabalha e liga para ela. Nada. Trabalha e liga. Nada. Trabalha, trabalha e liga.
- Alô!
Aquela voz diferente e repentina o emudece. Não estava preparado para alguém atender. Será ela? A voz parecia a da Adriana, mas não era exatamente aquela que conhecia, que tinha escutado tanto. A pessoa desliga. Será que ligou errado? Não pode ser, só tem usado o redial desde domingo. Confere o número no visor, é o de Adriana. Respira fundo. Prepara-se para responder um "alô" desconhecido. Redial novamente.
- Alô. Alô! Alô?
É a mesma voz. Parece mas não é a de Adriana. Antes que a outra desligue, responde)
- Oi. Eu queria falar com Adriana.
- Ela não está.
- É o celular dela?
- Sim. Quem fala?
- Pedro.
- Quem?
- Pedro Paulo.
Agora é a vez de Vilma ficar surpresa com a ligação. É o namorado da filha, aquele que ela fica escondendo da família. Será que fez certo atender o celular? Sim, não dava para ficar agüentando ele tocar e o cachorro latir em resposta.
- O famoso Pedro Paulo!
- Famoso?
- Ela não pára de falar em você (a mãe mente).
- Espero que ela tenha falado bem.
- Muito bem. Tão bem que queremos conhecer você. Venha aqui em casa.
- Vou combinar com a Adriana.
- Deixe ela pra lá. Você é meu convidado. Venha no sábado para um churrasco e um banho de piscina. Uma piscininha, não repare.
- Tá bom, eu falo com ela.
Vilma aproveita a ligação para fazer o interrogatório costumeiro das mães.
- Você é de onde?
Ele revela que é de Santos.
- Vai e volta todo dia?
- Não, tenho apartamento no Tatuapé, com um amigo de Santos. Vou lá só fim de semana ver a família.
- Adriana já foi com você?
- Já (Mente. Como explicar que ela nunca foi?)
- Seus pais são de Santos mesmo?
- Sim, nascidos e criados.
- O que eles fazem lá?
- Papai trabalha como fiscal no Porto, mamãe tem uma creche. Meu irmão é advogado, trabalha com importação, exportação.
- E você, o que faz?
Ele sabia que ela chegaria nessa pergunta. Já está preparado para respondê-la, melhorando sua ficha com a família de Adriana.
- Sou dono de uma empresa de comércio exterior. Tenho escritório na Paulista ....
- Que bom, responde a mãe animada.
- Adriana está bem?
- Sim. Só meio sonolenta, ainda não se recuperou da viagem.
- A senhora sabe onde ela está?
- Ela foi para Alphaville, numa reunião da empresa.
- E não levou o celular ....
- É, saiu correndo, atrasada. Falei para ela ir devagar. Melhor chegar atrasada do que bater o carro.
- Ela foi dirigindo?
- É, não quis ir com a chefe, a Ruth. Você conhece?
- Sim (Mente novamente. Como explicar?)
Emudece. Realmente não conhece a Adriana. Ela tem até automóvel. Nunca falou sobre isso.
- Alô? Pedro Paulo?
- Sim, desculpe. A senhora sabe se ela vai ficar lá o dia todo?
- Senhora não. Pode me chamar de Vilma. Acho que não. Deve ir de tarde para o escritório dela.
- Na Saúde?
- É.
Pedro Paulo respira aliviado. Alguma coisa ele sabe sobre Adriana.
- A senhora, digo, Vilma, você tem o número de lá?
- Espere que vou buscar. É 5050-1000.
- Muito obrigado.
- Não tem de quê. Estou esperando você no sábado, viu? Vou avisá-la que convidei você.
- Tá bom, até sábado.
Ele desliga. Só então se dá conta que esqueceu de pedir o endereço da casa de Adriana. Todos seus problemas estariam resolvidos. Iria esperá-la na porta de casa. Teria coragem? Talvez não. De qualquer jeito, já tem o número do escritório. Pode ir lá procurá-la. E um convite para sábado. O nome da mãe. Será que Adriana estava escondendo algumas coisas dele? Ou como agora, ele é que não pergunta, não se interessa?
Liga para o escritório dela. "Manacá moveis, bom dia". Mais informação: nome da empresa. Pelo guia ele pode achar o endereço.
- Eu queria falar com a Adriana Pimenta, por favor.
- Não tem ninguém com esse nome. Posso ajudar?
- Quero falar com Adriana Pimenta. Foi a mãe dela que deu esse número.
- Olha, Adriana Pimenta não tem. Qual o setor dela?
- Vendas, projetos, algo assim. Ela atende clientes.
- Deve ser a Adriana de Paula. Ela não está.
- Tem outra Adriana?
- Não.
- A mãe disse que ela foi para Alphaville.
- É a "de Paula" mesmo. Só à tarde. Quer deixar recado?
- Vai ver que ela é Pimenta de Paula ou vice-versa.
- Talvez.
- Diga que Pedro Paulo ligou e pediu para ela retornar a ligação.
- De que empresa?
- Particular.
- Ela tem o número?
- Sim, do celular.
Pimenta de Paula. Ou Paula Pimenta. Ela também era "pepê" como ele. O destino juntou dois "pepês." Que fazer agora? Esperá-la ligar? Ir agora para a porta do escritório dela? E se ela não voltar? A secretária não deu certeza da volta. Ele olha o mar de papel sobre a mesa. Melhor ficar trabalhando e esperar ela ligar. Até quando? Hoje. Amanhã acampa na Saúde. O dia todo. Resolve de uma vez o problema.
Onde está sua querida Adriana? Dirigindo por aí? Querida e desconhecida. Amanhã tudo se resolverá. E sábado churrascão no Tucuruvi. Tem que desmarcar com o irmão. Adeus, Carla.
José FRID
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