O sol incide agressivo sobre seus olhos. Ele coloca os óculos escuros. Repara no limpíssimo céu azul. Vai ser um belo dia. Um belo dia de primavera. Uma bela quarta-feira. Dia bom para encontrar Adriana. Beijar Adriana. Namorar Adriana.
Dez e treze. Sete de novembro. Informações do relógio novo que usa pela primeira vez. Insistência de Adriana. Por ele não teria relógio, o celular bastava, pois marca hora e tem despertador e calendário. Mas não resistiu à insistência dela, naquele shopping ali. Disse que ele ficaria lindo com o relógio. Quem resiste a um elogio assim? Hoje está sendo útil, sem celular. Sorte a dele que a bateria ainda está funcionando.
(O celular dele toca. Uma, duas, várias vezes. Quem escuta não pode atender. Também não se preocupa, azar de quem o esqueceu ali.)
Ele vê sua imagem refletida nos vidros do hall do prédio. Está "by Adriana". Calça, camisa, óculos e relógio comprados com ela no shopping Tatuapé. É juntar a fome com a vontade de comer: não tem a menor paciência para escolher e comprar roupas, coisa que ela adora. E o shopping fica entre a casa dele e o Metrô. Difícil controlar a mulher. Compras é com ela mesma. O reflexo não mostra, mas a cueca e as meias também são sugestões dela. O cinto e os sapatos não: nunca se entenderam sobre o assunto, ele gosta de mocassim preto e acabou. Sem mais nada. E um cinto com fivela discreta, pequena. Ponto.
Ela, como toda mulher, super valoriza os sapatos. Ou melhor, sapatos, sapatilhas, sandálias, escarpins, botas, mocassins. São todas umas Imelda Marcos em potencial, ou a Carrie atrás de um "Manolo Blahniks" do Tatuapé. Homem não tem disso não. Preto e pronto. O resto é coisa de bicha, frutinha. No máximo um marrom clássico.
Lembra de uma passagem do filme "Legalmente Loira", onde a menina descobre que o pretenso amante da sua cliente é gay: ele entende de sapatos! Realmente, só mulheres e gays conseguem distinguir um sapato do outro, reconhecer uma marca, ver a diferença entre uma sandália e outra parecidíssima. Apesar dele gostar de ver Adriana com sandálias. Ou sapatos abertos.
A pracinha está cheia de mulheres com crianças. Delas próprias e de outras. Não importa. Olha-as discretamente, escondido pelos óculos escuros. Uma parte de seio aqui, uma coxa acolá, uma bela boca fazendo biquinho, outro seio à mostra, uma nuca ali perto, um cofrinho exposto ..... assim não vai achar seu celular. Concentre-se, homem! Mas como, com aquela morena se abaixando desprevenida para pegar o brinquedo do neném? E os cofrinhos alinhados no banco de concreto? E a mini-blusa que sobe, sobe, enquanto a mãe segura a criança no alto do escorrega? E as saias curtas reveladoras nos balanços e na gangorra? Celular, cadê meu celular?
Mais algumas olhadelas, no piso e nas mulheres (crianças não), e ele desiste. Do piso. Se o celular caiu ali já levaram. Ruma ao shopping, vai telefonar de um orelhão bem silencioso.
Caminho do Metrô. Passam as viúvas loiras. Charmosas, matadoras. A loira quando se arruma, com certeza veste roupa preta. Como aquela, de terninho preto, sapatos pretos, bolsa preta, camisa rosa. Ou a outra que se aproxima, vestido preto de alcinhas, casaquinho preto nas mãos. Mais uma, de saia e blusa pretos, camisa cinza. Salto fino alto. Pensando bem, as morenas também vão de preto. Preto é chique, dizem elas. Fácil de combinar com tudo.
Se ele fosse Vinícius ou o Tom, faria uma música, "Garota do Tatuapé", ou "Garota do Metrô". Melhor "Garota de São Paulo", "Garota Paulistana":
"Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça, é ela menina, que vem e que passa, num doce balanço, à caminho do Metrô. Moça elegante no seu pretinho básico, salto alto, o seu balançado é mais que um poema, é a coisa mais linda que eu vi passar ..."
Adriana de uniforme. Saia e paletó cinzas, camisa branca, sapatos e bolsa pretos, cabelos esticados e presos por um laçarote de veludo vinho. O brinco de pérola. É uma visão encantadora. Quando marcam um encontro, se ele chega cedo se esconde para vê-la caminhar. Ela pára e o procura. Rodopia. Delícia! Depois da promoção, será que vai continuar trabalhando de uniforme? Tomara!
O vestido azul marinho que ela usa em festas também é lindo. Ela é linda! O colar de pérolas! Deveria trocar o maldito anel por um colar de pérolas! Combinaria com o uniforme e com o vestido azul. Lembra que já tinha prometido o colar. Promessas .... Será por isso que ela sumiu?
- Manacá móveis, bom dia.
- Gostaria de falar com a senhora Adriana de Paula.
- Ela não está, posso ajudar?
- É que tenho de devolver um projeto que ela fez ...
- Estou passando para equipe dela.
- Vendas.
- Gostaria de falar com a senhora Adriana de Paula.
- Ela não está, posso ajudar?
- Acho que não, melhor com ela mesma. Que horas que ela vai chegar?
- Hoje ela não vem. Está no escritório central.
- Em Alphaville, não?
- Isso. Só amanhã. O senhor quer falar com a chefe dela?
- Não, melhor com ela mesma. Ela trabalha agora em Alphaville?
- Não. Está num curso, palestra, uma coisa assim.
- Esses cursos chatos de empresa.
- É, fazer o quê, não? No caso dela até que é bom ....
- Bom?
- Sim, ela foi promovida.
- Promovida?
- É, tá podendo.
- Ela não vai mais trabalhar aí?
- Não, continua aqui no escritório da Saúde. Quem vai sair é a Ruth, a chefe. O senhor conhece?
- De ouvir falar. Quando a Adriana foi promovida? Ela não me falou nada sobre isso.
- Soubemos ontem. Acho que ela também não sabia. Foi surpresa.
- Bela surpresa! Ela deve estar super contente.
- Com certeza. Ela ainda não voltou depois da promoção. Amanhã é que a gente vai saber de tudo.
- Deve ter festa, não?
- Pode ser. O que o senhor deseja com ela?
- Devolver um projeto que ela fez. Fiz uns comentários.
- Pode devolver para mim que eu encaminho para ela.
- Tá bom. Qual o endereço?
- Rua Dr. Isaias Salomão, 324.
- Anotei. Onde fica?
- Na Saúde. Perto da estação do Metrô. Uma travessa da Jabaquara, na altura da Ultrafarma, o senhor conhece?
- Não, mas acho. Vou mandar o boy de Metrô. Qual o andar e a sala?
- É uma casa.
- Só mais uma coisinha. A Ruth foi demitida? A Adriana vai pegar o lugar dela?
- A Ruth foi promovida também. Adriana vai para o lugar dela. Mas está tudo em paz.
- Então amanhã vai ter festa para as duas.
- Espero que sim.
- Muito obrigado. Você foi muito gentil.
- De nada. Agora compre seus móveis com a gente para ajudar a Adriana. Ela vai ter que bater as metas.
- Pode deixar. Por ela eu faço tudo!
- Assim que gosto de ouvir.
- Por falar nisso, você tem o endereço dela, para eu mandar um telegrama, umas flores ...
- Não posso dar. Mande as flores e o telegrama para aqui, amanhã.
- Você tem certeza que ela vai estar aí amanhã? Senão as flores murcham.
- Se ela não vier, ficam para mim.
- Você merece suas próprias flores. Qual é seu nome?
- Carminha. Ou melhor, Carmem.
- Qual flor é a sua preferida?
- Antúrios!
- Antúrios? Não estou ligando o nome à planta, mas o floricultor deve saber.
- Não precisa se preocupar.
- Você merece! Vou mandar para as três.
- Que três?
- Carmem, Ruth e Adriana!
- Que lindinho!Mas a Adriana não gosta de antúrios, prefere lírios. A Ruth gosta mais de rosas mesmo.
- Serão realizados os desejos das três donzelas!
- Donzelas?
- Não são donzelas?
- Bem, donzela donzela, acho que não são não.
- Sem problemas. Os desejos das três senhoritas serão realizados.
- Agora sim!
- Tem certeza que vocês três estarão amanhã aí?
- Certeza absoluta. A Ruth vai passar o serviço para a Adriana. E eu estou sempre aqui. Venha tomar um café.
- Quem sabe?
(O celular dele toca. Uma, duas, várias vezes. Quem escuta já está incomodado. Cada uma que se vê no mundo. Deixar o celular ali. Foi de propósito ou esquecimento. Deve ser de um daqueles dois rapazes. E toca, toca, toca. Avisar quem chegar primeiro. Quem é que pode se concentrar no Sudoku com um telefone que não pára de tocar?)
Desliga. A mulher conta tudo. Precisa avisar Adriana da indiscrição da secretária. Está contente com sua promoção. Ela estava se esforçando muito para isso. E ainda se livra da chefe. Só fala mal dela. Devem ser problemas de mulheres. Não se entendem. Vai ganhar mais, pode casar. Na hora certa do anel. Está tudo se ajustando. Anel e promoção. Só falta falar com ela. Já tem o endereço e o telefone do escritório, mas Adriana não vai estar lá hoje. Que adiantaria ir para a Saúde agora? Melhor ir trabalhar, deixar a visita para amanhã. Quem sabe ainda fala com ela hoje. O celular! Hoje é que não vai falar, pois ela não tem como ligar para ele. Mas ele pode ligar para ela. Do orelhão, do escritório. Quem sabe ela atende agora o celular?
Ao trabalho. Como falou Goethe, "uma vida ociosa é uma morte antecipada". O alemão sabia das coisas. "Mente desocupada, moradia do diabo". De quem será? Deve estar na Bíblia, coisa assim. Mas um descanso é sempre bom. Semana que vem tem feriado na sexta. Emenda de feriado na segunda e mais feriado na terça. Ô vidão! Ficou de viajar com Adriana. Cadê ela? Precisam combinar para onde vão. Será que a promoção atrapalhará a viagem. Chefe tem que dar o exemplo? Ou chefe é que faz o horário? Nada disso importa neste momento. Ao trabalho!
Ao Metrô! Será que ela vai continuar andando de Metrô? Ou irá trabalhar no seu carro? Que automóvel seria o dela? Não imagina que marca ela prefere, a cor. O modelo. E que coube no seu bolso. Não, o bolso não dá a pista, pode ser presente do pai, da família. Se ela fosse uma "Pimenta" o carro seria mais esportivo, colorido. Agora, como "de Paula", um mais sisudo, cinza, prata ou preto. Mas se ela for "Pimenta de Paula" ou "de Paula Pimenta", com certeza um carro sério mais na cor vinho ou vermelho escuro, quem sabe um verde musgo. Conjecturas.
A estação Tatuapé tem um quê da Barra Funda, onde ele a perdeu no domingo, Parecem uns grandes galpões. Ali também param o Metrô e o trem, além de terminais de ônibus dos dois lados. Shopping de ambos os lados. E gente demais.
Se o encontro fosse ali, marcariam sob o painel de azulejos representando uma plantação de café, um sol, campos, operários. O trabalhador da lavoura é corado, a tem mulher unhas pintadas. Como as delas. Só que agora ela é capataz. Não haveria desencontro. O sol do painel brilharia para os dois. Amor, sol, amor. Arariam juntos o amor. Arariam? Certamente Adriana odiaria essa frase ....
Pega o Metrô tranqüilo. O vagão tranqüilo, pois.a essa hora só vagal está indo trabalhar, como gosta de frisar o amigo. Ele tranqüilo porque amanhã reverá sua pimentinha. Levará flores para a Saúde. Sábado conhecerá toda a família. Os Pimentas, os Pimentões. Quer dizer, os de Paula. Adriana de Paula. Eternamente enamorados
José FRID
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