Ao término da sessão de "Feliz natal" - e ainda provavelmente engasgado com a pipoca que as cenas dolorosas e densas criadas pela fotografia crua de Lula Carvalho - duas impressões ficam martelando. A primeira é a de que Selton Mello, mais conhecido por seu trabalho como ator e fazendo sua estréia como autor de longas-metragens foi um ótimo observador dos diretores com quem trabalhou, em especial Luiz Fernando Carvalho, com quem realizou "Lavoura arcaica" - não é coincidência que o ator Leonardo Medeiros atue nas duas produções. A segunda impressão, mais duradoura e menos afeita a questões técnicas, é a de que, por mais complicadas, idiossincráticas e cruéis que possam ser, as famílias sempre terão grandes possibilidades de ser mais felizes do que a retratada no filme.
Ao situar sua história nas festas natalinas - em que as emoções normalmente estão à flor-da-pele e em tese as pessoas estão mais abertas a conversas sérias, perdões e afins - Mello aproveita para dissecar as engrenagens de uma família marcada por uma tragédia e que caminha perigosamente no fio da navalha entre a aparência de normalidade e seus próprios fantasmas. O roteiro, escrito por Mello e Marcelo Vindicato, usa e abusa do não dito, do reprimido, do silêncio cortante dos ressentimentos há muito arraigados e encontra em seu surpreendente elenco um eco perfeito - em especial Darlene Glória, voltando às telas de cinema e roubando cada cena em que aparece, como uma mãe alcóolatra e infeliz. A família de "Feliz natal" não é uma família feliz de comercial de margarina - apesar de tudo a relação de Caio, o protagonista, com seus amigos cuja vida se resume a beber e frequentar bares de quinta categoria evoca muito mais uma relação familiar saudável do que as refeições quase frias entre seu irmão e a cunhada - vividos pelo sumido Paulo Guarnieri e uma ótima Graziella Moretto mostrando que é uma atriz com muito mais alcance dramático do que o vislumbrado até hoje.
Por trás das câmeras de "Feliz natal", Selton Mello prova que não é apenas um ator cansado da carreira de ator buscando novos desafios e sim alguém com algo pra contar. Mesmo que na forma de um trabalho marcante e denso como um trauma de infância.
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