Os livros vivos de Bournemouth
A notícia do "Guardian" podia tanto estar na seção de literatura - como está - quanto na editoria que mais cresce em nossos tempos internéticos, a de esquisitices. Uma biblioteca pública de Bournemouth, cidade turística no sul da Inglaterra, está em campanha (em inglês, acesso gratuito) para que seus freqüentadores peguem emprestados "livros vivos", isto é, pessoas com quem podem conversar. Entre as atrações atuais estão uma jovem muçulmana, uma mulher cega e uma pregadora batista, todas voluntárias. Com objetivos restritos à troca de idéias (ler na banheira ou fazer anotações nas margens, nem pensar), elas podem ficar à disposição do "leitor" por até uma hora.
Trata-se da apoteose daquela velha crença popular: "Minha vida daria um livro". Na quase totalidade das vezes, não daria nem um conto, quando muito um haicai. Por outro lado, chamar os conversadores de Bournemouth de "livros vivos" é obviamente usar uma metáfora - ainda que a metáfora seja bastante esticada pelo fato de tudo se passar numa biblioteca. Bater papo não é o mesmo que ler, mas bater papo, especialmente com pessoas imersas em culturas e experiências diferentes das nossas, é muito bom, pois não? Nada errado com a idéia.
Descubro também que a novidade não é nova: a reportagem diz que o "conceito" foi importado da Dinamarca, onde teria surgido há oito anos, e vem sendo testado em diversos países. Mas é possível - acrescento por minha própria conta - que as raízes sejam mais vetustas: a história me lembrou uma frase famosa de Woodrow Wilson (1856-1924), intelectual respeitado e 28.º presidente dos Estados Unidos:
Eu jamais leria um livro se pudesse conversar por meia hora com a pessoa que o escreveu.
O que pode, quem sabe, funcionar para diversos gêneros de não-ficção, mas é um evidente crime de lesa-arte quando se trata de literatura propriamente dita, isto é, ficção e poesia. Nesses discursos, a "comunicação de idéias" é no máximo um objetivo secundário. E quando consideramos a personalidade de grande parte dos escritores, fica difícil resistir à tentação de reescrever a frase de Wilson com tintas mais realistas:
Eu jamais teria estômago para ler um livro depois de conversar por meia hora com a pessoa que o escreveu.
Sergio Rodrigues no Blog Todoprosa
Comentário: Agora, quando você for bater papo com os amigos(as) no bar ou restaurante, diga que está indo à biblioteca!!
José FRID
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