quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Loteria ferroviária


Leia e veja o filme ou veja o filme e leia!

- Quer entrar no bolão?
- Não, obrigado.
- Olha que você vai ficar sozinho na empresa. São cinqüenta milhões!
Pedro Paulo dá de ombros e volta sua atenção para o trabalho. Cláudio insiste:
- Está sabendo que todos vão entrar no bolão? Do diretor ao porteiro?
- Pode ser. Tudo bem. Eu fecho as portas e apago a luz. Ou sou promovido, já que todos vão largar a empresa..
- Deixe de bobagem e passe logo o cincão para mim ....
- Não jogo.
- Religião?
- Não. É que já gastei toda a minha sorte.
- Jogou muito e perdeu?
- Ganhei.
- Você já ganhou na loteria?
- Não, mas valeu mais que a Mega-Sena.
- Você mas não parece que tenha ganho alguma coisa na vida.
- Por que você diz isso?
- Está na cara. Você aí, sentado nessa mesinha, de frente para a parede, mexendo nestes papéis velhos, um empreguinho de bosta ....
- Igual ao seu ....
- Por isso estou fazendo o bolão, para fugir disso tudo ...
- Para mim está bom.
- Bom? São cinqüenta milhões!
- Eu como, bebo, falo, ando ...
- Porra, isso é o de menos. Queria ficar jogado na cama, em coma?
- Quem sabe .... pode acontecer com qualquer um ... até com você.
- Vira a boca para lá, seu bosta. Não azara não. Se não quer ganhar dinheiro, fala logo, mas não fica rogando praga.
Cláudio vira-se e berra:
- Júnior, o Pedro Paulo está fora do bolão.
- Por que, está sem dinheiro?
- Não, disse que já ganhou!
- Ele? O cara que mora longe e vem trabalhar de trem?


A turma da sala, que tinha sido atraída para a conversa em função da voz alterada de Cláudio, caiu na gargalhada. Começaram a fazer gracinhas com a sorte de Pedro Paulo, o milionário que mora lá longe e anda de trem.


Ele, a princípio, ignorou os comentários e continuou seu monótono trabalho de conferir notas fiscais e lançamentos contábeis. Não podia se atrasar, senão perderia o trem de volta e, com isso, as primeiras aulas do curso noturno. Pelo som, percebeu que a galhofa já se espalhara para as outras salas do andar, conforme Cláudio cobrava as apostas no bolão. Breve toda a empresa ia ficar sabendo da sua sorte.


Serviço adiantado, levantou para ir ao banheiro, sendo alvo de sorrisos irônicos à medida que passava pelas mesas. Fez o que precisava, abriu a torneira para lavar as mãos. Olhou-se no espelho e viu o rosto de um sobrevivente. Como um daqueles que conseguira escapar de um campo de concentração nazista. O que mais restava querer da vida, senão a própria vida? Ser, existir. Respirar, andar. Só quem escapa da morte sabe o valor que a vida tem.


Ao voltar para sua mesa, encontrou sobre ela vários bilhetes dobrados, com seu nome por cima. Abriu um deles: "Caro amigo. Estou precisando trocar o carro. Dá para emprestar cinqüenta mil? Pagarei logo que possível". Ele sorriu e abriu outro: "Colega. Não tive a sorte de ganhar na loteria. Você pode adiantar um dinheiro para eu viajar no fim de semana para Paris? Na segunda eu pago com o prêmio da Mega-Sena". "O trem é seu? Ou é mera pão-duragem de milionário?"


Cláudio se aproxima sorrindo e carregando mais bilhetes. Joga-os na mesa de Pedro Paulo e fala:


- O pessoal não pode ver um milionário que já vai pedindo dinheiro emprestado. É bom para me preparar para quando ganhar no domingo. Vou sumir!
- Eu não ganhei dinheiro, ganhei vida.
- Vida a gente ganha quando nasce ...
- Escapei de um acidente ...
- Eu também! Lembra quando o elevador despencou? Eu estava dentro!
- É diferente. Tem freios no elevador.
- O que acontece com a gente é sempre mais importante ....
- Não é isso, eu senti o frio da morte. Foi por milímetros.
- Eu também, o frio da morte no elevador.


Pedro Paulo descalça o sapato e a meia do pé direito. "Olha aqui a marca da foice da morte", diz mostrando uma cicatriz horrível no tornozelo, indo até o calcanhar.


- Que foi isso?
- Um trem quase me pegou. Ou melhor dizendo, me pegou e soltou.
- Como foi? Gente, vem escutar a história do cara.


Pedro Paulo se levantou da cadeira e colocou o pé em cima da mesa. Todos olharam com atenção. Alguns tamparam o nariz, evitando um provável chulé vespertino. Um ousou tocar na ferida e perguntou se doía.


- Agora não. Na hora agá também não, deu até para sair correndo. Mas depois, quando o corpo esfriou, doeu muito! Tive vontade de amputar o pé.
- Mas como aconteceu?
- Eu estava atrasado, tinha prova, a cancela fechou, luzes piscando, sirene. Estava preocupado com a prova, pensando na matéria que ia cair. Parei porque todos pararam. De repente, um cara de terno passou pela cancela e foi atravessando. Quando vi, eu estava atravessando também ...
- O trem pegou o cara?
- Ele passou bem, seguiu em frente para o outro lado. Fui na água dele e de repente o trem apareceu, cresceu, cresceu e me pegou!
- Estais brincando! Um trem pega o cara e joga longe, não deixa uma cicatrizinha dessas! Mata e esfola!
- Aí é que está a loteria, a sorte. Tinha tudo para morrer e escapei!
- Como?
- O trem pegou na pontinha do meu tênis, bem no finalzinho do calcanhar. Mas bem de leve, só arrancou o tênis. Nem cheguei a cair.
- Trem bater de levezinho? Estava parando?
- Não, correndo muito. É que pegou na ponta. Raspou a borracha.
- Tirou o tênis?
- Arrancou o tênis do pé! Fiquei só de meia. A cicatriz é da queimadura que o tênis fez ao ser arrancado violentamente.
- Bobagem. Você estava é longe do trem. O tênis caiu porque estava frouxo.
- Nada disso, escapei por pouco. Muito pouco. O tênis está lá em casa, na estante, mandei metalizar como fazem com sapatinho de bebê. É para nunca esquecer do que poderia ter acontecido.
- Como você sabe disso tudo? Olhou para trás e mediu?
- Não. Dias depois fui com a polícia ver a fita da câmera de segurança. Desmaiei.
- Viadagem ....
- É que não foi com você. Veja o filme e depois diga se não tenho razão. Está no YouTube.
- E depois?
- Fui pulando num pé só até a escola, o professor encrencou com a meia, mas os colegas contaram do acidente, ele deixou passar. Depois, quando o corpo esfriou, quando eu percebi o que tinha acontecido, o que poderia ter acontecido, tiveram que me levar para o hospital. Tremia, suava frio, o pé doía loucamente. Fiquei internado uns dias, com sedativos, sem poder andar até cicatrizar.
- Está tudo muito bom, mas o que tem haver o acidente com a loteria?
- Depois que vi o filme, percebi que tinha renascido, escapado da morte certa. Ou seja, gastei toda a sorte ali, naqueles milímetros do trem. Negociei com a morte. Tal como aqueles que seriam incinerados no dia que os americanos ou russos chegaram nos campos de concentração nazistas. O que mais querer da vida? Já ganhei minha cota. Apostar é jogar dinheiro fora. Será que alguém ganha duas vezes na loteria sem ser político?


José FRID


Nenhum comentário: