sexta-feira, 23 de abril de 2010

Tiradentes, herói do Brasil? Não do nosso Grande Brasil!!!



Quarta passada, dia 21 de abril, foi feriado em todo o Brasil: dia de Tiradentes, o mártir da Inconfidência Mineira, herói do Brasil. Será?




Acredito que não, pelo menos do Brasil que conhecemos e temos orgulho. O maior país da América do Sul e um dos maiores do mundo (quarto ou quinto, conforme o critério). O país que vai do Oiapoque ao Chuí, da Ponta do Seixas às nascentes do rio Moa, com mais ou menos oito mil quilômetros de litoral e área de oito milhões e meio de quilômetros quadrados. Com a floresta amazônica e seus grandes rios, a ilha de Marajó, Carajás, o Pantanal, os Pampas gaúchos, as serras mineiras, os Lençóis Maranhenses, a Bahia e suas magias, as praias cariocas, Brasília, Foz de Iguaçu, o petróleo da Bacia de Campos, as riquezas paulistas, Fernando de Noronha, o rio São Francisco, etc. e tal (complete com as paisagens e riquezas naturais e artificiais que mais lhe dão orgulho de ser brasileiro/a). E por que não falar dos quase duzentos milhões de brasileiros, com sua miscigenação e diversidade racial, culturas regionais, festas, músicas e comidas típicas, falando apenas uma língua, respeitados os sotaques regionais.



Esse Brasil não existiria se Tiradentes e seus companheiros tivessem obtido êxito com a dita "Inconfidência Mineira". O atual território brasileiro estaria dividido em diversos pequenos países, assim como aconteceu com a América Espanhola.



Naqueles tempos, 1789, a comunicação por terra entre as diversas regiões brasileiras era muito precária. A maioria das cidades situava-se no litoral. As cidades interioranas eram muito pequenas e sem expressão regional. A exceção era exatamente Vila Rica, hoje Ouro Preto, e São João Del-Rei, por causa da exploração do ouro. A capital do Brasil tinha sido transferida de Salvador para o Rio de Janeiro, permitindo maior controle da riqueza por parte da Coroa.



Cada região brasileira cuidava de seus próprios interesses, relacionando-se mais com Portugal do que com as outras localidades. A distância entre Belém e o Rio Grande, pelo mar, era de mais de cinco mil quilômetros, comparados com os mil e quinhentos quilômetros da costa das treze colônias que formaram o núcleo inicial dos Estados Unidos, cuja independência inspirou os inconfidentes.



A elite brasileira era formada principalmente por portugueses, que mandavam seus filhos estudar em Portugal. Cultura brasileira? Esqueça! Não tínhamos universidade, imprensa livre, editoras de livros, etc. A maioria do povo nem sabia ler e escrever.



Os próprios inconfidentes tinham noção das dificuldades territoriais da colônia brasileira. Eles só visavam a independência da Província das Minas Gerais, que se transformaria em república com capital em São João Del-Rei. Vila Rica seria sede de uma universidade, aos moldes de Coimbra.



Caso os inconfidentes conseguissem a independência, inspirariam tentativas de independência de outros territórios brasileiros, como a independência do México e da Argentina estimulou a dos demais países. Assim, poderiam surgir repúblicas no Rio Grande, São Paulo Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Maranhão, Pará, as províncias mais desenvolvidas da época. Nossos estados interiores, provavelmente, formariam outros países com os atuais Bolívia, Paraguai, Argentina, Colômbia e Peru. Fim do nosso imenso Brasil!



O culto a Tiradentes não surgiu pelo brasileiro, mas foi fabricado pelos ideólogos positivistas, integrantes da elite que influenciou a proclamação da República, ocorrida exatos cem anos depois da Inconfidência Mineira. A nova república precisava de heróis que pudessem catalisar o sentimento do povo em prol da nova forma de governo. Não serviam heróis padres, nobres ou militares, todos ligados ao regime monárquico. Tinha que ser alguém do povo.



Heróis, naqueles tempos, surgiam das guerras de conquista de territórios ou de independência. Nosso território foi conquistado pacificamente, através, por exemplo, das Entradas e Bandeiras. Alguns heróis surgiram na guerra contra os holandeses: portugueses, mestiços, negros e indígenas, mas não tinham biografias manipuláveis. A independência foi de pai para filho, sem heroísmo.



Tiradentes foi inventado como a personificação da identidade republicana do Brasil, manipulando-se sua biografia e figurando-o como Jesus Cristo, de camisolão, barba e cabelos longos. Nada mais irreal: como militar, o máximo que Tiradentes poderia usar seria cabelos aparados e um discreto bigode. Depois de preso – por longos três anos, ele teria sido obrigado a manter raspados barba e cabelo a fim de evitar piolhos. Hoje nossos presidiários usam cabelos e barbas muito curtos, quiçá raspados; imagine nas cadeias insalubres de meados de 1790.



"Mestiço, pobre, falastrão, com o perfil adequado a bode expiatório, Tiradentes foi o único dos inconfidentes condenado e executado. Já os principais mentores da Inconfidência Mineira, membros das castas mais altas da época, acabaram morrendo na prisão ou exilados na África. Como o levante fracassou, Tiradentes virou líder e mártir. Caso tivesse dado certo, ele provavelmente não ficaria com as principais benesses do novo regime, conforme comentou Machado de Assis em crônica publicada na comemoração dos cem anos da tentativa de insurreição." Ou seja, nosso pretenso herói foi um "laranja" das elites.



Então, quem poderia ser eleito o herói do Brasil por fazê-lo tal como dele nos orgulhamos hoje, gigante do Oiapoque ao Chuí, do Seixas ao Moa? Vários candidatos possíveis, mas todos nobres e/ou militares.




Para entender melhor, devemos lembrar primeiro da invasão da Espanha pelas tropas de Napoleão. Ele fez o rei espanhol renunciar em favor de José Bonaparte, seu irmão. A maioria dos povos da América Espanhola não aceitou o novo rei, provocando o início da independência das diversas regiões a partir de 1810 (Argentina e México), com término em 1825 (Bolívia). Depois ocorreram guerras entre os novos países para definição das suas fronteiras atuais.



No caso de Portugal, as tropas de Napoleão provocaram a vinda de Dom João VI e sua Corte para o Brasil, que se tornou sede do Reino Unido, evitando a fragmentação do território brasileiro. Depois, a declaração da independência do Brasil por Dom Pedro I veio a satisfazer os anseios dos brasileiros pensantes, que queriam ter o mesmo status político dos demais países latino-americanos e dos Estados Unidos. Ele fez a independência do Brasil para evitar que outros a fizessem, ficando tudo nas mãos da mesma família.



Você sabia? A independência proclamada por Pedro I não incluía todo o país que conhecemos. O Brasil estava dividido em três estados pela Coroa Portuguesa: o Estado do Brasil, abrigando as províncias do sul até o Ceará, o Estado do Maranhão e Piauí, e o Estado do Grão-Pará e Rio Negro, englobando toda a Amazônia. O Brasil independente teve que guerrear contra o Estado do Maranhão para forçá-lo a aderir ao Brasil, o que só ocorreu em 28 de julho de 1823, após o cerco de São Luis pelas tropas brasileiras. O Estado do Grão-Pará e Rio Negro decidiu em 15 de agosto fazer parte do nosso Brasil. Medo dos bombardeios?



Duque de Caxias foi um dos mais importantes brasileiros para a manutenção do Brasil como o conhecemos hoje, comandando a firme atuação do exército brasileiro contra várias revoltas regionais – revoltosos da Bahia, campanha Cisplatina, Balaiada, Guerra dos Farrapos, Sabinada, República Juliana, Revolução Liberal de São Paulo e de Minas Gerais, etc, bem como na Guerra do Paraguai, grande ameaça ao nosso território.



O Barão do Rio Branco conseguiu definir os contornos atuais do Brasil, resolvendo as questões do Amapá, Acre e de parte de Santa Catarina e Paraná.



Devemos esquecer a história de Tiradentes e seus mineiros sonegadores de impostos, mas manter o feriado, transferido para o dia 22 de abril, data do Descobrimento do Brasil, ou como querem os historiadores atuais, do Achamento do Brasil. E comemorar também o dia do Duque de Caxias, 25 de agosto, a data da coroação de Dom Pedro I como imperador do Brasil, 1 de dezembro (por final meu aniversário), o nascimento de Rio Branco, etc.









Obs: hoje o limite norte do Brasil é o rio Ailã, no Monte Caburaí, em Roraima. Entretanto, no meu tempo de bancos escolares o Brasil ia do Oiapoque ao Chuí, e assim permanecerá comigo!

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