segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Passando em frente...



Passando em frente
ao antigo, imponente
prédio:


o leão, velho, pára
e repara, atento,
naquele seu estranho parente.


Repara nas patas
bem postas,
pesadas, afiadas,


nos pelos, nos olhos,
em tudo que, granítico,
jamais apodrece.


O leão velho vê
a si mesmo
e inveja o irmão de pedra.


Pensa, por exemplo, que
não poderia guardar
entradas de edifícios


como faz o pétreo
leão de guarda,
impávido, perfeito.


Enquanto medita, moscas
fazem festa em volta de sua juba,
um tanto suja,


não há como negar, e
todo ele, desse jeito, mostra
uma ternura engraçada,


de palhaço,
de palhaço velho,
mais doce por isso.


O leão de pedra,
ao contrário, é,
depois de um século,


todo empáfia,
um rei
que não morresse,


que não morre,
que permanece, e
mais rei por isso.


O leão de pedra, imóvel,
guarda a entrada do templo,
enquanto o outro


procura por nós, igual
a nós, dentro
do tempo.


Eucanaã Ferraz in "Dessassombro", Editora Sette Letras, 2002

2 comentários:

Anônimo disse...

Olá, amigo!
Como vamos nos comportar quando passamos em frente de nós mesmo? ha,ha,ha,ha, as pelancas soltando e as rugas tapando os olhos, hehehehehehehe, e a vida de todos nós.
Feliz carnaval com moderação.
Aquele abraço.

M.

Metamorfose Ambulante disse...

Não tem problema, pois com as rugas tampando os olhos e a catarata não vamos conseguir ver muita coisa.

Deixa eu ir cuidar da minha fantasia de baiana!

FRID