domingo, 1 de maio de 2011

Os dois rabos ou o filósofo eclético



Conta a lenda que no populoso mercado de uma antiga cidade todas as manhãs passeava um filósofo eclético, célebre observador da natureza, de quem muitos se aproximavam para lhe expor as dúvidas e conflitos mais estranhos.


Certa vez em que um Cão dava voltas em torno de si mesmo mordendo o próprio rabo diante do riso das crianças que o rodeavam, vários mercadores preocupados perguntaram ao filósofo a que podia obedecer aquele movimento, e se não seria algum presságio funesto.


O filósofo lhes explicou que ao morder-se o rabo o Cão procurava apenas livrar-se das Pulgas.


Com isso a curiosidade geral ficou satisfeita e as pessoas se retiraram tranqüilas.


Em outra ocasião, um domador de Serpentes exibia várias numa cesta, entre as quais uma que mordia o rabo, o que provocava a seriedade das crianças e o riso dos adultos.


Quando as crianças perguntaram ao filósofo a que se devia aquilo, ele lhes respondeu que a Serpente que morde o próprio rabo representa o Infinito e o Eterno retorno de pessoas, fatos e coisas, e que isso querem dizer as Serpentes quando mordem o rabo.


Também nessa ocasião as pessoas se retiraram satisfeitas e igualmente tranqüilas.

Augusto Monterroso in " A Ovelha Negra e outras fábulas", tradução de Millôr Fernandes, Editora Record, 1983

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