Sexta-feira, hora do almoço, de dar uma pausa no dia, comer bem e calmamente, preparar-se para o fim de semana, que promete ser agitado. Ela olha para a pilha de serviço em cima da mesa e desanima. Tudo urgente, tudo para ontem de manhã. Os clientes cobrando por telefone, e-mails, facebook e twitter. Quem inventou essas modernidades não tem mãe nem namorado. A desejada truta grelhada ao molho de amêndoas vai ter que esperar, melhor enfrentar o quilo certo de cada dia, que é rápido e barato.
A fila está grande, mas os clientes já conhecem o cardápio da casa e vão enchendo seus pratos de forma quase automática, só pelo visual. Se fossem interpretar todos os garranchos das plaquinhas ao lado dos pratos levariam horas para escolherem suas refeições. Ela, que está meio de regime como toda mulher bonita, dá uma vista aérea sobre as caçambas e já vai compondo mentalmente seu prato: alface crespa, rúcula, agrião, tomatinhos, ervilha, kani, cenourinhas, cebolinhas, uma colher de arroz integral, melhor duas e ... um pouco daquele estrogonofe, pois ninguém é de ferro.
Sua vez. As folhas vão ocupando meio prato, os legumes vão por cima, o arroz num canto, o estrogonofe no outro. Seu molho é grosso e marrom-avermelhado, seria um ragú? Cheira bem. Ela esparge-o sobre todo o prato. Desvia o olhar das diabólicas sobremesas. Trezentos e oitenta e cinco gramas, dieta mantida.
Senta e olha o relógio, demorou mais do que esperava. Vai ter que comer rápido. Começa com uma pequena garfada no arroz com molho. Gosto bom. Chega o suco de laranja. Segue agora um pouco da carne do estrogonofe. Macia, será filé mignon? A consistência é um pouco, um pouco, sei lá. Engole.
Vai dar outra garfada, mas sente que aquilo ainda não desceu e está querendo voltar. Engulhos. Toma alguns goles do suco, bate no peito, a coisa desce. Ela olha para o prato, que carne seria aquela? O formato é diferente, parece ..., não se parece com nada que conheça. Um aspecto pútrido. Que carne é essa que eu comi????????? A garçonete diz que não sabe, é novidade, ainda não almoçou, irá perguntar para a cozinheira. Nossa heroína olha o relógio: come logo ou espera a resposta? Olha desconsolada o prato: tem molho daquilo por cima de tudo. A moça volta com uma expressão um pouco envergonhada e diz: "Moela de galo". Sente vertigem, engulhos, vômito subindo, ela desesperada vira todo o suco, tentando afogar a, argh, moela de, argh, galo.
- Moela de galo?
- Prato português.
- Já comeu?
- Nem vou. Eu lá sou de comer moela daquele bicho?
Ela olha o prato cheio, olha o relógio. Que fazer? Melhor ir embora antes que o galo resolva cantar. Pega a bolsa e levanta-se. A garçonete pergunta:
- Não vai comer?
- Perdi o apetite.
No caixa paga, a contragosto, o suco e as trezentos e oitenta e cinco gramas, dinheiro jogado fora. Cobra explicações da dona, onde já se viu servir moela de galo sem avisar?
- Tá escrito na plaquinha.
- Quem consegue ler?
- É um prato fino, receita nova da Sadia!
- Uma sadia porcaria!
- O pessoal está gostando.
- Não venho mais neste galinheiro!
Tarde de sexta. Pilhas de serviço na mesa, telefonemas, e-mails, facebook, twitter e uma fome, fome negra. Hoje o namorado vai ter que morrer na truta grelhada à beira do lago, senão vai ficar na mão ...
(Esse fato verídico lembrou-me uma situação similar ocorrida comigo, que conto agora)
Nos tempos de faculdade, a primeira, eu e meus colegas almoçávamos no bandejão da escola, farto, rápido e barato, tudo que era importante para nós na época. A gente lotava as bandejas sem especular muito sobre o que comia, o importante era encher o bucho e correr para os estágios. Em geral a refeição era comível, uma vez ou outra o cozinheiro queimava o feijão, o arroz estava duro, o molho do macarrão intragável, a carne dura ou mole demais, etc, mas sobrevivíamos, pois o universitário antes de tudo é um forte!
O cardápio se repetia toda a semana, salvo um desabastecimento eventual, suprido por salvadoras salsichas ou ovos fritos (em outras épocas, em outros restaurantes coletivos, até presunto à milanesa salvou a pátria). Não lembro que dia da semana havia uma carne fina, bem macia, cozida com molho, servida com purê de batatas, que era a alegria da moçada. Num desses dias, eu estava almoçando com um grande amigo quando, após comer um bom pedaço da carne, ele expressou sua satisfação:
- Esta língua está uma delícia!
- Que língua?
- Essa no seu prato?
- Esta?
- É claro, tem outra? O mestre cuca acertou a mão no molho madeira, só faltou o champignon.
Olhei para meu prato. Língua? Pelo tamanho deveria ser de boi. Língua de boi, aquela meio caída, para fora da boca que baba? Engulhos, golfadas, abandonei o prato e corri para o banheiro. Recomposto, voltei. O amigo perguntou se eu não ia comer. Ofereci a língua para ele, a do boi, naturalmente.
Conclusão: uma vez por semana eu corria direto para o estágio, sem almoçar, evitando a (argh) língua do boi da cara preta! Deglutia um cachorro-quente na carrocinha da esquina, torcendo para que nenhum mui amigo me explicasse como era feita a salsicha!!
E qual foi a sua surpresa gastronômica?
José FRID
Atualizando em 2015: hoje, além das cobranças por telefone, e-mails, facebook e twitter, ainda temos o What'sApp, um inferno!
Atualizando em 2015: hoje, além das cobranças por telefone, e-mails, facebook e twitter, ainda temos o What'sApp, um inferno!
6 comentários:
moela de galo?! uí...nem eu comia :)
Eu chamo isso de culinária de guerra!! Come-se tudo de tudo e limpa-se os dentes com as penas!
KKKKKKKKKKKKKKKKK eu ri!
Ficou show! adorei! só que não tinha placa nenhuma descrevendo as comidas! rsrsrs
lingua de boi??? e vc nunca tinha percebido?????? ecouuuu!
Fê
A citação dos garranchos das plaquinhas é licença literária. Quanto à língua: a fome era grande, a carne macia, para que saber o nome da parte do bicho??
FRID
Engraçadinho o txt.
Quanto à minha surpresa gastronômica, não me lembro de nenhuma, a não ser a de uma
vez, um rapaz que estava com pra lá das 5as... intenções, levou-me num restaurante caríssimo, lembro-me. Das carnes exóticas, pediu polvo, pois eu disse q não
havia comido até então.
Pois é. Antes tivesse deixado que "a primeira vez" para um outro local ou dia. É q na cozinha não acharam o pt ideal do polvo. Já o comeu no pt errado/ Nem queira. É horrível. E assim foi.
Aliás, na infÂncia, certamente, devo ter comido algo tenebroso, só q minha boa memória se recusou a ocupar espaço precioso da "minha ram" (ou é rom?) e deletou.
Abç e tenha inspirado fim de semana.
Z...
Digo-lhe que nunca tive coragem de comer polvo!!! Birra pura, pois adoro
lula! (o molusco, deixemos bem claro)
Grande abraço
Frid
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