quarta-feira, 1 de junho de 2011

Aquela vida que deixarei escorrer ...

Apoiarei minha cabeça na sua coxa esquerda. Com as mãos em concha, imitando o gesto de quem colhe água, colherei o sexo deste rapaz que, hoje à noite, me convidou a dividir sua cama. Devo pousar os lábios num roçado leve, que deverá ser o mais leve. Mais ainda que o roçado conseguido por um inseto de asas transparentes, porque é tudo muito frágil: sua membrana e meus lábios. Farei com carinho. Espontaneamente. Ele nada precisará me sugerir. Minha gratificação será vê-lo fechar os olhos, apertadamente, antes de submergir, se escondendo de mim para tentar, em vão, transformar em eterno um momento tão perecível. Momento escuro, vulnerável e tão mais forte do que a própria vida, vida, vida, positivamente vida, como aquela vida que deixarei escorrer de minha boca, depois.


Joyce Cavalccante in "O Discurso da Mulher Absurda", Editora Maltese, 1994

Nenhum comentário: