sexta-feira, 3 de junho de 2011

N O S S A C O N V E R S A




Por ser só nossa,
Poucos sons,
Sem nada dizer,
Falam um tudo;

Olhos se olhando,
Olhos que se entendem,
Desejando sem falar,
Nossos olhos dizem.

Aproximando-me do seu ouvido,
Respirando seu calor,
Sinto na  boca,
O arrepiar da sua pele;

Desenho sua orelha,
De leve,
Com a ponta da língua,
Onde antes respirei.

Você se afasta  pouco,
Eu escorrego pouco e devagar,
Minha boca ainda fechada,
No seu pescoço até a nuca.

Um som vazio,  de fuga,
É tudo o que você faz,
Por querer mais,
Como eu quero.

Olhos de novo,
Um no outro,
Além, muito além,
Já sem enxergar;

Os  olhos.

Nos misturando mais,
Nós os fechamos,
E, as bocas,
Nós as abrimos;

Pouco e prá nada falar.

Ainda de leve,
Contornamos essas bocas,
Com nossas bocas,
Uma sobrevoando a outra;

Gritando uma mensagem muda,
Só nossa,
Fugindo sem sair,
Indo para ficar;

Voltando mais,
Querendo mais,
Sua língua me procura,
A minha te encontra.

Deixamos o mundo,
Tudo cessando,
Fica só essa febre,
Essa fome e essa sede.

Só essa conversa nossa,
Que ninguém precisa,
Ninguém pode entender,
Por ser apenas tudo isso;

Só prá nós.
Marcelo Assumpção in "Retalhos de Vida"

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