quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Poesia Política - Plabo Neruda


Tudo é novo debaixo do sol, e entre todas as coisas, a poesia. Passam e voltam as estações, mas na primavera ou no inverno, cresce, floresce e se duplica esta rosa de todos os tempos.


Por isso os poetas cantamos tudo que existiu, que existe, e o que viverá amanhã. A terra e o homem têm perpétua profundidade e fecundidade para nós. Nunca rechaçaremos nada a não ser a cumplicidade com o mal, com o que dana os seres, com a opressão ou o veneno. É essa relação entre a terra, o tempo e o homem que necessita rega e fulgor, quer dizer, poesia, para resplandecer e frutificar, para que a felicidade universal seja nosso reino comum.


Por isso são inimigos da poesia quantos dela excluem a luta que é também noso pão de cada dia. Aqueles que nos põem uma fronteira, querem destruir todo o castelo. Aqueles que, politicamente, querem separar a poesia da política, querem nos amordaçar, querem apagar o canto, o eterno canto.


Eu quero que todos os poetas cantem a rosa vermelha e a rosa branca, os olhos azuis e os olhos negros, os dias de sol sobre a areia e as noites de sombra tempestuosa. Eu quero que todos cantem seus amores.


Se não o fizerem, estarão traindo seus próprios mandatos imperiosos. Há, porém, uma traição mais aterradora, e é a de que nosso canto não compartilhe, não recolha ou não guie os caminhos dos homens. A sociedade humana e seu destino é matéria sagrada para o cidadão, mas para o poeta é massa crescente, criação profunda, obrigação original. Não há poesia sem contato humano. No pão do amanhã devem ir as marcas das mãos do poeta.


Ai daqueles que não compreenderam senão o silêncio, quando a poesia é palavra, e daqueles que só compreenderam a sombra, quando a poesia é luz de cada dia e cada noite dos homens.


Por isso o caminho não vai para o interior dos seres, como uma rede de sonhos. O caminho da poesia vai para fora, pelas ruas e fábricas, escuta em todas as portas dos explorados, corre e adverte, sussurra e congrega, ameaça com a voz pesada de todo o futuro, está em todos os lugares das lutas humanas, em todos os combates, em todas as campanhas que anunciam o mundo que nasce, porque com força, com esperança, com ternura e com dureza faremos com que ele nasça.


Nós, os poetas?

Sim, nós, os povos!!

 
(1952)


Pablo Neruda in "Prólogos", Bertrand Brasil, tradução de Thiago de Mello, 2002

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