A América do Sul foi sempre terra de oleiros. Um continente de cântaros. Estes cântaros que cantam, feitos sempre pelo povo. Feitos com barro e com as suas mãos. Feitos com argila e com suas mãos. Feitos de pedra e com suas mãos. Feitos de prata e com suas mãos. Sempre quis que na poesia se vejam as mãos dos homens. Sempre desejei uma poesia com impressões digitais. Uma poesia de greda, para que nela cante a água. Uma poesia de pão, para que todo mundo a coma. Só a poesia dos povos sustenta esta memória manual. Enquanto os poetas se fecharam nos laboratórios, o povo seguiu cantando com seu barro, com sua terra, com seus rios, com seus minerais. Produziu flores prodigiosas, surpreendentes epopéias, amassou folhetins, relatou catástrofes. Celebrou os heróis, defendeu seus direitos, corou os santos, chorou os mortos.
E tudo feito apenas com as mãos. Estas mãos foram sempre toscas e sábias. Foram cegas, mas romperam as pedras. Foram pequenas, mas tiraram peixes do mar. Foram escuras, mas buscaram a luz. Por isso essa poesia tem esse sortilégio do que tem sido criado entre as coisas naturais. Essa poesia do povo tem o selo do que deve viver à intempérie, suportando a chuva, o sol, a neve, o vento. É poesia que deve passar de mão em mão. É poesia que deve se mover no ar como uma bandeira. É poesia que foi golpeada, que não tem a simetria grega dos rostos perfeitos. Tem cicatrizes em seu rosto alegre e amargo. Eu não dou um louro a esses poetas do povo. São eles que me presenteiam a força e a inocência que deve dar forma a toda poesia. São eles que me fazem tocar sua nobreza material, sua superfície de couro, de folhas verdes, de alegria.
São eles, os poetas populares, os obscuros poetas, os que me ensinam a luz.
(1966)
Pablo Neruda in "Prólogos", Bertrand Brasil, tradução de Thiago de Mello, 2002
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