domingo, 28 de agosto de 2011

Prólogos - Pablo Neruda


Livro curioso, composto exclusivamente por inúmeros prólogos escritos por Pablo Neruda para os seus livros e os livros de amigos ou de autores com afinidades ideológicas, cobrindo o período de 1924 até sua morte em 1973 (alguns foram publicados depois da sua morte, até 1999). Alguns dos prólogos são poemas, especialidade do escritor, que transcrevi no meu blog.


No livro não estão todos os prólogos escritos por Neruda, mas apenas aqueles selecionados por Arturo Infante Renasco, todos traduzidos por Thiago de Mello, poeta brasileiro asilado no Chile na época da nossa ditadura e grande amigo de Pablo Neruda.


Ficamos com vontade de ler muitos dos livro citados pelo Neruda, apesar de que "em muitos casos, os livros que têm o compromisso ou a generosidade de apresentar nos são desconhecidos, ou perderam com os anos a virtude da atualidade que tiveram no momento de ser publicados" como menciona Antonio Vilanova no prólogo do livro em comento.


Destaco, entre eles, "El Río", de Alfredo Gómez Morel, "El sol mira para atrás", de Delia Domínguez, "El mundo que tía Paty dejó", de Inés Valenzuela, "Extranos visitantes", de Alicia Enríquez (contos cruéis), "Piel del tiempo", de Enrique Huaco, "De repente" e "Carbón", de Diego Munoz, "Casas muertas y Oficina n.º1", de Miguel Otero Silva, "Las nubes e los anos", de Fernando González Urízar, e "Balada para la ciudad muerta", de Alfonso Alcalde,


Interessante o destaque que Neruda dá para as regiões natais dos poetas. Talvez ele considere que a natureza local influencie a lavra da poesia. Exemplos: "Dos bosques de Angol aos pedregosos rios de Boroa e Ranquilco, a terra e os homens estão unidos por uma forte textura de raízes e sombras, por uma rede imperial de altaneiros vegetais", " dos bosques, de uma chuva, mais outra, de todas as areias chegam os poetas deixando um rastro de platina queimado, uma pequena marca de sapatos perdidos na argila subterrânea", "tu, alfonso, das cidades marinhas trazes fumo e chuva em tuas mãos e sabes tecer o fio fresco e frio da profundidade matutina", mas a bruma, as praias e o oceano desencadeado do sul do Chile, que encontraram neste livro adolescente seu caminho para a intimidade de minha poesia", "desde lá se abre este livro, suas páginas estão feitas com aquelas areias, forte, largo e trepidante em seu mundo".


A influência da ideologia é forte também. No prólogo do livro "Morte ao invasor", de Ilya Ehrenburg, ele chega a dizer que "os que lerem este livro verão também, como já faz anos muitos homens já vimos, a União Soviética, numa alvorada de força e pureza" e que "a Divisão dos pães, feita na vasta extensão da URSS pelo grande Partido Comunista, único partido do Homem, é um milagre imperecível e terrenal, não aproveitado e destruído depois por uma casta maléfica de sacerdotes, mas estendido na profundidade e na distância dos seres até os limites da natureza". Nada como um dia após o outro para revelar as atrocidades do Stálin, a grande fome imposta aos russos, que causou a morte de milhões, etc. Por outro lado, ele denuncia, no prólogo do livro "A tragédia Dominicana", que "todos ou quase todos protegem realidades como a sinistra quadrilha nazi argentina, a servidão da Bolívia entregue a alguns audazes aventureiros facistas, e quando se fala de atacar as covas da tirania, tudo se converte em hipócrita sustentação de princípios que não contam nunca, tudo se torna papelada e escusas, e o rosto completo da liberdade americana continua atravesado por essas sinistras cicatrizes."


No livro existem prólogos contemporâneos da revolução cubana, que ele naturalmente incensa e a qual dedica seu livro "Canción de gesta", e da eleição de Allende, quando frisa que "Chile e Cuba trabalham com dificilmente, atacados por todos, para mudar os fatos desmentidos pela realidade...".


O prólogo do seu livro "Poesía Política" merece destaque especial (fiz transcrição integral no meu blog), pois mostra o compromisso do poeta com seu povo. Assino embaixo!

Um texto curioso é o comentário indignado de Neruda sobre um artigo publicado num jornal do Chile, em dezembro de 1972, parcialmente transcrito no livro, com viés direitista, no qual os comunistas são considerados tarados, frouxos, incapazes, fracassados, invejosos, etc. Neruda apresenta uma lista de notórios comunistas, inclusive ele, para refutar o autor do artigo. Está no meu blog também.


Pablo Neruda morreu em setembro de 1973, doze dias depois da derrubada de Allende por Pinochet. Dizem que morreu de tristeza, pela queda do governo de Allende. Pode ser verdade: poetas conseguem morrer de tristeza!


Em resumo, o livro foi uma leitura muito proveitosa!!


José FRID

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