Sabadão na praia. O pessoal da casa dorme pesado. Saio para dar a corridinha básica do sábado, uma horinha mais ou menos, o longão é no domingo. Depois da corrida, como bom marido e pai, passo na padaria para providenciar o café da manhã da turma sonolenta. A fila do pão está grande, mas não ligo, folheio o jornal analógico, o poderoso ar condicionado do supermercado seca minha camiseta. Após minutos, a moça na minha frente, que está sendo atendida, grita animada:
- Tem chipa!!! Quem bom!! Quero três!
Procuro nas cestas do balcão, mas não consigo associar algum pão ou doce ao nome chipa. Ignorância gastronômica total. A vendedora vem com um saquinho de papel e coloca três coisas esquisitas nele. Dois chifres engastados numa meia-lua. Pela cara, nada agradável, com ar farinhento. Seria doce ou salgada?
Quando a atendente está pesando as chipas, outra funcionária aparece com uma bandeja de pães de queijo recém-saídos do forno. O cheiro é inebriante e a moça:
- Quero cem gramas!!
- Desistiu das chipas?
- Não, vou levar as duas!
A atendente pesa o pão de queijo e entrega os dois sacos para a cliente, que sai degustando um pãozinho de queijo pela loja. Chega minha vez de ser atendido.
- Quero seis pãezinhos e cem gramas de pão de queijo, daquele quente.
Ao entregar-me os dois pacotes, pergunto-lhe que gosto tem a chipa. Diz que parece um pão de queijo, mas que é melhor, tem mais mussarela no interior, que ela prefere a chipa ao pão de queijo. Adoro este, mas depois da propaganda, peço uma daquela para experimentar. Ela pesa, um pouco mais de um real. Será que vale quanto custa? Faço o resto das compras e encontro a moça na fila do caixa, agora mordiscando uma chipa. Não vejo a hora de extasiar-me com a minha!
Estou na porta do apartamento. Não escuto barulho, mas não quero arriscar: escondo o saquinho com a chipa no meio do jornal. Vou degustá-la na praia. Delícia! Preocupação desnecessária: o povo ainda ressona. Deixo pronto a mesa do café da manhã e parto para a praia com meus apetrechos, inclusive jornal e chipa.
Meio dia. Uma fominha bateu, hora da chipa! Minha cerveja gelada já está na mão. Abro o saquinho com cuidado e dou a primeira mordida, numa das pontas. Nada de excepcional. Tem algo de broa de milho. Outra mordida, revela-se o recheio amarelado da chipa. Seria o queijo? Apuro o paladar, não percebo a mussarela, mas a coisa é gostosa. Tomo uns goles de cerveja. Ataco agora a parte central, o gosto do recheio se impõe, muito bom. Concluo que não tem queijo, mas não consigo descobrir do que é feito. Liquido a chipa e a cerveja, mas fica um gostinho de quero mais. Abro outra lata e reflito sobre o que acabo de comer. Minha atenção é atraída pela etiqueta de preço colada no saquinho de papel da chipa: "Ingredientes. leite longa vida, coco ralado, mistura de bolo de milho verde, emulzint, ovos". Cadê o queijo??? O gostinho diferente deve ser do coco ralado. A lembrança da broa vem da mistura de bolo de milho. O amarelo decorre dos ovos. E a mussarela? Propaganda enganosa? Não, apenas a minha ignorância gastronômica e a da vendedora, que sente queijo onde não há!!
Para tirar a má impressão inicial, dias depois fui em outra filial da rede de supermercado. Dentro da vitrine cinco cestas de chipas! (Notaram que já sei reconhecer uma chipa de longe, não? Vivendo e aprendendo) Achei essas menos farinhentas, mais branquinhas, com o mesmo formato, mas tendo um aspecto um pouco diferente daquela da praia.
- Qual a diferença entre essas chipas?
- São todas iguais.
- Por que estão separadas?
- É que vende muito.
- Quero duas.
Pelo visto o povo adora chipas! Como pude viver tantos anos sem conhecê-las? Em casa dei uma para minha mulher, que já conhecia, e comi a outra, que, apesar de ter o mesmo formato, mostrou-se com sabor totalmente diferente daquela da praia. Sem gostinho de milho, de coco ou de queijo. Será que a funcionária tinha trocado o produto? Escolado, fui ler a etiqueta "Polvilho azedo, gordura vegetal hidrogenada, fécula de mandioca, amido pré gelatinizado, maltrato de milho, fécula de batata, sal refinado iodado": Realmente outra coisa! Sem ovos, sem leite, sem coco. Ambas sem queijo! Como seria, afinal, uma chipa?
Abro o Houaiss: "Regionalismo: Rio Grande do Sul. Diacronismo: antigo bolo com massa feita de milho e leite, assado no borralho." Chipa é coisa de gaúcho! A descrição bate com a da chipa da praia. Os ovos e o coco seriam uma releitura caiçara. Mas o Houaiss ainda tinha mais coisa para contar: "Regionalismo: Rio Grande do Sul. Rosquinha de polvilho e queijo ralado assada ao forno". Essa definição tem o polvilho da chipa paulistana, mas o queijo ralado .... o rato comeu!!
Será que a vendedora da primeira chipa era gaúcha? Comia chipas em casa, feita pela nonna, com muita mussarela? Será que vou precisar voltar a Porto Alegre para ver como é a legítima chipa??
José FRID
25 comentários:
Arroz com feijão resolve seu probleminha!
Neryna
Arroz com feijão??? Chega!!!
kkkk ótima
nunca comi uma chipa kkkk
Clara
Nunca comi uma chipa!!!
Ivan
Já vi que a ignorância gastronômica não é só minha!!
FRID
Oi, Frid!
O texto é seu? Adoro chipa! Mas conheci no Paraguai... é bom comer quentinha...
Maria Teresa
Tirando as poesias, os outros textos são meus!! Depois de escrevê-lo e remetê-lo, fui pesquisar no Google e ele indica chipa exatamente no Paraguai, mas o formato é outro, parece um pão de queijo, e tem queijo também.
Parece que a chipa gaúcha e a paraguaia têm origem comum.
Boa semana!!
FRID
Olá Frid...... eu de vez enquando como chipa.....é raro encontrar pois acaba em um instante. Sinceramente, é gostosinho e ponto......Nõa sabia do que era feito...rsrsrs
Bom fim de semana.
Dulce
Definiu bem: gostosinho e ponto. nada excepcional.
As duas que comento na crônica foram compradas no Pão de Açucar da Riviera e do Klabin. Acabam logo.
Você compra as suas aonde?
Olá bom dia !
Compro no Pão de Açúcar e outro dia na Varanda, essa estava mais saborosa. Comprei 100 g e acabou no trânsito da tarde p minha casa rsr
Dulce
Fiquei com uma vontade danada de experimentar essa tal de chipa.
Essa crônica deveria ter sido acompanhada de uma, para degustação.
Abraço.
Néli
Tem, quando não acaba logo, no Pão de Açucar. Comprei na Riviera e na Ricardo Jafet.
Frid
E você sabe o que é “peta”?Pois deveria. É um bom mata-fome também. É comum no cerrado mineiro.Abraços!
Henrique
Vou procurar para ver se acho aqui em São Paulo. Qual é o aspecto dela? E o sabor?
Eu nunca ouvi falar de chipa!!!!!!
Sérgio Ricardo
Não é só você! Várias pessoas que leram a crônica também não conhecem. As duas que comento na crônica foram compradas no Pão de Açúcar.
Grande abraço!!
FRID
Sinto muito, eu quero chipa, ou terei que ir até a tua (sua) praia para comê-la?
Estou com água na boca.
Beijos, Helena.
Pode comprar no Pão de Açúcar!!
Não importa a versão, chipa é chipa e, é uma delicia.
Eladir
A peta parece um biscoito Globo, mais denso, murcho e comprido, ou seja, não é rosca. Feito de fécula de milho azeda, que nem pão de queijo.É que nem querer pão francês quentinho (pão de queijo) e comer pão dormido (peta), mal comparando...
Henrique
Gostei da explicações precisas! Vou ver se acho por aqui!
Grande abraço!
FRID
Meu amigo!
Eu conheço com o nome de Biscoitão, mas uma que aprendo, ha,ha,ha,ha.
Temos que ficar de olho na gula, pode nos levar ao peso de uns quilos a mais.
Valeu.
Marly (gaúcha)
Adorei!!!
Gabriela
Frid
Fiquei com vontade de comer chispas! Se aparecer com alguma aí no café da manhã do departamento me chame!
abs
Márcia F.
Aqui o café é magro!!! Mais fácil encontrar as chipas na COHAB, empresa rica!!
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