Tenho que dizer-lhes uma coisa
agora que vocês partiram para além das montanhas
deixando-me para trás com meus sessenta e setenta, sem esperança de
que retornem.
Ei, vocês, que pareciam pontuar o fim da vida, quem jamais poderia
imaginar que você queimariam
com tanta lubricidade assim? Finalizei em vocês
um ou dois assuntos pendentes há tempos. Vocês foram um tempo de plenitude e devastação. Meu casamento havia terminado.
Em vocês eu me vi buscando uma saída que não fosse ao encontro da
não-existência.
Eu pensei: "tudo acabou". Vocês gritaram: "Estamos aqui!"
Vocês pareciam viajar até mim num fluxo, por conta própria, sem guia
ou horários de trens.
Como a "flor da idade", eu os perdi. Vocês pareciam uma imperfeição
feita de perfeições
desconhecidas entre si. Como isso podia acontecer? eu pensava
Ou o que deveria significar, exatamente, ter cinquenta e sete anos?
Eu queria me sentir tomado pelo desejo a todo instante.
Agora vocês me parecem jovens demais para mim.
E, com vocês, como das outras vezes,
Eu pensei que um ano duraria para sempre.
"Fizemos o melhor possível. Resistimos dez anos completos.
Agora somos responsáveis pela década de outra pessoa
e não temos tempo para falar com você, o que é uma pena,
já que não poderemos mais voltar." Meus cinquenta anos! Respondam-me
apenas uma coisa!
Vocês foram o esplendor ou não mais que uma década?
"Nenhum e os dois". Expliquem-se! "Não
há tempo. Adeus!"
Kenneth Koch in "Prosa e Verso", O Globo, de 24 de setembro de 2011, tradução de Maíra Thorley
Um comentário:
É a vida.
Margarida
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