terça-feira, 7 de maio de 2013

O poeta operário



Grita-se ao poeta:
"Queria te ver numa fábrica!
O quê? Versos? pura bobagem!
Para trabalhar não tens coragem."
Talvez
ninguém como nós
ponha tanto coração
no trabalho.
Eu sou uma fábrica.
E se chaminés
me faltam
talvez
sem chaminés
seja preciso
ainda mais coragem.
Sei.
Frases vazias não agradam.
Quando serrais madeira
é para fazer lenha.
E nós que somos
senão entalhadores a esculpir
a tora da cabeça humana?
Certamente que a pesca
é coisa respeitável.
Atira-se a rêde e quem sabe?
Pega-se o esturjão!
Mas o trabalho do poeta
é muito mais difícil.
Pescamos gente viva e não peixes.
Penoso é trabalhar nos altos-fornos
onde se tempera o ferro em brasa.
Mas pode alguém
acusar-nos de ociosos?
Nós polimos as almas
com a lixa do verso.
Quem vale mais:
o poeta ou o técnico
que produz comodidades?
Ambos!
Os corações também são motores.
A alma é poderosa força motriz.
Somos iguais.
Camaradas dentro da massa operário.
Proletários do corpo e do espírito.
Somente unidos,
somente juntos remoçaremos o mundo,
fa-lo-emos marchar num ritmo célere.
Diante da vaga de palavras
levantemos um dique!
Mãos à obra!
O trabalho é vivo e novo!
Com os oradores vazios, fora!
Moinho com eles!
Com a água de seus discursos
que façam mover-se a mó!

 

Vladimir Maiakovski

6 comentários:

Anônimo disse...

adorei o "nós [os poetas] polimos as almas"...

Luiza B.

Anônimo disse...

Lindooooooo!

Votos de uma ótima semana!
Abraços,
Fátima F.

Anônimo disse...

Muito bom!

Margarida

Anônimo disse...

LINDA, LINDA POESIA...GRATO POR COMPARTILHAR !!! ABRAÇO !!!

Lula

Anônimo disse...

Só tenho uma coisa a dizer : Sensacional !
Por um momento pensei que o texto fosse seu...
Esse rapaz leva jeito, hein....

Ricardo B.

Metamorfose Ambulante disse...

O poema tem o vigor de um trabalho braçal!

Pena que ele acabou desiludido com a revolução e suicidou-se!

Grande abraço!