Estamos sós no amplo elevador comercial, depois que a turba do nono andar desceu. Ela está de frente para a porta da cabine, pronta para sair na próxima parada. Estou recostado na parede refletiva no fundo do elevador. Será que ela resistirá a dar aquela última olhadela no espelho antes de sair?
Enquanto ela não desce, olho para ela. Botas pretas de cano curto e salto alto, salpicadas de pequenas tachas prateadas, das quais emergem pernas bem torneadas, acompanhadas por coxas generosas, sólidas, pernas e coxas recobertas por calças justas, skinny,legging, que expõem e valorizam a formosura daquelas colunas dóricas, jônicas, coríntias, que sustentam nádegas firmes, salientes, delicadas, redondas, empinadas, bem ao gosto médio brasileiro. Um cinto largo apoiado nos quadris dengosos coroa essa deliciosa base feminina, provavelmente esculpida por horas de academia, ressaltando uma cintura tipo violão, ampulheta ou, como a mulher de Breton, "cintura de lontra entre os dentes de tigre". Nada de culotes, dobras, sobras ou excessos visíveis.
As costas, cobertas por malha canelada, se alteiam em cálice, com ombros firmes definindo a silhueta, prenunciando saboneteiras graciosas, essenciais à beleza feminina como prescreveu Vinícius (uma mulher sem saboneteiras é como um rio sem pontes). Cabelos aloirados espraiam-se pelos ombros, cobrindo, certamente, um pescoço de sílfide e cabeça de Vênus de Milo. Braços graciosos estão ao longo do corpo, um grande anel de prata e imensa pedra azul enfeita a mão de dedos finos e longos. Seria uma estagiária de arquitetura?
Recordo-me de Bukowski: "de vez em quando aparece uma, em plena flor, uma mulher brotando de dentro do vestido...Uma criatura toda sexo, uma praga, o fim de tudo..." Inspirado como Tom e Vinícius, assobio discretamente para a garota de Piratininga "olha que coisa mais linda, mais cheia de graça, é ela menina que vem e que passa no doce balanço...", interrompendo quando o elevador para. Olhará para mim antes de partir?
A porta se abre mas ela não sai, vários passageiros entram e forçam-na a ir para trás. Ela recua, encosta na parede lateral e olha para o espelho: um flácido e volumoso abdômen espraia-se por cima do cinto, seios desabados sobre o ventre proeminente, sem saboneteiras à vista, pescoço com mil anéis, cabelos palhas formatando um rosto que lembra uma batida entre um trem vermelho e um caminhão azul repleto de corujas e tucanos. Deve ser a avó ou bisavó da estagiária.
O elevador parte, a pedra azul eleva-se e percorre o milharal expondo orelhas de dumbo, enquanto milhares de dentes amarelados exibem-se para mim. Socorro!
José FRID
18 comentários:
Oh FRID !
Cuidado quando Voçê fala Turba, porque ultimamente essas Turbas estão amedrontando até o Congresso !!!!!!!
KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK .........................................................................................................................
Abraços, Galvão.
A turba é de trabalhadores pacíficos!!! Vou mandar a "gata" do elevador falar com você! Vai que rola.....
Frid,
tenho um nome para essa musa: "Desculpe, foi engano".
Bjs
Dolores
Já adotei a sugestão como nome da crônica!
O pior é que ela é real, Dolores!! Mulheres são especialistas em enganar os homens!
Que fique claro que não assobiei para ninguém, sou um homem casado!
Grande abraço!
Eu acredito. Nós temos uma aqui no TCM também.
Olá.
No mesmo nivel do que li, "pirou na batatinha", né.
Abçs,
Zélia
Pirou porque as mulheres são mestres em disfarces!!
Muito bom!
Touché!
André
Excelente !!!!!!!!!!!!!!!!!!
Lula
Oh Frid !
Assédio no elevador dá cana !!!!!!!!!!!
Abraços, Galvão.
Putzzzz, por isso que eu digo quanto mais criamos expectativas, maiores as chances de frustração. Tudo que sai de improviso é mais gostoso.
Rosangélica
Ótimo, divertido, adorei!
Marilia M.S
Sensacional!!! É bem o lance da expectativa mesmo, feliz da pessoa q acorda, olha pro espelho, e, esteja ela vendo oq quer q seja, diz pra si mesma: Oq vier é lucro, afinal, até um pé na bunda te empurra pra frente...
Gabriela Z.
Por isso dizem q se os homens soubessem o q as mulheres estão pensando, arriscariam 10 vezes mais.
beto P.
E eu tinha um amigo baixinho, branquelinho, gordinho, que dizia que ele sempre conseguia "pegar" mulher no dia da raiva. As pessoas em volta perguntavam, como assim?
Marília M.S.
Ele explicava: quando elas saem de casa batendo a porta, com raiva do marido, dizendo: hoje eu dou pro primeiro que aparecer. Era a chance dele. rsrsss
Marília
A ocasião faz o ladrão! Ele presta um serviço social!
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