domingo, 8 de dezembro de 2013

A missão do avô


- Benhê, acorda! Acorda!  ACORDA!
- Que foi dessa vez? Me deixa dormir...
- Tive um sonho...
- Você está pensando que é o Martin Luther King? Vamos dormir, amanhã você conta.
- Não. Sonhei com meu avô, foi uma mensagem!

A santa, vendo que não vai ter jeito de alguém dormir antes que ele conte o sonho, acende a luz do abajur, recosta na cabeceira e olha para o marido.

- Nossa, você está todo suado! Tá com febre?
- Não, estava plantando uma árvore. No sonho, bem, com meu avô. Fiquei exausto, machuquei a mão...
- E por que raios você estaria plantando uma árvore??? Logo você...
- Meu avô mandou. Ele surgiu no sonho dizendo que eu deveria ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro. E que como eu já tive um filho, agora era hora da árvore....
- Vamos esclarecer um fato: eu é que tive a filha, sua colaboração foi mínima....
- Vai me deixar contar o sonho?
- Conta logo que tenho de acordar cedo, cuidar da filha que eu tive, café da manhã, levar na escolinha...
- Vovô apareceu de repente e disse: homem que é homem tem que ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro. Eu parecia Moisés no deserto, só que, em vez de dez mandamentos, meu avô me deu três.
- Tá bom, vamos dormir. Você já plantou umas mudas nos vasos da sala e já escreveu um TCC. Seu avô deve estar satisfeito. Boa noite.
- Flores não valem! Tem que ser árvore. E TCC não é livro...
- Meu bem, se homem conta como dele filho que mulher pariu, flores e trabalho de faculdade também valem! Boa noite!

Ela apagou a luz, virou de lado e se apagou. Ele levantou-se e foi à cozinha beber água. Nunca pensara que plantar uma árvore daria tanto trabalho. Será que tinha que plantar com as próprias mãos ou podia pagar alguém para plantar? Insone, ligou a televisão. Achou um filme antigo que já vira muitas vezes. Logo dormiu. O avô aproveitou a deixa e ressurgiu, entre nuvens e com voz retumbante:

- Meu neto, filho é sangue, perpetuação da família. Árvore é o futuro, oxigênio e alimentos para seus filhos e para o mundo. Livro é experiência, conhecimento, deixar exemplos para seus filhos e todos os povos da Terra!
- Tá bom, vô, já entendi. Mas isso é muita responsabilidade para mim. Como devem ser o livro e a árvore? Algum modelo, tipo...
- Te vira, neto! Não enrola! Na minha vez, não fiquei perguntando. Fui lá e fiz! Filho, árvore e livro. Filhos, árvores, livros, que nunca fui de economizar.
- Vô, se eu estou aqui, sei que você teve filho. Mas, com todo respeito, nunca vi uma árvore que você tenha plantado ou um livro seu...
- Neto incrédulo! Plantei muitas árvores pelo mundo afora. Livro, livro de papel não, que era muito caro, mas livro de vida eu escrevi. Contei minhas histórias para todo mundo, família, amigos, conhecidos, fiz minha parte. Agora é sua vez!

Resolveu começar pela árvore, algo mais palpável. Depois, poderia recolher as estórias do avô e formatar um livro. Colocaria os nomes dos dois. Uma bela homenagem ao velho. Ficou dias embatucado em escolher que tipo de árvore plantar. Alta? Frondosa? Frutífera? Cheia de flores? Boa para madeira? Nativa ou exótica? Pau-Brasil, jacarandá, jatobá, ipê, cedro, mogno? Aroeira, sibipiruna, araucária, manacá? Embaúba, cássia, baobá, pinheiro? Jabuticabeira, mangueira, jaqueira? Quaresmeira, peroba, abricó-de-macaco? Coqueiro, palmeira-imperial, gerivá, açaí?? Laranja, cafeeiro, cerejeira, limoeiro? Parreira, cajueiro...

Sábado, a mulher está fazendo uma vitamina de abacate para a filha. Ele vê o caroço da fruta, considera um desperdício a fruta ter um caroço tão grande. Será que não poderia aproveitá-lo? Cozinhá-lo, fazer uma farofa, um chá. Ele tem um insight: não vai comprar uma muda, irá plantar uma árvore vindo da semente, do caroço. Sob protestos da mulher, que acha que o caroço vai apodrecer no vaso e empestear a casa, limpa o dito cujo com cuidado. Entra na internet e descobre como fazer a muda. Envolve a filha, considera interessante os dois trabalharem juntos. Quem sabe poderá escrever um livro sobre a experiência? Preparam o caroço, pote com água. Acompanham até germinar a primeira raiz. Passam para o vaso, colocam na janela mais ensolarada, regam. Meses depois, a muda está da altura da filha: hora de plantar. Decide que vai plantar sozinho, senão a filha vai fazer igual à mãe, dizer que ela fez quase tudo sozinha. Essas mulheres....

Onde plantar? Uma praça, parque, beira de estrada, o sítio do primo! Este aquiesce com o pedido, lembra que é sempre bom ter outras plantas para fazer a polinização cruzada. Marcam para o próximo sábado, de manhã. "A gente planta a muda, tira uma foto, vamos num "pesque e pague", depois almoçamos, fazemos umas compras de produtos regionais e voltamos no começo da noite, ainda em tempo de pegar um cineminha com as mulheres."

Saem cedo de casa para que a muda não passe calor. Na cidade, o primo sugere que comprem linguiças caseiras para o almoço, uma das especialidades da região. Outra especialidade é a pinga artesanal. Seguem de loja em loja, alambique em alambique, experimentando e comprando os produtos regionais. Satisfeitos, porta-malas cheio, resolvem ir para o sítio plantar o abacateiro. No caminho, um pesqueiro. De um amigo do primo. Entram. Proseiam. Um garrafão de pinga aparece. Pescam. Mais amigos chegam. Peixes fritos, assados, cozidos. Pinga. Cerveja. Proseiam. Sol se pondo, muriçocas. Cerveja. Linguiça. Prosa. Pinga. Madrugada, hora de plantar o abacateiro. Cavam uma cova no fundo do pomar, próximo aos outros abacateiros, sob a luz das estrelas e dos longínquos faróis do carro. O primo enjoa e forra o buraco com refluxo estomacal. Consideram a muda meio abatida, mas nada que uma boa regada e um solo fértil não reparem.

Domingão, acordam numa ressaca federal. O primo lembra que não tiraram foto da árvore para registrar o evento. Pedem para o caseiro fotografar, o sol está inclemente, não conseguem nem abrir os olhos. O homem volta e diz que só tem uma planta seca, com folhas marrons. Deve ter desidratado na viagem. O neto chora ao ver a imagem no celular: as brilhantes folhas verdes agora pretas, o caule, antes ereto, parecendo um velho todo encurvado. Falhou na sua missão. Será que o avô vai parecer no sonho, pesadelo? Há tempo de reparar as coisas? Vão aos viveiros da região. Só mudas maiores que a filha. Exaustos, sedentos, compram a menor que encontram. Pagam ao caseiro para plantar a árvore, não aguentam fazer qualquer esforço físico. Almoço, descanso, a ressaca cede. Conseguem chegar ao pomar. Uma belezura! O primo tira a foto dele com a bela muda. Missão cumprida. Abacateiro é tudo igual. Quem sabe desenvolve outra muda com a filha, já está ficando craque no assunto. Talvez compre um sítio...

Chega em casa a tempo da pizza de domingo. Doces e brinquedos para a filha, linguiças e panos de prato decorados para a mulher; os garrafões de pinga ficam no porta-malas. Elas querem saber como foi o plantio. Romanceia a história: plantaram, pescaram, fizeram compras. Foto? Saca o celular e mostra. A mulher:

- Meu bem, acho que essa não é a nossa muda.
- Nossa? Minha! Como não? Verdinha, uma boniteza.
- Só se ela cresceu na viagem.
- Eu plantei no sábado e tirei a foto domingo. Pode ter pego bem, o solo é bom...
- Crescer mais de um palmo em um dia?
- Como um palmo? A planta gostou da terra! E a foto de celular, deforma, aumenta.
- A planta estava com a altura da minha filha, nossa filha, que bate no seu cinto e muda da foto está batendo no seu peito!
- É a nossa planta! A calça pode estar mais baixa, a árvore crescido um pouco, o montinho da cova, o celular... põe um pedaço de marguerita para mim, benhê!

A filha pega o celular e se distrai com um joguinho barulhento. Salvo. Agora, o livro. Será que um conto basta?



José FRID

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