domingo, 15 de dezembro de 2013

Órfãos do filho morto


- Meu neto é o pajem, que vai levar as alianças. Minha filha é uma das madrinhas.
- Sua mulher deve estar contente.
- Por que?
- Um pajem todo bonitão, a filha de madrinha...
- Ex-mulher. A minha filha é do primeiro casamento.
- Sua mulher atual...
- Ela não vai a casamentos, batizados  nem festas de criança.

Estamos os dois na porta da igreja esperando a noiva, que está atrasada. O noivo está ansioso próximo ao altar. Será que ela vem? Os convidados estão ficando famintos. Crianças correm pela igreja. Bebês choram.

- Ela não gosta de festas?
- Maior festeira. Mas não vai a casamentos, batizados e festas de crianças.
- Religião?
- Não. Aborto.

Arrumo a gravata, vejo a hora no celular. Ele cumprimenta algumas pessoas que entram na igreja. Os retardatários ficam decepcionados ao perceberem que a noiva não está. Pretendiam ir direto para a festa no salão vizinho. Alguém informa que a noiva está presa num engarrafamento e vai atrasar meia, uma hora. Convido o cidadão para tomar uma cerveja num bar do outro lado da rua, de onde podemos controlar a chegada da noiva.

A ideia não é original: o estabelecimento está cheio de ternos e alguns vestidos de festa. Ficamos no balcão. Sirvo a nós dois. Ele puxa conversa.

- Tem filhos?
- Um casal, já grandes.
- Tenho três do primeiro casamento. Todos criados, também. E um neto.
- E do segundo?
- Nenhum. Bem que eu queria mais um filho, pelo menos.
- Aborto malfeito?
- Não, não é isso.  Eu tinha acabado de me separar, a coisa foi litigiosa, pensão, guarda das crianças, muitas brigas. Fomos morar juntos e ela logo ficou grávida, um descuido. Eu estava sem cabeça para ter filho já de novo. Ela era muito nova, podia esperar.
- Foi consensual?
- Na hora pareceu. Nós apaixonados, muitas coisas acontecendo, a gravidez não tinha sido planejada. Disse para ela que logo que a gente estabilizasse a vida, teríamos um, dois, três, quantos ela quisesse.
- Resolveu  a questão...
- Aparentemente. Fui percebendo os problemas aos poucos. Ela começou não indo nos aniversários dos meus filhos. Eu até entendi, não queria encontrar minha ex, sua família. Nem foi ao batizado do meu neto.
- Mas seus filhos iam na sua casa?
- Sem problemas, chegavam a dormir em casa. Ela gosta de crianças e, como era muito jovem, se entendia bem com eles.
- Bem mais nova que você?
- Quinze anos. Está com trinta e sete. Minha filha com vinte e sete, eu com cinquenta e dois. A outra, cinquenta. Paixão é assim, estava louco por ela..
- Separou e casou com ela?
- No início eu também não queria casar. Gato escaldado, sabe como é. Usei os problemas do divórcio como desculpa para não casar.
- Boa desculpa.
- É. Depois, começou a não ir a casamentos. Como não éramos casados, acho que ficava sentida na cerimônia. Mulher é bicho complicado. Quando ela fez trinta anos... uma data bonita, não?
- Sim, que me lembre...
-Para com isso, você deve ser da minha idade, mais ou menos. Quis fazer uma surpresa. Assinei o divórcio em segredo, organizei a maior festa de aniversário. Na hora dos parabéns, mostrei a certidão do divórcio e a pedi em casamento na frente dos pais e amigos. Disse que a gente ia casar e ter filhos...
- Homem romântico...
- Deu tudo errado. Ela não gostou da surpresa, disse que não queria mais casar, ter filhos, saiu da festa, um caos.
- Como você disse, mulher é bicho complicado. Ela devia fazer tratamento...
- Faz. Fez desde aquele tempo. Agora não quer nem casar nem ter filhos. Acha que está velha.
- Nova ainda...
- Eu sei, falo para ela, mas ninguém consegue convencer. Apesar dela ter concordado com o aborto, acho que ela ficou muito abalada. No fim, ela era, é uma mulher simples. Queria casar e ter filhos. Eu compliquei as coisas...
- Você forçou o aborto?
- Não!! Decidimos juntos!
- Ela podia superar tudo, casar, ter filhos...
- Ela pensa no outro...
- Que outro? Amante?
- Não. No filho que não nasceu. Por isso que não vai a festa de crianças, batizados, casamentos. Fica pensando no outro, que poderia estar aqui, quem sabe de daminha ou pajem.
- Desse ponto de vista...
- E o pior é que fiquei sem filhos também. O meus foram criados mais pela mãe do que por mim, muito trabalho, viagens. Quando eu poderia ser um pai exemplar, ela veio com isso, como se me punisse pelo outro. Somos dois órfãos de um filho morto.
- Pai não é órfão de filho...
- É como fosse. Você entendeu. Olha o carro da noiva chegando. Vamos, que meu neto é pajem! 


José FRID


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