sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Ele e a avó


Sua avó ali? Ele a viu quando ela entrou no vagão do Metrô pela porta oposta à sua e acomodou-se junto ao primeiro balaustre, que segurava com a mão direita. A esquerda detinha um carrinho com bolsa de lona florida, do tipo que as mulheres utilizam para ir à feira ou na Vinte e Cinco de Março. O trem deu um tranco ao partir e os dois balançaram-se em busca de equilíbrio. Ele sorriu para ela, que retribuiu. Era tão bela quanto sua avó, pensou. Não hoje, que Deus a tenha, mas quando ele era pequeno e a desejava. Sua mãe também era bela, mas tinha seu pai e seus irmãos. A avó não tinha ninguém, era só dele. O avô era mero retrato amarelado na parede.

Observou-a discretamente. Negros cabelos na altura dos ombros. Pequenos óculos de aros metálicos prateados. Blusa com tecido fino, que moldava o dorso, mas sem marcar as imperfeições. Mangas curtas, levemente franzidas. Gola em vê, com babados, seios generosos. Bermuda de brim, também discreta. Coxas e nádegas firmes. Sapatos baixos, confortáveis. Unhas no azul da moda. Concluiu que ela era exatamente como sua avó seria nos dias de hoje, caso ele fosse garoto outra vez. Enterneceu-se.

Novo tranco do trem, os olhos se procuraram, sorriram-se. Ela desviou os olhos, mas, faceira, ajeitou seus cabelos com uma só mão, oferecendo a orelha com pequeno brinco de pérola. Orelha, que palavra feia para uma coisa tão delicada, mimosa, pensou ele. Como mordiscar uma orelha? Lóbulo, outra palavra broxante. Pior só pavilhão auricular. Expressão que sua avó usava quando queria adverti-lo para não enfiar coisas no ouvido. Palavra bonita, ouvido, profunda, torneada, boa para ganhar ou dar um beijo. Estremeceu com a lembrança de um erótico, úmido e inesquecível ósculo recebido da primeira amante. Segunda, a primeira sempre seria sua avó.

O trem parou, retirando-o dos seus devaneios. Vagou, bem ao lado dela, um assento destinado a idosos, grávidas e deficientes. Ela permaneceu de pé. Vaidade ou não teria idade para usufruir do benefício? Seria avó? Não encontrou aliança, só bijuterias multicoloridas. Viúva? Tia avó? Não, tia avó não servia, mesmo parecendo com sua querida avó. A relação, a entrega com o neto era diferente. Sentiu desejo pela mulher, aquela na sua frente e não a falecida. Outro tranco, mais olhares e sorrisos. Mera coincidência ou ela estava lhe paquerando?  Ficou desorientado. Não com a paquera, mas com a possibilidade de sua avó ter flertado com alguém naquele tempo. Na frente dele, por cima de sua cabeça, num passeio no parque, na banca de jornais, na fila da pipoca ou no cinema. Horror, que horror! Nem podia imaginá-la o traindo. Ela sorriria assim para outros? Deixaria alguém que não ele sentir seu perfume? Abraçá-la? Deitar a cabeça em seu colo? Receber cafuné?

Absorto em seus pensamentos, levou três estações para perceber que a passageira tinha desistido dele e sentara mais à frente, num dos raros bancos destinados às pessoas comuns. Como ela estava de costas, só a reconheceu pelo carrinho que estorvava o corredor. Ao lado dela, um jovem que não tinha idade para ser seu neto. O neto era ele. Nova estação: portas abertas, vai e vem de pessoas, portas fechadas. Percebeu que o trem corria apressado para o Centro, doido para expelir tantos passageiros. Centro, Vinte e Cinco, provável destino da avó. Precisava agir Caminhou decido pelo corredor e esbarrou no carrinho, pedindo desculpas em tom amistoso. Ela olhou para cima e sorriu. Ele retribuiu enfaticamente, ela ruborizou-se como só as avós faziam e desviou o olhar para frente. Aproveitou a distração dela e admirou o colo dos seios generosos, o sutiã rosa claro, o regaço das coxas, as mãos, a ponta do nariz.

Novo tranco do trem o pega nesses devaneios e ele quase vai ao chão. O jovem levanta-se e oferece o lugar para ele. Fosse outra a situação, teria se ofendido com a gentileza juvenil, mas agora é a oportunidade de estar com ela, sua avó. Senta-se espremido entre a parede do vagão e os quentes braço e coxa dela. Como no sofá da avó, vendo tevê. Ela deixava-o ver todos os programas, sem a regulação da sua mãe. Sentados colados no sofá de dois lugares, ele atento ao que saia da caixa luminosa à sua frente, ela dividindo a atenção com um tricô, crochê ou costura. Mais tarde, ele jogava os pés por cima do braço do sofá e deitava no colo dela. Ela parava suas atividades e começava o cafuné, ora com as pontas dos dedos, ora com as unhas bem feitas. Delícia. Debruçava de vez em quando sobre ele e beijava-o na testa, nas bochechas, no queixo, esmagando-o com os seios generosos. Pena que não podia deitar ali e agora na avó a seu lado... a voz estridente avisou "estação Vergueiro, retirando-o dos tempos de infância: a Vinte e Cinco se aproximava célere! Tinha que agir rápido. Abriu um largo sorriso e disse:

- O metrô está quente, não?
- É, muita gente. Todo Dia das Crianças é assim.
- A senhora vai à Vinte e Cinco?
- Vou. Loucura, não?
- Para mim sim. Ainda bem que meus filhos estão crescidos.
- Os meus também. Compro para os sobrinhos.

Ele ficou surpreso: ela não era avó, apenas tia! Tia!

Num átimo levantou-se, passou pelas pernas dela e se jogou através das portas que se fechavam. O trem partiu. Ela, sem entender nada, o acompanhou com os olhos enquanto o trem deixava a estação. Ele aprumou-se na plataforma. Um cego tateava com a bengala a marcação de borracha em relevo no chão.

- Quer ajuda, amigo?
- Sim, fica mais fácil.
- Segura no meu braço e vamos. Que estação é essa?
- Liberdade.
- O senhor não sabe o que me aconteceu no vagão.
- O quê? Foi assaltado?
- Não, pior. Uma mulher velha, de uns cinquenta anos ou mais, dando em cima de mim descaradamente. Um absurdo! Ela podia ser minha avó!


José FRID

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