domingo, 30 de novembro de 2014

Descartes e o primeiro romance moderno


(...) O senhor sabia, disse, e começou a andar de novo, que Valéry diz que "O Discurso sobre o método" é o primeiro romance moderno? É o primeiro romance moderno, diz Valéry, diz Tardewski, porque se trata de um monólogo onde, em vez de contar-se a história de uma paixão, narra-se a história de uma ideia. Nada mal, hein? No fundo, visto assim, poder-se-ia dizer que Descartes escreveu um romance policial: como pode o investigador, sem sair do seu assento diante da lareira, sem sair do seu quarto, usando apenas a razão, deixar de lado todas as pistas falsas, destruir uma a uma todas as dúvidas, até conseguir finalmente descobrir o criminoso, isto é, o "cogito". Porque o "cogito" é o assassino, quanto a isso não tenho a menor dúvida, disse Tardewski (...)


Ricardo Piglia in Respiração artificial, Companhia das Letras, 2010, pág.174

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