Subo a ladeira, dobro à esquerda e paro: tá lá o corpo estendido no chão. Volto do parque onde fui dar a corridinha domingueira. São quase quinze horas de um dia ensolarado, estou sedento, suado, faminto, mas feliz, endorfinas fazendo efeito. Ele caído no chão, atravessado na calçada estreita, entre o carro estacionado e a parede lateral de uma loja. Dorme ou morto? De longe não consigo ver peito ou a barriga se movem. Respira? Só chegando perto para saber. Ignoro ou socorro? Naquela rua quase não passa ninguém a pé, se passou mal, morreu. Pode ser apenas um bêbado tirando cochilo restaurador ao sol primaveril.
Chego mais perto, noto que ele está completamente vestido: tênis, jeans, camisa. Embaixo dele, um casaco. Mendigo não é, concluo. Morto ou bêbado? Urinado não está. O corpo está de lado, a cabeça inclinada para cima, boca aberta num esgar que lembra morte. As mãos estão desconjuntadas, mas não ajudam na solução do problema. Podem ser de cadáver, mas também de álcool ou de sono. Penso em atravessar antes de chegar perto dele, mas ficou dividido entre curiosidade e caridade. Será que posso ajudá-lo em algo?
Continuo a aproximar-me. Movimentos zero. Ajudar, posso? Sigo, pura curiosidade. O sol das três, horário de verão, bate em cheio nele. Tirou o casaco pelo calor? Estava vivo quando caiu? Caminho de olho no seu peito, nas suas mãos, pernas, cabeça, qualquer movimento será positivo, cambiarei curiosidade por solidariedade. Lembro que a última pessoa morta que vi assim, largada em público, foi um afogado, há mais de quarenta anos. Arrepio-me apesar do sol: a boca, os olhos, são os mesmos: puro desespero diante da Inevitável. Estanco. Que fazer com um morto? Lá atrás os salva-vidas deram uma solução. Mas ali, eu?
Aproximo-me com o respeito devido ao falecido. Adrenalina a mil, sinto o coração na boca como uma final de maratona. Não sei o que fazer. Samu? 190? Vejo uma garrafa pet de Coca-cola atrás do corpo. Alívio. Bêbado apenas. A garrafa contém um líquido transparente. Pinga, vodca, água? Não importa, vivo está. Dorme profundamente, apenas. Não deve ser incomodado, merece meu respeito. Bebeu, caiu e dorme. Não incomoda ninguém. O que a gente tem haver com isso? Nada.
O porteiro pergunta se corri muito. Questiono o motivo. Você está branco, arfando, diz. Vi um fantasma, brinco. Em casa, abro uma Bohemia gelada. A vida é bela!
José FRID
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