terça-feira, 2 de dezembro de 2014

A literatura de Roberto Arlt

(o único escritor verdadeiramente moderno que a literatura argentina do século XX produziu)

(...) Para Arlt a língua nacional é o lugar onde convivem e se enfrentam diferentes linguagens, com seus registros e tons. É esse o material sobre o qual constrói seu estilo. É esse material que ele transforma, que faz entrar na "máquina polifacética", para citá-lo, de sua escritura. Arlt transforma, não reproduz. Em Arlt não há cópia da fala. Arlt não sofria dessa ilusão que abunda entre os escritores que cercam Borges, como Bioy, Peyrou, o primeiro Cortázar, que por um lado escreviam "bem", pulcramente, com "elegância", e por outro mostravam que eram capazes de transcrever e de copiar a fala pitoresca das classes "baixas". O estilo de Arlt é uma massa em ebulição, uma superfície contraditória, onde não há cópia da fala, transcrição crua do oral. Arlt, então, trabalha essa língua atomizada, percebe que a língua nacional não é unívoca, que são as classes dominantes que impõem, a partir da escola, um determinado manejo da língua como sendo o correto; percebe que a língua nacional é um conglomerado. Isso por um lado, disse Renzi. Por outro, Arlt safa-se da tradição do bilinguismo; está fora disso, Arlt lê traduções. Se em todo o século XiX, até Borges, encontra-se o paradoxo de uma escrita nacional construída a partir de uma cisão entre o espanhol e o idioma em que se lê, que é sempre um idioma estrangeiro, basta ver a marca do galicismo em Sarmiento, em Cané, em Guiraldes, para entender o que estou querendo dizer, Arlt não sofre desse desdobramento entre a língua da literatura que se l~e em outro idioma e a língua em que se escreve: Arlt é um leitor de traduções e portanto recebe a influência estrangeira já peneirada e transformada pela passagem dessas obras, de sua linguagem original, para o espanhol. Arlt é o primeiro, por outro lado, a defender a leitura de traduções. Preste atenção no que diz sobre Joyce no prólogo de "Os Lança-chamas" e você vai ver. Daí que o modelo de estilo literário - onde ele vai encontrar? Encontra-o onde pode ler, ou seja, nas traduções espanholas de Dostoiévski, de Andreiev. Encontra-o no estilo dos péssimos tradutores espanhóis, nas edições baratas de Tor. E esse é o segundo material sobre o qual se constrói o estilo de Arlt: "corcéis", "varões", seus textos estão cheios disso, porque o que os tradutores espanhóis fixavam como clichê de tradução e como léxico, Arlt trabalha e transforma em matéria-prima de sua escritura. 

(...) O estilo de Arlt é sua ficção. E a ficção de Arlt é seu estilo: não há uma coisa sem a outra. Arlt escreve aquilo que conta: Arlt é seu estilo, porque o estilo de Arlt é feito, no plano linguístico, do mesmo material com que constrói o tema de seus romances.


Ricardo Piglia in Respiração artificial, Companhia das Letras, 2010, pág.120/121

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