domingo, 28 de dezembro de 2014

Canção de amanhã



não direi adeus 
se ainda tarda o sol. 
também não falarei de flores 
quando a primavera discursa aos olhos 
permitindo que descansem as saudades do outono. 
fecho os olhos e deixo-me levar por uma tênue certeza, 
uma impressão sutil como o fio da teia 
da caprichosa aranha-mãe, 
de que o silencio conspirara a meu favor. 
não direi adeus, 
embora saiba do fim de todas as coisas, 
fim que abraça mesmo os sonhos 
sem tempo de vir a ser, 
fazendo breve o que se julgava eterno. 
lentamente, tento desconstruir o pensamento 
ainda embriagado de lucidez indesejada, 
concebido em meio acido, sobrevivente, 
como o pródigo filho que ainda não partiu. 
refaço-me do último suspiro 
recolho a última palavra 
ignoro as horas apressadas 
e caminho para o mar.


Aila Magalhães via Jornal de Poesia

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