- Quer me comer? Pago quinhentos reais.
Ele ficou surpreso com a proposta. Deixou-se levar pelo manual do supermercado:
- Cliente Mais? Nota Fiscal Paulista?
A voz feminina repetiu:
- Quero você. E pago quinhentos reais. Mas tem que ser agora, de manhã.
Aquilo não constava dos manuais de treinamento. Levantou os olhos. Os seios empinados pelo sutiã esportivo estavam à sua frente. Acima, um rosto com mais de quarenta anos, que lhe sorria. Bonita, ainda, talvez com menos de sessenta. Saíra da academia da sobreloja? Repetiu o manual:
- Cliente Mais? Nota Fiscal Paulista?
Ela espalmou a mão direita, sacudindo a pulseira de prata com balangandãs e repetiu de forma inaudível, mas bem marcada com os lábios: "Quinhentos!"
Ele começou a registrar os produtos, pensando na proposta: "Quinhentos reais, metade do meu salário, por meio dia, quem sabe algumas horas, ou até menos." As mercadorias revelavam-lhe que ela morava sozinha, estava de dieta, cuidava da saúde, mas deixava abertura ao prazer: chocolate, vodca importada, queijo brie.
- Mais alguma coisa, senhora?
- Sim, você, por quinhentos reais. Agora.
O dinheiro sempre fora curto para ele. Lembrou-se da noite anterior, ele e Ritinha, sexo puro sem dinheiro, talvez amor. Dormiram de conchinha, foi difícil para ele livrar-se dela e ir trabalhar. Agora aquela proposta. Estava saciado, mas sexo nunca seria demais. Falou o valor total das compras. Ela entregou-lhe um cartão.
- Débito ou crédito?
- Crédito, mas você pago em dinheiro, cash!
Ele avaliou o corpo dela: seios firmes, sem barriga, cintura e ombros largos, braços rijos, mãos bem cuidadas, não seria nenhum sacrifício aceitar a proposta. Devolveu-lhe o cartão e a nota fiscal. Ela entregou-lhe um cartão de visita.
- Pense bem na minha proposta. Moro aqui do lado, no 125. Venha de manhã.
"Dra. Margarida Souza Cardozo, advogada". Guardou-o e ajudou-a a ensacar as compras, colocando dois saquinhos na vodca sueca para garantir.
- Vodca com morangos e brie antes do almoço é uma delícia, já experimentou?
- Não, meu salário não dá para esses luxos...
- Venha experimentar comigo. Qual é o seu nome?
- Cleverson.
- Não se atrase, Cleverson. São quinhentos, mais a vodca, os morangos e o brie!
Ela saiu, ele deixou-se observá-la: nádegas rijas, coxas torneadas, não seria sacrifício.... seus devaneios foram interrompidos pelo pigarro de cliente. Despertou:
- Cliente Mais? Nota Fiscal Paulista?
Passou quase uma hora, mais ou menos, atendendo aos clientes. Seu treinamento permitiu-lhe que pudesse trabalhar e matutar a proposta recebida. Os quinhentos reais ali, agora, seriam muito bem vindos. Poderia comprar um presente para Ritinha, uns livros para a faculdade, calça e camisa nova, quem sabe um sapato.... era muito dinheiro para ele. Por que não aceitá-la? Ritinha não iria saber de nada. Medo de não dar conta? Não, seus vinte anos garantiam o resultado. Até agora nenhuma mulher reclamara da sua atuação, não seria a advogada. Por que ela o escolhera? Tinha consciência de que não era um cara bonito. Muito magro e alto, meio envergado, cabelos confusos, óculos pretos, não era exatamente um galã. Mas fizera sucesso com ela, a ponto dela querer pagar...
Avisou ao gerente que precisava dar uma saidinha para consultar uma advogada para um problema com a aposentadoria do seu avô e mostrou o cartão dela. Demoraria pouco, compensaria na saída, chegando mais tarde na faculdade. Ele aquiesceu. Cleverson, que se dirigiu rapidamente ao vestiário, já pensando como iria chegar no apartamento da mulher. Tomar banho? Melhor, ainda estava com cheiro da Ritinha. Chegar de mão abanando? Perguntou na loja, informaram que damascos combinavam com brie. Comprou uma baguete com gergelim e uns croissants. Tudo por vinte e cinco reais. Caríssimo, mas era um investimento.
- Pois não?
- Vou à casa da Doutora Margarida do 125. Sou o Cleverson do Pão de Açúcar.
- Um momento. (...) Pode subir. Pelo elevador de serviço.
Sentiu-se um verdadeiro "Pretty Womam". Pois bem, faria como ela, exigiria pagamento antecipado em dinheiro. Uma empregada salerosa esperava o elevador. Abriu a porta para a moça, que entrou, agradeceu-lhe e sorriu. Dela não cobraria, poderia ser ali mesmo no elevador. Excitou-se com a ideia e achou bom, preparação para o que estava para acontecer. Como a advogada o receberia? Roupão? Camisola? Short e camiseta? Ainda com a roupa de ginástica? Pelada?
Excitado com a nova experiência, tocou a campainha. A empregada abriu a porta.
- Sou o Cleverson do Pão de Açúcar, a Dra. Margarida está me esperando.
- Ela não está, pode deixar as compras comigo. Muito obrigada.
Ele ficou um tempo infinito olhando para a porta fechada, vinte e cinco reais mais pobre...
José FRID
Mais crônicas e contos aqui e ali no Blog do FRID
Nenhum comentário:
Postar um comentário