quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Um brasileiro-croata na Copa do Mundo


Todo dia, ao ajeitar a gravata de seda, ele sorria para seu reflexo: "um cavalheiro croata". Sentia-se elegante como seus ancestrais ao apresentarem a gravata à corte de Luis  XIV e do Cardeal Richelieu, dos Três Mosqueteiros.

Nosso herói gosta muito de gravatas e de futebol, não perdendo os jogos do time dos manos. Quando a abertura da Copa do Mundo foi marcada para o novo templo do seu time, decidiu participar do jogo inaugural de qualquer maneira. O sorteio dos grupos definiu Brasil e a Croácia, o que considerou um sinal dos deuses. Iniciada a venda dos ingressos, registrou toda a família e os amigos próximos, mas não teve sorte  no sorteio. Teria que comprar no câmbio negro, contrariando seus princípios morais. E econômicos, é claro. Inconformado, todo dia vasculhava o site da FIFA atrás de ingressos. Ela não tinha vendido todos, onde estariam os ingressos faltantes? Num dia, viu no cantinho do site a bandeira da Croácia. Curioso, clicou no ícone e descobriu o paraíso! Ali estavam os ingressos exclusivos para a torcida croata! E ninguém mais croata do que ele, o passaporte que tirara em homenagem a seu pai e seus avós era a prova definitiva. Recordou a outra motivação para obtê-lo: a notícia que os filhos do Lula tinham tirado passaportes italianos. Eles deveriam saber de coisas pavorosas do governo e do Brasil que ninguém sabia...

Ingressos na mão, comprou camisas oficiais da seleção croata, exóticas no xadrez vermelho e branco. Para não passar vexame, resolveu inteirar-se sobre o time, classificado na repescagem contra a Islândia. Dois brasileiros naturalizaram-se para a Copa: Eduardo Silva e Sammir. A Bósnia classificara-se também, mas a rival Sérvia ficara de fora, para júbilo dos croatas. Aprendeu algumas palavras croatas para entabular conversa: Hrvatska (Croácia), dobar Dan (boa tarde), kako ste? (como vai?) U redu?  (tudo bem?), lopta (bola), cilj (gol), nogomet (futebol), sudac (juiz), lopov (ladrão), pivo (cerveja), žena (mulher), vruće (gostosa), magarac (bunda), palavra feia para algo belo...

12 de junho. Estava livre para ir ao estádio, comemorara o Dia dos Namorados na véspera. A mulher entendera que a tarde futebolística seria inesquecível. Também tinha ajudado sua declaração: "ao seu lado, todo dia é dos namorados, meu amor." Como ir? Camisa do Brasil? Ingratidão com a torcida croata. Da Croácia? Derrota certa, gozação acirrada.  Do Curingão? O coração balançou, mas optou ir com duas, Croácia por cima e Brasil por baixo. Por baixo não, mais perto do coração. Viu-se no espelho: barba cerrada, camisa quadriculada, poderia passar por croata, se ficasse calado. No caminho, deu muitas entrevistas, não é toda hora que há um poste quadriculado no metrô.

Itaquerão, casa cheia, torcidas barulhentas. Foi fácil achar seu lugar, o xadrez vermelho e branco se destacava na massa verde e amarela. Cumprimentou os vizinhos com as poucas palavras croatas que conhecia. O sorriso e o inglês mal falado, língua universal, fizeram a integração entre croatas, alemães, húngaros, ingleses, russos e ate italianos e turcos. O futebol é mundial!

Os dois times perfilados. Hino da Croácia. Emocionou-se, lembrou-se dos pais, dos avós, eles estavam ali com ele. Hino brasileiro. Não resistiu, cantou com seus conterrâneos, para surpresa dos croatas. Apareceu no telão do estádio: um croata cantando o hino do Brasil. Galvão destacou que a sua imagem era o exemplo da integração dos povos pelo futebol. Mas o melhor veio depois, as homéricas vaias à presidente, acompanhada de um corinho bem animado, ao qual os croatas e outros estrangeiros aderiram com gosto: políticos em estádios atrás de votos têm que ser execrados.

Bola rolando, Brasil melhor, mas sem chegar ao gol tão esperado. A Croácia contra-ataca com algum perigo, o zagueiro cruza da direita para o meio da área, Marcelo tenta tirar e faz gol contra! Silêncio na torcida brasileira e explosão de alegria dos croatas e estrangeiros. Resultado inusitado, mas Brasil é favorito, adversário perigoso. Ele fica dividido. Estava preparado para comemorar um gol croata, mas não ganhando do Brasil. Croatas o abraçam, ele sorri amarelo e fica vermelho. Um alemão, eufórico, grita, em alemão e inglês, que serão campeões, a Copa é da Alemanha e ninguém tasca! (tradução livre). Nosso herói, indignado, assumindo seu espírito de mano, afasta o germânico e falando um inglês castiço (fuck you, mother fuck, etc.) mostra a camisa brasileira, provocando cisão na pequena torcida croata. Ele grita em inglês que a Dilma comprou a Copa, o outro retruca que a Merkel tem euros, que valem mais. A turma do "deixa disso' entra em ação e acalma os ânimos. O alemão aponta dois dedos para seus próprios olhos e para nosso braso-croata, que gesticula uma "banana". Será que se entenderam?

Brasil ataca, ataca, mas são precisos longos dezoito minutos até que saia o gol de empate. Nosso amigo respira aliviado e disfarça o júbilo com Neymar para não ofender seus ancestrais. Por dentro vibra intensamente, a Copa está ganha, ninguém segura o camisa dez da seleção. Mais quinze minutos de sofrimento para os dois times e é intervalo. Todos relaxam, efeito do calor e da cerveja. A região da torcida croata é uma verdadeira babel, muitas línguas, mas pouco entendimento. No meio da conversa internacional, um estrangeiro diz que o time brasileiro é Neymar e mais dez, é só marcar o garoto que o time  acaba. Nosso corintiano reclama e menciona Oscar, Fred, Bernardo, Hulk...

Segundo tempo, a bola rola novamente, o Brasil continua melhor, mas os gols não surgem. As duas torcidas preocupadas: a brasileira com o vexame, a croata apreensiva de levar um gol, o empate está ótimo para eles. Dez, quinze, vinte minutos, um a um. Aos vinte e quatro minutos, Fred cava um pênalti que só o juiz viu.  Os croatas e seus aliados estrangeiros reclamam muito, xingam o juiz, sua mãe, nosso herói atento para aprender palavras croatas que não estão no dicionário. Silêncio no estádio, Neymar corre,  chuta, é gol do Brasil. A torcida brasileira vai ao delírio com a virada no placar e Jovan vai junto. Comemora como fosse final de campeonato, sob surpresa e censura dos croatas vizinhos. Jogo recomeça, Croácia tenta empatar o jogo, para preocupação do nosso amigo. Num momento de maior angústia, ele retira a camisa vermelha e branca, beija-a, faz dela uma bandana e deixa-se ser feliz! Com a camisa canarinho torce desbragadamente para o Brasil, como estivesse num Corinthians e Palmeiras de final de campeonato. Aos quarenta e cinco, Oscar amplia o placar. Os croatas reconhecem a superioridade brasileira e perdoam nosso torcedor, que sai do estádio cantando com a massa "...a taça do Mundo é nossa, com brasileiro não há quem possa, Brasil! Hexacampeão!" Só que não..... os alemães estavam de olho....


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