sábado, 14 de fevereiro de 2015

Cinco cenas de carnavais de outrora


Cena 1 - Três, quatro anos – Matinê nos elegantes salões do clube. Banda muito animada tocando as marchinhas de sucesso. Estou fantasiado de tirolês ou índio, chapéu de feltro verde na cabeça ou um cocar indígena, mas conga azul nos pés. Amarrado ao braço um saquinho com confetes e serpentinas. Na mão uma garrafinha plástica para espirrar água nos outros pequenos foliões. Danço? Pulo? Canto? Não, cato confetes e serpentinas do chão, enchendo o saco transparente, que exibo aos meus pais como troféu, para decepção de minha mãe. "Vai dançar, menino!", "Tem tempo, mãe, agora quero enricar!"

Cena 2 - Doze anos, quem sabe treze – Matinê no ginásio de esportes do clube. Trajo camiseta colorida, bermuda idem, cordão havaiano e conga ou ki-chute azul. Estou no cercado de dez a quatorze anos, olho cumprido nas folionas de quinze a dezoito. Um dia chego no paraíso! Enquanto isso não vem, olho o jovem mulheril a mim disponível. Vários "trenzinhos" cruzam o salão, tenho que embarcar num deles, mas não posso errar o bote, as meninas não gostam de ser as segundas, terceiras opções. Começo a salpicar confetes nas pré-selecionadas que passam por mim. Colho alguns sorrisos, poucas indiferenças, um muxoxo, um sacudir de ombros. Mudo de lado, seleciono, salpico. O foco está em três eleitas, todas de pareô, mas não posso demorar-me, muitos gaviões no pedaço. Tento enrolar as candidatas na serpentina. Uma corta a fita, outra pega o rolo da minha mão e lança-o adiante, a terceira sorri e joga o rolo para mim. É agora. Sigo o trem, procurando-a, ela está na frente de outra menina. Faço um gesto de que quero entrar na brincadeira, ela permite, estico os braços e coloco as mãos nos morenos ombros desnudos. Imagino coisas. A eleita olha para trás, sorri satisfeita e segue o trenzinho. Delícia! Sigo dançando,  torcendo para uma parada brusca do trem. Delícia!

Cena 3 - Quatorze, quinze anos – Baile do Havaí nos salões do hotel de uma pequena cidade do interior de São Paulo. Fizemos um "esquenta" antes da festa. Metade não conseguiu chegar no baile, os outros cambaleavam no salão, eu incluso. Meu pai aproximou-se e disse: "se der vexame aqui, vai apanhar de jamais esquecer". Passa uma foliona por mim, está de pareô, abraço-lhe com sorriso bêbado. A santa deixa-se enlevar e seguimos juntos a noite toda, ela pensando que é amor, eu sabendo ser apenas interesse. Só na coca-cola, sem vexame, a noite salva. Dia seguinte, ressaca brava, batem à porta do meu quarto no hotel. Abro, a luz ofusca-me, uma mulher muito feia sorri para mim. Camareira, apesar do aviso de "não perturbe"? Não, era ela, cobrando prometido passeio pelo parque de diversões. Vai indo que não vou...

Cena 4 - Dezessete anos – Baile carnavalesco num dos melhores hotéis de São Lourenço - MG. Estou bebendo, dançando e conversando com uma universitária de pareô, que me encanta a dias. Acho que agora vai dar para mim. A banda faz uma pausa, ela vai ao banheiro, digo que vou esperá-la ali mesmo. Encosto na parede e espero. Espero, deslizo pela parede e sento no chão. Espero. Acordo olhando estrelas, o ar frio da madrugada sobre mim. Onde estou? Onde estão todos? Cadê a música? Cadê ela? Rodo a cabeça de um lado para o outro: estou deitado de braços abertos sobre o capô de uma brasília, qual cristo carnavalesco. Consigo sentar-me. Estou só, numa rua desconhecida, pessoas passam por mim e riem da minha situação. Tento entender o que aconteceu. Só lembro dela se afastando rumo aos sanitários. Uma tristeza me devora: cadê meu pareô universitário? Beber é uma merda!

Cena 5 – Trinta e cinco anos - Matinê no ginásio de esportes do clube. Trajo camiseta, bermuda e tênis coloridos, cordão havaiano. Filhos e sobrinhos fantasiados: dois índios selvagens, uma bailarina, uma flamenguista a caráter e uma "pedrita". Estão no cercadinho de três a sete anos. Fico ali na cerca para tomar conta dos cinco foliões, mas eles se bastam, pulam, dançam, brincam, juntos ou separados, com as outras crianças. Assim, distraio-me olhando ao meu redor. Na cerca, junto comigo, muitas belas mães folionas, algumas de pareô, o que me trás recordações de bailes antigos, alguns ali mesmo naquele ginásio de esportes. Vou para perto do cercado de dez a quatorze anos. Continua animado, muitos "trenzinhos" cruzando o salão, a paquera inocente... sinto saudade dos meus treze anos, tempo bom. Por onde andará a linda morena que conheci num daqueles bailes, seria uma das mães do cercadinho infantil?  Vejo meninos "azarando", de longe, moças do cercado de quinze a dezoito anos. Sorrio. Lá ainda é o paraíso para os garotos imberbes! Chego mais perto e observo-as. Realmente, são de virar a cabeça, não só dos imberbes, mas dos barbudos também. Baba, baby, baba. De repente constato, surpreso, que nunca participei do paraíso: quando completei quatorze anos, já estava em outros carnavais. Gritos infantis acabam com minha viagem sentimental pelos carnavais de outrora. Volto ao cercadinho, meu filho quer ir ao banheiro. Vamos e voltamos correndo, que o pequeno cidadão não quer perder um minuto da folia. A banda toca uma música da Xuxa, o salão ferve, as crianças e os adolescentes pulam animados. As mães ao meu lado resolvem virar paquitas, acabando-se na coreografia. Desvio o olhar para o chão: coberto de confetes e serpentinas, não só as tradicionais de papel azuis, rosas, amarelas e verdes, mas algumas douradas e prateadas. Riqueza! Reparo, surpreso, que nenhuma criança está recolhendo aquele tesouro. Fico agoniado: "Essas crianças não querem enricar!"




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