sexta-feira, 6 de março de 2015

A vida e a arte

Ele está desconsolado, triste, deprimido, puto da vida, quer morrer. Não é a primeira vez que pensa em morrer, mas hoje vai dar certo, o trem irá passar por cima dele. Simples assim. Muito mais fácil que cortar os pulsos. Além do desespero, precisa ter coragem para pegar uma faca e cortar os pulsos: rasgar a pele, cortar fundo, esperar o sangue sair, pulsando, vermelho, dele... irá desmaiar e não quer desmaiar, quer estar consciente na morte, no momento exato em que deixar essa vida e passar para outra. Quer ver acontecer, a morte, quem sabe volta para contar. Por isso, também remédios, drogas, nada resolvem para ele. Tem que estar presente, lúcido, consciente do que está fazendo, do que está acontecendo. Só assim não irá para o inferno. Deus está vendo toda a sua dificuldade, Deus está deixando tudo isso acontecer com ele. Foi Deus que o criou, foi Deus que o fez assim, que está vendo, que está aprovando sua morte.

A plataforma da estação está vazia, naquela manhazinha de domingo. Ele veio a pé do centrão. Augusta, Nestor Pestana, República, Arouche, Major Sertório, Roosevelt, Augusta, Paulista. Uma noite intensa, tensa, que não conseguiu alegrá-lo, resgatá-lo para a vida. Bebeu, fumou, cheirou, transou, brigou, transou, fumou, cheirou, bebeu e a dor no peito não passou, não passará nunca, jamais. Concluiu que só há uma solução: ele partir dessa para melhor, que pior não haverá.

Só o trem chegar e se lançará. Está no início da plataforma, logo no ponto onde a máquina sai do túnel, velocidade máxima. Não dar chance para o motorneiro frear. É aqui que vai morrer. Garantia de que não vai ficar ferido, paraplégico, tetraplégico, nada. Quer morrer. Fim, finish, tchau. Não deixou carta como fazem os suicidas, uns desesperados. Ele não, apenas decidido por mudar de vida. O painel verde à sua frente, da Tomie Ohtake, é um sinal positivo: siga em frente!

Não quer culpar ninguém pelo seu ato. Por isso, o dia e hora e aquela plataforma. Gostaria até que o trem não tivesse condutor. Esse irá vê-lo pular bem na sua frente e não poderá fazer nada. Certamente ficará traumatizado por um bom tempo. Ossos do ofício, ossos da morte. Mas não irá dar nenhuma chance para nenhum motorneiro. Irá pular no momento exato, na hora exata, não vai deixar o condutor perceber seu intento, não irá tremer, só saltar como se fosse um goleiro tentando pegar a bola do outro lado dos trilhos,  esticar-se todo e se acabar no para-brisa do trem, que o jogará longe e depois passará por cima. Morrerá da pancada ou da queda ou da fragmentação nos trilhos, resultado garantido. Foi-se, dirão dele. De uma só vez. Nem sofreu, dirão. Tomara, ele pensa.

- Moço, esse painel é o verão da Tomie Ohtake? Ou será o outono? Moço??!?

Uma voz feminina interrompe seus pensamentos. O que ela estaria fazendo ali, naquela hora? Não dormira como ele? Não olha para ela, ignora-a. Mas o trem entrou na estação, o motorneiro olhou para ele, acha que até sorriu e freou o trem..  Era o seu, sua hora e ela o atrapalhara. Ficou com vontade de abraçá-la e pular com ela na frente do próximo trem, para morrerem juntos. Não, a morte é uma coisa solitária, individual. Mesmo os que morrem num acidente aéreo, duzentas pessoas de uma vez, cada um morre à sua maneira, no seu momento. Estão juntos, mas morrem separados, cada qual com seu desespero, cada qual com suas lembranças, amores, saudades, ódios. O trem parte com suave zumbido. Esperar o outro, não mais que três minutos para a sua morte, o Metrô garante. Tem que ficar calmo, concentrado, como estava antes dela o interromper, atento ao barulho que virá do túnel, jogar-se na hora certa, não dar chance ao motorneiro, um duelo pessoal. O painel verde fica visível novamente e a mulher insiste:

- Moço, que estação do ano é esse verde? Ei, moço?!?!

Ela toca-lhe o ombro. O trem está para chegar, angustia-se. Ele olha para ela e diz que não sabe. Ela mostra-lhe um papel com o desenho de quatro painéis coloridos:

- Acho que é o verão. Mas também pode ser o outono. Tô na dúvida. Aquele lá é o inverno, com certeza, todo cheio de azuis, e o outro a primavera, com amarelos e laranjas. Ou ao contrário, não? Esses artistas fazem tudo diferente.

Ele olha para o painel à sua frente, um amontoado de pastilhas em tons de verdes, claros, escuros, musgos, uma barra amarela no alto....

- Sei lá se isso é outono ou verão, melhor perguntar para a Tomie....
- Ela morreu, não sabe?

Tem vontade de dizer que, se ela não atrapalhar, breve estará com a pintora, poderá perguntar-lhe pessoalmente, mas se cala. Não pode revelar suas mortíferas intenções.  Ela insiste sacudindo o papel à sua frente. Resignado, ele examina com cuidado o painel. Realmente, ele pode ser tanto a representação do outono como do inverno, nunca verão. Mas será que no Japão o verão é tão luminoso como o do Brasil? O que a Tomie queria dizer com esses painéis? Cada um representaria exatamente uma estação? Quem sabe seriam misturas de estações, a fluidez e continuidade da vida.... A mulher insiste:

- Depois desses painéis ainda quero ver as ondas dela no meio de uma avenida e a escultura vermelha no auditório do Niemeyer. Dá para ir de Metrô?

Só os dois na plataforma. Certo que ela não o largará enquanto não descobrir o que representa cada painel. O trem da morte chega à estação e pega-o desprevenido. Ele vê, atônito, o trem parar, abrir as portas, poucas pessoas se dirigirem rápidas às saídas da estação. A sirene de fechamento das portas retira-o do torpor, ele vê o trem partir, revelando os painéis verde, amarelo, azul e vermelho, vermelho intenso da boca da mulher que lhe sorri. Ele lembra da escultura da Tomie no Auditório Ibirapuera, tão sensual e carnuda quanto aqueles lábios. Será um sinal divino? As curvas da Tomie naquela mulher com vestidinho primaveril? Arte e sexo? Não é mais um bom dia para morrer. Ele saca o celular:

- Vamos ver na internet o que significa cada painel. Meu nome é Jonas e o seu?


José FRID


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