Estou preso no bar praiano: chuva torrencial de tarde-noite. Os táxis passam a mil, quase todos ocupados. Como chove a cântaros ou cats and dogs, em português castiço do Brasil, não posso caçar os táxis na calçada. O tempo é o senhor da razão, já lia um ex-presidente escorraçado do poder. Tic-tac, tic-tac, a chuva continua. Já inspecionei todos os cantos dos dois andares do estabelecimento etílico-gastronômico, fiquei amigo de infância do gerente, dos garçons, dos cozinheiros e os gatos e cães continuam caindo nos cântaros lusitanos... eis que um veículo de aluguel para bem na porta do recinto. O porteiro, com um enorme guarda-chuva, corre solícito para receber os novos clientes. Os vidros escuros do táxi impedem que eu veja o motorista. Aceno às cegas para ele, dando a entender que preciso ser transportado a seco pela cidade. Transcorrido um tempo imemorial, o vidro escuro desce e o motorista gesticula para eu adentrar o gramado, digo, o veículo. O porteiro ignora-me, já deixei o dinheiro na registradora, não tenho valor para ele. Apelo para meu novo amigo do jardim de infância: o gerente manda o guarda-portas a levar-me a seco até ao táxi Salvador.
Acomodado ao lado do piloto do veículo, agradeço-lhe efusivamente a cortesia de aceitar-me conduzir pelo dilúvio inesperado. Ele, modesto, diz que está na praça para trabalhar, atender à demanda do povo. "Taxista sem passageiros não sobrevive", diz ele, desviando de buracos alagados, de pedestres afoitos e de futuros passageiros desesperados que se jogam na frente do carro.
- Para os taxistas é bom esse tempo, chove clientes, não?
- È....
- Não é bom?
- É...depende....
- Como assim?
- Não pego passageiro que esteja com guarda-chuva.
- Não?
- O nome já diz: guarda-chuva. Ele guarda e quando o passageiro entra no carro despeja a chuva no chão. Fica uma fedentina, um cheiro de cachorro molhado, chega a fazer lama no carpete. Outros folgados, mulheres principalmente, chegam a colocar as sombrinhas sobre o estofamento. Prefiro que não...
- Você tem coragem de deixar o pessoal na chuva mesmo estando vazio?
- Sim, passo reto, ignoro. Também não pego gordos suados, homens de terno no calorão, vão emporcalhar o estofado com suores.... um nojo, não?
- É...
- Prefiro mulheres magras ou passageiros saindo do shopping, escritórios bacanas, hotéis, tudo no ar condicionado. Madames cheirosas, limpinhas, são as melhores.
Concordo com a cabeça, temendo com o que poderá acontecer comigo caso ele descubra que passei a tarde numa feijoada com muitas caipirinhas, cervejas, axé, pagode, sertanejo, tudo sendo exalado por todos os meus poros e transferido diretamente para o adorado estofamento....
José FRID
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