Estranhas aves
O grupo de intrépidos aventureiros está disperso pelas mesas do simplório restaurante. Quinze horas, hora do almoço tardio, peixe frito e frango caipira. Eles estão cansados, mas extasiados com o passeio ecológico por cerrados, florestas, flores de todos os matizes, cogumelos de todos os formatos e cores, formações rochosas surpreendentes, rios cristalinos, outros soturnos, cavernas gigantescas, breu absoluto, lagoas azuladas, araras, papagaios.... a natureza em seu esplendor.
Um casal de seriemas perambula no terreiro, olhando os turistas com desconfiança, sentimento recíproco deles, que não conhecem o comportamento daquelas aves pernaltas, garras fortes, bico grosso recurvado e um penacho ameaçador na cabeça. A maioria só as tinha visto em fotos ou documentários sobre o cerrado. Digamos que há um respeito mútuo entre predadores...
Um pequeno gato passeia entre as pernas dos turistas, fazendo sucesso. Preto, com patinhas e rosto com manchas brancas, parece de pelúcia. Quando a comida é servida, ele começa a miar junto a cada comensal, pedindo sua parte, mas os humanos estão, no momento, empenhados em apaziguar seus próprios estômagos, com medo da comida acabar. Alguém aponta as aves e fala para o felino caçar sua própria comida. O gatinho olha na direção indicada, mas apenas mia mansamente. Outro pergunta quem venceria o embate entre as aves e o gato. As apostas majoritárias são nas aves, uma bicada ou uma pesada e adeus felino.
Após fartarem-se, os turistas dão restos do peixe e do frango para o gato, que come o primeiro sem incomodar-se com as espinhas, e rejeita os ossos de galinha. O guia do passeio diz que quem gosta dos ossos são as seriemas. Ninguém acredita no homem, pensando que é mais uma de suas brincadeiras. Ofendido, ele pega uma coxa de frango e oferece à ave mais perto, como se ela fosse um cachorro. O bicho, depois de certo receio, vem buscar o acepipe na mão do homem. Pega o osso pelo meio e sai com ele no bico, compondo uma figura engraçada. Os cidadãos ficam surpresos com o comportamento da seriema. Ave comendo osso? A outra ave tenta roubar o acepipe e sai briga feroz no terreiro. O guia joga outro osso e volta a paz temporária ao casal. Cada uma procura um canto distante, para refestelarem-se em segurança com os esqueletos galináceos.
Os turistas veem, boquiabertos, as aves descarnarem os ossos, inclusive a cartilagem. Elas prendem os ossos com as garras e puxam os restos de carne com o bico apropriado para essa função. O guia, feliz com o interesse dos caminhantes, diz que o melhor ainda está por vir, aguardem. Não muito depois, uma das aves pega o osso descarnado com o bico, levanta a cabeça bem alto e arremessa-o com força ao chão cimentado. Repete a operação até estilhaçá-lo. Passa a degustar o tutano do osso e a comer também os fragmentos resultantes da operação. A outra ave faz o mesmo, arremetendo seu osso contra uma pedra do terreiro. As duas martelam os ossos até não sobrar nada. Elas voltam ao rancho e põem-se a caminhar à frente da plateia. Aplausos? Os turistas, maravilhados, pegam outros ossos e arremessam para as aves, que repetem o show gastronômico. Vivendo e aprendendo, comentam os aventureiros. Um deles acessa a internet e informa que as aves comem cobras pequenas, inclusive venenosas, rãs, lagartos, roedores, calangos, gafanhotos, pequenos mamíferos... o gatinho parece que entende a fala e se esconde sob a mesa central. Outro andarilho diz que no caso do casal é ave comendo ave. Todos olham para os perigosos, habilidosos e gulosos bichos emplumados: as seriemas são canibais!
José FRID
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