Que alguém cante enquanto trabalha no lugar a ele destinado, seja atrás de uma máquina ou no arado (o que seria uma situação bastante privilegiada!), não tem evidentemente nada de errado; por outro lado, seria falso invocar constantemente as profissões para desalojar o escritor artístico (evito a abominável expressão "autor de ficção") do seu ofício. Ninguém pensaria em empurrar um cordoeiro, um carpinteiro e um sapateiro de sua atividade manual "para dentro da vida", a fim de que eles se tornassem melhores cordoeiros, carpinteiros e sapateiros. Também seria melhor deixar o músico, o pintor, o escultor trabalhar como devem. Apenas no caso do escritor, a atividade parece tão insignificante, tão lograda desde o início (qualquer um pode escrever) que algumas pessoas pensam que quem se ocupa dela cairia imediatamente num jogo vazio, se fosse deixado sozinho com seu ofício! Mas que equívoco! Saber escrever é igualmente um "artesanato difícil", tanto mais quanto o material das outras artes foi, desde o início, apartado do uso diário, enquanto a tarefa do poeta se intensifica com o dever solitário de distinguir de forma completa e essencial sua palavra das palavras empregadas na troca e na comunicação simples. Na poesia, nenhuma palavra (refiro-me aqui a todo "e" ou "o", "a", "isso") é idêntica às palavras homófonas na conversação. A regularidade mais pura, a grande relação, a constelação que ela assume no verso ou na prosa artística modificam-na até o cerne de sua natureza, tornam-na inútil, imprestável para a mera troca, intocável e duradoura.
Rainer Maria Rilke in Cartas do poeta sobre a vida, seleção de Ulrich Baer, Martins, 2007, pág. 105/106
Nenhum comentário:
Postar um comentário