sábado, 25 de julho de 2015

Meu pai e Frederico


Apenas na tarde de sexta-feira, ensolarada, mas fria, desconfiei que meu pai sumira junto com o Frederico já naquela segunda-feira nublada, quente e úmida como se fosse uma floresta. Naquele dia fui dormir despreocupado porque sabia que os dois boêmios não resistiam a um bar bem frequentado, como os muitos existentes nas ruas próximas de casa.  Mesmo numa segunda à noite, os bares atraíam os dois como as luzes às mariposas de Adoniran.

O primeiro dia da semana tinha sido exaustivo, com reuniões, cobranças, decisões difíceis. Quando consegui chegar em casa nem me preocupei com os dois fujões. Meu pai não costumava estar na minha casa para eu sentir sua falta, e Frederico era quem me procurava toda noite no meu quarto.  Banho, iogurte, alguns remédios, cama, tevê, findou-se meu dia, ou melhor, a noite.

Na manhã da terça até cheguei a procurar os dois nos respectivos quartos, mas as coisas largadas de Frederico e o quarto impecável do meu pai deram-me a impressão deles terem saído para um passeio matinal. Frederico tem sono leve, meu pai insônia, um par perfeito para dormir tarde, acordar cedo. O toque estridente do celular tirou-os da minha cabeça, afinal eram dois maiores de idade, saberiam se cuidar. Ao retornar à noite ao silencioso apartamento, lembrei-me novamente dos dois boêmios, mas a imagem do Frederico atraindo mulheres para meu pai me fez sorrir e pensar que estavam em boa companhia, mereciam-se. Quando meu pai fosse embora, Frederico sentiria muito a falta dele. Cuidei da minha vida: banho, iogurte, alguns remédios, cama, tevê, findou-se mais um dia de cão. Até quando? Qualquer dia eu até latiria ....

Cheguei ao aeroporto com a manhã da quarta-feira ainda escura. Dessa vez despertara antes da dupla de madrugadores e não quis acordá-los. Esperando o embarque, perguntei-me sobre quando papai iria embora. Será que já resolvera todos os seus problemas? Ele chegara no sábado de manhã, bem na hora que eu estava saindo com o Frederico. Só falou que tinha vindo para uma reunião na segunda. Deixou a mala no quarto de visita e fomos nós três ao parque. As coisas foram sucedendo-se rápidas no fim de semana, só alegrias, bebidas e comilanças, nem chegamos a conversar sobre nossas vidas. Como Frederico certamente não iria me contar nada, eu mesmo teria que perguntar a meu pai, contrariando meu intento de não mais me envolver em sua vida.

Ao retornar ao lar doce lar, altas horas, percebi que Margot tinha vindo fazer a faxina na casa, tudo arrumado e com cheiro de limpo. Os dois não estavam em casa. Papai tinha uma vitalidade boêmia de dar inveja. Eu não conseguiria sair três noites seguidas e ainda acordar cedo. Teria que reunir forças para sair com os dois na próxima noitada. Até quando papai ficaria? Banho, um cowboy 15 anos para relaxar, vários remédios, cama, tevê, apagão.

Fui despertado  pelo berro do celular. Perdera a hora, 15 anos não combinam com sonífero. Silêncio no recinto. Os dois  já fora de casa? Novos berros telefônicos expulsaram-nos da minha mente e a mim da cama, da casa, do prédio: urgências urgentíssimas!  Apagado o incêndio comercial, tudo tranquilo de tarde no escritório, retornei ligação de Mariza. Como Frederico estava com papai, fui direto para a casa da deusa, eu merecia o descanso do guerreiro.

Acordei com vontade de ir ao banheiro, Mariza abraçada em mim. O celular desligado não deixara o mundo chegar até nós. Ressuscitei o bichinho digital e começaram a pipocar what'sapps, e-mails, torpedos, avisos de ligações perdidas:  parecia que o mundo iria acabar às 11:17 da sexta-feira. Descolei a mulher de mim e fui reinar, lendo as mensagens. Com a minha ausência, os problemas surgiram, avolumaram-se, agudizaram-se e, pouco a pouco, foram se resolvendo durante a manhã. Percebi que eu era uma criatura dispensável naquele dia. Pensei em que Frederico e papai estariam fazendo. Seria uma boa oportunidade para inteirar-me das façanhas dos dois. "Meu reino por um papel higiênico", gritei para despertar a loira.

Após beijos, abraços e promessas de amor eterno, ligações comunicando meu mal estar fatal, trânsito louco de sexta-feira, estou no silêncio do meu apartamento. A sala está como Margot deixara, inclusive o cheiro de limpo. Idem nos quartos de Federico e o de papai, exceto meu quarto, no desalinho de sempre. Como meu pai conseguira tal façanha de manter tudo organizado com Frederico em casa? Banho, iogurte, alguns remédios, estou perambulando pela casa vazia. Será que almoçarão fora? Quanto tempo meu pai ficará?

Atrás de respostas, entro no quarto de visita, intacto, parece alojamento de quartel. Abro o armário e não encontro a mala de papai. Surpreso, vasculho tudo, sem encontrar nenhum sinal dele. Apreensivo, vou ao quarto de Frederico. Tudo arrumado como Margot deixara. Como papai conseguira tal proeza? Com saudades dele, procuro seus objetos preferidos: cobertor, bola....


Cachorro! Papai roubou meu cão!


José FRID

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