A mulher olhou para mim com surpresa. Eu estava fantasiado de atleta suado, parecia um homem de boné. Sustentei o olhar inquisitivo. A caixa do supermercado ficou perplexa e sem saber o que fazer com aquele aparente cliente masculino que se ofendera em não ser reconhecido como Laura.
- O senhor me desculpa, é que...
- Isso é preconceito da senhora, ou não posso me chamar de Laura?
Ela olhou para os lados procurando ajuda, mas não havia nenhuma supervisora próxima. O programa de milhagem do supermercado está em nome da minha mulher. A comerciária tinha perguntado se a "Nota Paulista" seria emitida em meu nome ou no da Dona Laura...
- É que nunca imaginei que...
- Sem problemas. Não fiquei ofendido.
Ela, com as mãos meio trêmulas, começou a cobrar as compras de sábado, só produtos de primeira necessidade: cerveja, pão francês, presunto, queijo, cerveja, pão de forma, cerveja, ... Para quebrar o gelo, puxei conversa:
- Hoje li na UOL que no sul uma mulher engravidou o marido.
Ela virou-se para mim desconsolada, interrogando-me com os olhos. Continuei:
- É que o marido na verdade nasceu mulher, e a mulher nasceu homem. Como eram um homem e uma mulher, deu certo.
Ela balançou a cabeça em sentido negativo e voltou ao seu trabalho: cerveja, suco, requeijão, cerveja, salaminho... Parou de repente e virou-se para mim
- Mas o senhor sabe que eles formam um casal heterossexual?
- Como?
- São um homem e uma mulher...
- Bem pensado! Estão invertidos, mas cada um gosta do sexo oposto...
- Realmente, a gente não deve ter preconceito.
- Eu posso ser a Laura....
Ela sorriu e perguntou se eu queria sacos plásticos. Declinei. Ela, escaldada:
- O titular da conta vai ganhar 10 pontos.
Sorrimo-nos, paguei a conta, guardei as mercadorias no carrinho e saí rumo ao estacionamento, certo de que ela estaria olhando para minha bunda para ver se eu rebolava. Tive que me segurar....
José Frid
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