Ver é para nós a mais autêntica possibilidade de adquirir algo. Se aprouvesse a Deus que nossas mãos fossem como nossos olhos - tão dispostas no agarrar, tão despreocupadas no soltar todas as coisas -, seríamos verdadeiramente ricos. Não enriquecemos ao deixar que as coisas permaneçam e definhem em nossas mãos, mas permitindo que tudo passe por seu alcance como pela festiva porta de entrada e retorno ao lar. Nossas mãos não devem ser um esquife, mas uma cama apenas, em que as coisas têm sono e sonhos crepusculares, de cujas profundezas falam seus mais caros segredos. Mas as coisas devem seguir adiante, robustas e fortes, para além das mãos, e não devemos reter nada delas senão a corajosa canção da manhã, que paira e oscila atrás de seus passos pouco a pouco inaudíveis. Pois posse é pobreza e medo: a posse despreocupada é ter possuído algo e dele ter aberto mão!
Rainer Maria Rilke in Cartas do poeta sobre a vida, seleção de Ulrich Baer, Martins, 2007, pág. 62/63
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