A Augusto dos Anjos
Avisei aos meus parentes e amigos
Avisei aos meus parentes e amigos
tempos atrás
que queria ser enterrado num caixão simples
de pinho barato como os violões populares
sem veludo, mas forrado por jornais do dia, da semana
uma pilha de revistas para apoiar a cabeça e ter bons sonhos eternos.
Nada de flores.
por cima apenas livros, muito livros
principalmente os que comprei e ainda não li
- a eternidade é longa.
Pijama ou bermuda e camiseta, chinelos
nada de terno e gravata,
sapatos pretos brilhantes
- a passagem tem que ser feita com muito conforto.
Os vermes que me comeriam
também degustariam da polpa culta
de que minha alma foi feita:
Machado, Drummond, Lobato, Augusto,
Tostói, Graciliano, Eco,
Castelo, Pessoa, Eça, Saramago,
Ubaldo, Braga, Rosa, Poe...
Llosa, Gabo, Borges, Arlt
- iríamos juntos, uma só irmandade.
(Vejo que a maioria já está esperando-me)
Estou durando muito
os impressos estão acabando antes de mim
jornais, revistas, livros
os vermes terão que se contentar comigo
e tablet e celular
Não! Cremação já!
Que o fogo queime tudo,
eu, minha biblioteca e o pendrive com
minhas mal traçadas linhas
embalados nas cortinas do meu quarto
que velaram por muitos bons sonhos
aparando pesadelos mortais
e os óculos, é claro, tenho que achar o bom caminho...
Vermes! Irei, mas não serei de vocês!
José FRID
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